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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Lelo critica Casagrande e recuo de Hércules em Vila Velha: "Oportunismo"

Presidente do MDB-ES associa ao Palácio Anchieta a perda de muitos prefeitos eleitos pelo partido em 2016 e o lançamento de candidatos emedebistas, em Vitória e na Serra, não reconhecidos pela direção do próprio partido

Publicado em 03/10/2020 às 14h13
Atualizado em 03/10/2020 às 14h15
Lelo Coimbra
Lelo Coimbra. Crédito: Amarildo

Em 2016, o MDB foi o partido que mais elegeu prefeitos no Espírito Santo, em 17 municípios. Após sofrer verdadeira debandada, chegou para a eleição deste ano com apenas oito prefeitos. Em Vitória e na Serra, candidatos filiados ao MDB se lançaram de forma individual, contra a vontade da direção do próprio partido.

Além disso, ao longo dos últimos dois anos, o MDB ocupou as páginas do noticiário político no Estado, basicamente, por um motivo: a disputa interminável pela direção estadual da legenda, marcada por uma guerra de liminares judiciais e protagonizada pelos ex-deputados federais Marcelino Fraga e Lelo Coimbra.

Este último, atualmente, é o presidente de uma Comissão Executiva Provisória do partido no Espírito Santo. Foi ele quem, na última quarta-feira (30), concedeu-nos a entrevista que se segue.

Nela, Lelo reconhece que a disputa dele com Marcelino prejudicou o planejamento eleitoral do MDB-ES para este ano, mas atribui a perda de espaço político da sigla no Estado à soma de outros fatores: a desfiliação do ex de Paulo Hartung no fim de seu último governo, em 2018, a ascensão do bolsonarismo e o assédio sublinhado por ele por parte do governo Casagrande sobre prefeitos até então filiados ao MDB.

Aliás, Lelo associa ao Palácio Anchieta tanto a perda de muitos prefeitos eleitos pelo MDB em 2016 como o lançamento de candidatos emedebistas, em Vitória e na Serra, não reconhecidos pela direção do próprio partido.

Enquanto alguns emedebistas se lançaram sem o consentimento da direção estadual, aquele que era a maior aposta do partido na Grande Vitória acabou recuando – segundo Lelo, também contra a vontade da cúpula partidária: Hércules Silveira, em Vila Velha. Segundo Lelo, a desistência do deputado em disputar a eleição e seu apoio de última hora a Neucimar Fraga (PSD) não estavam nos planos do MDB estadual.

O MDB no Espírito Santo está enfraquecido?

O MDB passou, na eleição de 2018, como outros partidos, situações muito difíceis. Teve o movimento da renovação nacional, teve o movimento do “muda tudo”, teve o bolsonarismo muito forte, que está muito presente. Esse sentimento ainda está muito forte, e as redes sociais refletem isso. Isso resultou numa eleição difícil em 2018. Na Câmara Federal, a bancada do MDB passou de 54 para 34 deputados. A bancada do PT conseguiu crescer por uma resiliência no anti-Temer, naquele processo pós-Dilma. Agora, neste governo, o Centrão começou a dar um respiro, sob os auspícios de Bolsonaro, que precisa de apoio parlamentar e decidiu que o Centrão é a base parlamentar dele.

E no Estado?

Quando passamos para o Estado, não dá para comparar o MDB dos anos 1980, 1990, 2000 e agora, porque são produtos diferentes. O Paulo Hartung, por exemplo, nunca se envolveu com o partido. O José Ignácio nunca se envolveu com o partido. Aí você tem as opções que as pessoas fizeram: a Rose [de Freitas] saiu, a Rita [Camata] foi para o PSDB, o Marcelino [Fraga], no passado, renunciou por causa da Máfia dos Sanguessugas. Fiquei só eu como representante do partido. Quando o partido não tem uma representação federal, ele fica mais fraco. E, após a eleição de 2018, tivemos algo absolutamente inusitado: o governador disputou o partido. Ele queria colocar alguém da sua confiança para fazer os movimentos eleitorais que a ele eram interessantes.

Aí o senhor está falando de Renato Casagrande, não é?

Estou falando do Casagrande. Quando você vê o candidato do MDB registrado em Vitória, isso é um movimento de alinhamento com o Palácio, que não quer a candidatura de Pazolini.

O senhor está falando agora do Fábio Louzada. O senhor acha que tem o dedo não só do Palácio Anchieta mas do próprio governador nesse movimento de lançamento de candidatura individual em Vitória?

Não, não, aí não. Aí já seria demais. Se ele fizesse isso, seria o avesso do avesso. Mas esse movimento do governador resultou nesse embate entre quem quer fazer movimentos que sejam alinhados com o Palácio Anchieta.

Então, na sua avaliação, essa dissidência interna na eleição em Vitória é resultado desse embate interno no MDB, com esse pano de fundo que o senhor está descrevendo?

Com certeza.

Como presidente da Comissão Executiva Provisória do MDB no Estado, o senhor reconhece ou reconheceu em algum momento a legitimidade das candidaturas tanto do Fábio Louzada em Vitória como do delegado Márcio Greik na Serra?

Não. Eles nunca existiram. Eles foram peças colocadas aí para criar constrangimento. Talvez até o delegado na Serra tivesse desejo mesmo de ser candidato. Os outros foram para poder fazer ruído nesse processo. Nós estávamos conversando com Vandinho Leite desde o começo para fazer uma aliança na Serra e com Pazolini desde o começo para fazer uma aliança em Vitória. E havia um movimento para que essas duas coisas, identificadas como oposição ao governo Casagrande, não fossem feitas. Esse é o fato objetivo. Agora, o MDB sofreu alguns oportunismos também. Por exemplo, nós tínhamos um candidato a prefeito de Vila Velha, o vereador Arnaldinho Borgo, que é um menino bom de movimentação. Acho que ele vai crescer e dar trabalho em Vila Velha. Ele queria ser o nosso candidato.

Mas qual é o oportunismo aí?

O Hércules [presidente do MDB em Vila Velha] não deixou o Arnaldinho ser candidato, dizendo que ele seria.

Então agora o senhor está entrando no caso do novo recuo do deputado Hércules Silveira na eleição em Vila Velha. Como o senhor avalia a decisão do deputado dessa vez?

Para mim foi uma surpresa. Primeiro que ele foi afirmativo o tempo todo dizendo que seria candidato, que ele queria concluir a vida política dele como prefeito de Vila Velha. Ele fez uma movimentação, tirou Arnaldinho Borgo do partido, porque não cabiam os dois candidatos, então Arnaldinho foi para o Podemos. Depois ele fez a convenção do MDB em Vila Velha, me chamou, eu fui, participei, e ele não conversou nada comigo sobre apoio a Neucimar. No 1º semestre, cheguei a levá-lo ao Baleia [Baleia Rossi, presidente nacional do MDB], para que ele tivesse garantias de um financiamento eleitoral que fosse justo. Aí ele faz a convenção em Vila velha, ganha a convenção por 27 a 0, porque o [empresário] Idalécio Carone queria colocar o nome como candidato. Dois dias depois, ele desiste da candidatura e indica o vereador Ricardo Chiabai para ser vice do Neucimar, com um argumento estranho. Quer dizer, ele impediu Arnaldinho e Idalécio de serem candidatos, para no fim fazer esse movimento.

Em outras palavras, o senhor está me dizendo que o deputado Hércules Silveira atrapalhou os planos do MDB em Vila Velha?

Não tenha dúvida. Ele fez um movimento que não entendi.

E a decisão dele de apoiar o Neucimar em Vila Velha, como presidente municipal do MDB, foi tomada à revelia da estadual?

Nós tínhamos um candidato próprio, que era ele. Ele fez um movimento por sua conta e risco. Pelo que percebi, Hércules e Neucimar juntos, reunidos no palácio Anchieta, decidiram uma aliança entre os dois. Então esse formato tem mais a ver com uma decisão tomada no Palácio pelos dois do que tomada no partido.

O senhor acha, portanto, que essa aliança também foi costurada por Casagrande?

Os dois me disseram que se reuniram com o governador.

Voltando ao perceptível enfraquecimento político-eleitoral do MDB no Estado nos últimos dois anos. O senhor diz, com propriedade, que não se pode comparar o MDB de outrora com o atual. Mas vamos comparar o partido das eleições municipais passadas para esta. Em 2016, o MDB fez 17 prefeitos no Espírito Santo. Agora, chegou a estas eleições municipais com apenas oito prefeitos no cargo.

Temos 18 candidatos a prefeito.

Certo. Mas estou falando de prefeitos filiados. De perda de tamanho político e, objetivamente, de perda de quadros importantes nesses últimos dois anos, que coincidiram com a briga entre o senhor e Marcelino pelo comando estadual. As duas coisas, na sua avaliação, não estão intimamente relacionadas? Toda essa disputa interna não tem a ver com essa perda de prefeitos e esse enfraquecimento?

Primeiramente, é natural que uma briga interna à beira da eleição gere insegurança política para quem quer ser candidato. Por exemplo, alguns candidatos saíram porque em momentos anteriores, quando Marcelino foi o presidente, os impediu de ser candidatos. A crise sempre gera insegurança. Eu não minimizo a crise. A crise é um problema, foi um dano importante para o partido, que causou dificuldades. Mas me deixe te passar um histórico. Quando o Paulo [Hartung] se elegeu governador pela primeira vez, em 2002, nós tínhamos 17 prefeitos. Aí ele foi para a reeleição em 2006. Nesse processo, porque o MDB era poder, vários prefeitos migraram para o partido do governador, aí fomos para 25 ou 26 prefeitos. Depois houve o mandato do renato Casagrande [de 2011 a 2014] e nós voltamos para 15 prefeitos. Então, essa relação com o poder estadual é muito relevante. Nessa crise agora, alguns prefeitos, como o de Anchieta, Fabrício Petri, o de Ibitirama, o de Divino de São Lourenço, enfim, de oito a nove prefeitos que estavam no MDB foram assediados pelo palácio Anchieta e foram para o PSB ou para um partido alternativo da base alternativa. Alguns foram para o Republicanos para se proteger mas não queriam ter relação com o governo. O prefeito de Anchieta {agora no PSB] foi à minha casa e disse: “Olha, preciso sair porque estou sendo orientado a sair e vou para a reeleição. Tenho que pensar no município”. Eu disse a ele que é legítimo. Mas houve um assédio muito grande do Palácio para retirar do MDB prefeitos que com certeza vão se reeleger. Isso fez com que diminuísse esse número de prefeitos que tínhamos.

Mirando o futuro imediato, qual é a meta de prefeitos eleitos do MDB nesta eleição no Espírito Santo?

Temos 18 candidatos a prefeito. A nossa primeira meta é reeleger os que estão no mandato e tentar eleger aqueles que estão se colocando. Na Grande Vitória, temos um bom desempenho previsível para o [Wylis] Lyra em Viana. Temos o movimento do Ivan [Bastos] em Cariacica. Não temos candidato em Vila Velha, Vitória e Serra. No interior, temos um carro-chefe, que é Guerino [Zanon, prefeito de Linhares]. Ele vai para o 5º mandato e está muito bem avaliado, numa posição muito bem confortável.

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