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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Em meio à guerra de Lelo e Marcelino, MDB do ES mergulha no caos

Eleição bate à porta. Sigla perdeu muito espaço em 2018. E, no momento em que mais precisa estar coeso e pacificado para recuperar terreno, partido persegue o próprio rabo numa briga interna sem fim dos dois caciques

Publicado em 25/02/2020 às 05h00
Atualizado em 25/02/2020 às 05h02
A queda de braço sem fim entre Marcelino Fraga e Lelo Coimbra. Crédito: Amarildo
A queda de braço sem fim entre Marcelino Fraga e Lelo Coimbra. Crédito: Amarildo

Na Praça Getúlio Vargas, uma das muitas do Centro de Vitória, havia um aglomerado de pessoas naquela manhã de domingo (16). Todas elas vinculadas de algum modo à chapa de Marcelino Fraga. O próprio, de camiseta branca, dividia a atenção entre os presentes e os telefonemas para os delegados (correligionários com direito a voto), chamando-os para comparecerem à “convenção” organizada, no improviso, pela sua própria chapa, sem comissão eleitoral constituída, fiscais, nada disso. O grau de improvisação saltava da urna e da cabine de votação, ambas feitas de papelão. Materializava-se, ainda, na caligrafia ruim das folhas de papel afixadas para sinalizar ambas.

Na véspera, mais uma vez, a convenção havia sido cancelada pelo adversário interno de Marcelino, o atual (e eterno) presidente estadual do MDB, Lelo Coimbra, dono da bola nesse jogo. Cansado das decisões de tapetão desfavoráveis a si, o grupo de Marcelino resolveu realizar a “convenção” mesmo assim, unilateralmente, para mostrar força política e quiçá obter, posteriormente, alguma vitória na seara jurídica. E assim foi feito, naquele domingo.

Próximo à urna, o deputado estadual José Esmeraldo, um dos principais aliados de Marcelino, fazia as vezes de animador, puxando salvas de palmas e gritos a favor da sua chapa. À chegada do ex-prefeito de Cachoeiro de Itapemirim Roberto Valadão, um emedebista histórico, espocaram efusivos aplausos – sempre puxados por Esmeraldo. E é claro que não deixaram de frisar o peso simbólico do comparecimento de Valadão, que, pelo MDB do Espírito Santo, lutou contra a ditadura militar.

Roberto Valadão, apoiador de Marcelino, vota na
Roberto Valadão, apoiador de Marcelino, vota na "convenção" do MDB-ES (16/02/2020). Ao fundo, José Esmeraldo gesticula. Crédito: Vitor Vogas

Outro emedebista da velha guarda, o ex-prefeito de Pancas Wilson Haese, 76 anos, declarou à coluna: “A praça é do povo, assim como o céu é do condor”. Haese atribuiu a frase a outro emedebista histórico, Dirceu Cardoso. Originalmente, são versos do poema “O Povo ao Poder”, de Castro Alves.

Wilson Haese, apoiador de Marcelino, vota na
Wilson Haese, apoiador de Marcelino, vota na "convenção" do MDB-ES (16/02/2020). Crédito: Vitor Vogas

Quiseram, assim, conferir ares nobres e grandiosos ao episódio, tratado como demonstração de que o MDB velho de guerra “está de volta às ruas”. Nada mais distante da verdade. No Brasil e inclusive no Espírito Santo, o partido não poderia estar hoje mais distante de suas origens gloriosas, daquele MDB dos “autênticos” simbolizado por Tancredo Neves e pelo Senhor Diretas, Ulysses Guimarães.

O ato só ocorreu em praça pública porque o Alice Hotel, no qual inicialmente estava marcado o evento, não abriu para eles seu auditório, cujo agendamento fora cancelado por Lelo na véspera. Situado ao lado da praça, o hotel estava de portas abertas. Só não as abriu para os emedebistas.

Em horário de final do Flamengo, as ruas do Centro estavam desertas naquele ensolarado fim de manhã dominical, salvo pelos apoiadores da chapa de Marcelino, naquele ponto da Getúlio Vargas. Promovido por uma ala do partido, o ato não foi, como alguns tentaram fazer crer, representativo da grandeza do MDB nem de sua conexão com o pulsar das ruas nem de sua capacidade, supostamente ainda viva, de mobilizar as pessoas. Foi, na realidade, um episódio um tanto quanto deprimente; longe de representar a dimensão que o MDB teve outrora, inclusive no Espírito Santo, simboliza a decadência em que o partido mergulhou nos últimos anos e, por falta de outro termo melhor, a bagunça que tomou conta do MDB em solo capixaba.

Note-se que “deprimente” não é só o episódio narrado acima, mas o conjunto da obra. Deprimente é a sucessão de eventos que tem marcado essa guerra estabelecida há quase um ano entre Lelo e Marcelino pelo controle do MDB no Estado, uma guerra que se dá paralelamente no campo jurídico (com uma batalha de liminares que provoca um efeito gangorra) e na arena política (com acusações de Lelo sobre uma interferência indevida do governo Casagrande contra ele).

Urnas utilizadas em votação na Praça Getúlio Vargas, em Vitória, para escolher comando do MDB no ES . Crédito: Vitor Vogas
Urnas utilizadas em votação na Praça Getúlio Vargas, em Vitória, para escolher comando do MDB no ES . Crédito: Vitor Vogas

O papelão tem sido dos dois lados, é bom que se diga, não só da chapa de Marcelino – que organizou a convenção improvisada –, mas das duas partes envolvidas na querela. E o pior é que esse parece um daqueles típicos impasses em que nenhuma das duas partes está certa, mas ambas têm uma cota de razão (ao apontar os problemas da outra):

Sim, o passado político e de condenações judiciais de Marcelino indica uma ameaça e inspira preocupações do ponto de vista ético na condução do partido se ele voltar à presidência, como aponta Lelo; mas este de fato se constituiu em cacique do MDB; contra o princípio da alternância, preside o MDB no Espírito Santo desde 2007; e, de fato, sob sua batuta, o partido também fez um papelão nas urnas em 2018. Por que, como insiste Marcelino, nao levar essa decisão para o voto dos convencionais, como já deveria ter ocorrido desde junho de 2019?

PRÉ-CANDIDATOS INSEGUROS E APREENSIVOS

O fato é que, enquanto se perpetua ao infinito essa indefinição sobre o comando e esse processo de erosão interna, o calendário eleitoral não para, o período de definições se aproxima, e pré-candidatos pelo partido já não escondem o nervosismo, a apreensão e a insegurança. Com o período de fechamento de filiações e de pré-candidaturas batendo à porta, emedebistas ainda não têm convicção sobre quem estará à frente do partido durante e após a campanha. O partido deveria estar trabalhando para construir chapas fortes, na primeira eleição para vereadores sem coligações, e no entanto está metido nesse buraco sem fundo.

Num momento de definições, que pediria estabilidade partidária, o MDB-ES hoje é tudo, menos um partido estável. Esse clima de incertezas tem gerado tensão e ansiedade, enquanto cresce o assédio de outros partidos sobre a prefeitada do MDB (sobretudo por parte do PSB, atualmente assentado no governo estadual).

“Toda essa confusão acaba por atrapalhar nossas articulações nos municípios. Os possíveis candidatos a vereador e outros que estamos dialogando para se filiar e disputar as eleições, estão correndo. Não temos segurança nenhuma com essa situação. A imagem do partido fica muito manchada”, opina Carlos Conti, presidente do MDB em Aracruz e pré-candidato a prefeito do município.

O drama se faz ainda maior porque, embora o MDB ainda tenha o maior número de prefeitos no ES – fruto do seu bom desempenho na eleição municipal passada, em 2016 (com Paulo Hartung no governo e no partido) –, as eleições deste ano são fundamentais para a sigla não perder ainda mais terreno no Estado do que perdeu em 2018, após os resultados péssimos obtidos nas últimas eleições: só dois deputados estaduais em uma bancada que chegara a ter sete dois anos antes, e nenhum representante no Congresso (fato inédito na história do partido no Espírito Santo, desde a sua fundação, em 1966).

Ou seja: no momento em que mais precisa estar coeso, organizado e pacificado para poder recuperar relevância, o partido está metido nessa guerra interna sem fim. Para poder reerguer a cabeça, é preciso parar de batê-la.

NOVELA: RESUMO DOS ÚLTIMOS CAPÍTULOS

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Lelo recorrerá ao TJES. A julgar pela “cauda” dessa contenda jurídica, o tribunal deve lhe dar decisão favorável, revertendo a liminar do juiz de 1º grau. A Comissão Estadual Provisória também pretende ingressar no CNJ em face do juiz Maurício Camatta, questionando sua imparcialidade para seguir julgando recursos relacionados ao MDB no Espírito Santo.

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