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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

MDB no ES virou sinônimo de um caos que já ecoa na eleição municipal

A confusão é tão grande que, em Vitória e na Serra, MDB tem no momento dois candidatos a prefeito que o próprio partido não reconhece: Fábio Louzada na Capital e Márcio Greik na Serra

Publicado em 30/09/2020 às 05h02
Atualizado em 30/09/2020 às 09h06
A chama do MDB está morrendo no Espírito Santo
A chama do MDB está morrendo no Espírito Santo. Crédito: Amarildo

O MDB no Espírito Santo virou sinônimo de imbróglio. Emprestada da língua italiana, a palavra significa confusão – ou farsa, engano, embuste. Popularmente, pode ser traduzida como “rolo”. Um imbroglione é o que, no Brasil, se chamaria de um farsante, um vigarista, um enrolador. No Espírito Santo, o partido de vultos como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães tem vivido assim, de rolo em rolo. Já não consegue parar de se enrolar no próprio fio. E o caos instaurado há algum tempo entre os emedebistas capixabas já ecoa nesta mal inaugurada eleição municipal.

Ambos são dissidentes da direção partidária nos respectivos municípios e solicitaram à Justiça Eleitoral o registro de candidatura de maneira individual, à revelia dos dirigentes e contrariando as decisões tomadas pelo MDB nas respectivas convenções municipais. Na Serra o partido decidiu apoiar Vandinho Leite (PSDB) e, na Capital, Lorenzo Pazolini (Republicanos) – deputados estaduais não alinhados ao governo Casagrande (PSB).

Ato contínuo à apresentação dos pedidos de registro dos dois “rebeldes”, a assessoria jurídica do MDB-ES impugnou as candidaturas dos próprios emedebistas nas duas cidades. E, segundo o advogado Sirlei Almeida, a direção do partido provocou o Ministério Público a averiguar possível fraude no episódio – imbroglio também quer dizer fraude.

Os pedidos de registro de Louzada e de Greik foram um ato de rebeldia, para marcar posição. Não devem ter nenhum efeito prático, pois muito provavelmente serão negados. Mas traduzir bem o estado de coisas a que chegou o MDB no Estado. Essa é só a pontinha de um iceberg não só de desentendimento, mas também de enfraquecimento político, onde se lê "MDB-ES".

Tirando o prefeito Guerino Zanon, candidato à reeleição apontado como favorito em Linhares, o MDB dificilmente conseguirá eleger algum prefeito em municípios de maior porte no Espírito Santo.

Na Grande Vitória, os únicos candidatos reconhecidos pelo partido são o pastor Ivan Bastos em Cariacica (chance zero) e Wylis Lyra em Viana (pode surpreender, mas terá eleição muito difícil, contra o candidato do prefeito Gilson Daniel, Wanderson Bueno).

Em Vila Velha, pela terceira vez seguida, o carro de Hércules Silveira morreu na volta de apresentação: removido em 2012 pela direção estadual (que preferiu apoiar Rodney Miranda naquele pleito), o deputado recuou em favor de Max Filho, em 2016, e agora faz o mesmo, mas em prol de Neucimar Fraga (e contra Max).

Na eleição municipal passada, em 2016, com o então governador Paulo Hartung ainda filiado ao partido, o MDB foi o campeão de prefeitos eleitos no Espírito Santo: foram 17 (dois em cada nove). Resultado excelente.

De lá para cá, o MDB-ES derreteu, com a desistência de Hartung em disputar a reeleição em 2018 (na prática, uma derrota por W.O.), a desfiliação dele no fim daquele ano e a briga eterna que se seguiu entre os ex-deputados federais Lelo Coimbra e Marcelino Fraga pela presidência estadual da agremiação.

Também marcado por acusações até de fraudes (olha aí: imbroglio), trata-se de um conflito que se apoderou das entranhas do MDB no Estado, que já dura quase dois anos e que, conforme alertado aqui entre março e abril, prejudicou visivelmente os preparativos da legenda visando à recuperação de terreno político nas eleições municipais de novembro.

Enquanto Lelo e Marcelino se engalfinhavam numa batalha sem fim de liminares jurídicas, com direito a intervenção nacional no partido aqui nesta sesmaria, o MDB-ES sofreu uma verdadeira diáspora de prefeitos investidos de mandato: daqueles 17 eleitos em 2016, sobrou menos da metade. A sigla chegou às portas desta eleição municipal com apenas oito prefeitos filiados no Espírito Santo.

E agora é possível que, em vez de recuperar pelo menos parte do tamanho e do terreno perdidos no último biênio, o MDB saia ainda menor após a abertura das urnas em novembro, cronicamente mergulhado que está em um mar sem fim de confusão e de conflitos internos entre dirigentes e alas dissidentes.

MDB: um partido dividido
MDB no ES, hoje, é um partido dividido. Crédito: Amarildo

NEM ROSE NEM REZA

Agora que Rose de Freitas está fora do Podemos, muito tem se especulado sobre possível volta da senadora ao MDB, em posição de destaque, para “pôr ordem na casa” no Espírito Santo. Olha, sinceramente, nem Rose vai dar jeito nisso. Nem Rose nem reza.

LUZIA NÃO RECONHECE LOUZADA...

Presidente da Comissão Provisória do MDB em Vitória, a ex-deputada estadual Luzia Toledo diz que o partido não reconhece nem jamais reconheceu a candidatura e Fábio Louzada a prefeito da Capital: “Não! Foi um absurdo! Por isso deixamos que nosso advogado respondesse à imprensa”.

...ALOÍSIO NÃO RECONHECE MÁRCIO

Presidente da Comissão Provisória do MDB na Serra, o ex-vereador Aloísio Santana segue linha similar em relação à candidatura do delegado Márcio Greik. “Em momento algum reconhecemos. Ele queria ser candidato. Mas deixamos claro, já no edital da convenção do MDB na Serra, que não sairíamos com candidato na eleição majoritária. Por isso nem votamos, na convenção, o pedido de candidatura apresentado por ele. Ele sabia da posição do partido e agiu de má-fé. Por isso já impugnamos a candidatura dele.”

NINGUÉM NO CONGRESSO: “NUNCA ANTES NA HISTÓRIA”...

Hoje testemunhamos um fato histórico: pela primeira vez desde a fundação do partido, em 1966, o MDB do Espírito Santo não possui nenhum representante na bancada capixaba no Congresso Nacional, formada por três senadores e dez deputados federais.

DIAS DE GLÓRIA VÃO DISTANTES

É óbvio que nos anos 1980, com o Brasil recém-saído da ditadura, o país ainda vivia quase que um bipartidarismo, e o PMDB (como então se chamava) ainda era o guarda-chuva que abrigava políticos de várias tendências que lutaram pela redemocratização. Hoje, ao contrário, temos um quadro superpovoado por mais de 30 siglas. De todo modo, a título de comparação, o quadro atual do MDB-ES (sem representação no Congresso) é muito diferente daquele de 1986, apogeu do partido no Estado.

NOS TEMPOS ÁUREOS

Naquele ano, no primeiro pleito direto após 1985 (fim da ditadura militar), o PMDB-ES elegeu o governador (Max Mauro) e sete dos 10 deputados federais, que seriam constituintes em 1988, além de ter preenchido os dois cargos de senador em disputa, com Gerson Camata e João Calmon. Também do PMDB, José Ignácio já estava lá, eleito em 1982. Assim, por alguns anos, foram do PMDB os três senadores da bancada do Espírito Santo no Senado.

ADEUS, GRANDES FIGURAS

Como frisa o historiador Estilaque Ferreira dos Santos, a trajetória do MDB no Espírito Santo está diretamente ligada a cinco líderes: Dirceu Cardoso, José Ignácio, Gerson Camata, Max Mauro e Paulo Hartung. “Na ausência de uma grande figura, o partido afundou no Espírito Santo”, constata.

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