Prefeito eleito de Cariacica, o deputado Euclério Sampaio (DEM) concedeu ao podcast Papo de Colunista, na última quarta-feira (16), uma entrevista que foi uma montanha-russa, oscilando entre o amor e o ódio, entre o perdão e a mágoa, como um pêndulo entre extremidades. Ora o prefeito eleito pregou a união de todos pelo bem de Cariacica e elogiou aliados e ex-adversários, como Juninho, Casagrande e até Paulo Hartung; ora revelou imensa mágoa com adversários atuais, dirigindo críticas pesadas a alguns deles.
Como não deixam dúvida suas palavras, Euclério guarda profundo ressentimento em relação ao PT, partido da sua adversária no 2º turno, Célia Tavares, e, principalmente, em face de Helder Salomão. Ao deputado federal e ex-prefeito, padrinho político da candidatura derrotada de Célia, Euclério reservou suas palavras mais cortantes – ao mesmo tempo em que diz contar com emendas parlamentares de Helder para Cariacica no orçamento da União.
O prefeito eleito também saiu em uma defesa enfática da ex-deputada estadual Lúcia Dornellas, ex-aliada de Helder, desfiliada do PT após ter prestado serviços de consultoria para a sua campanha. Confira a seguir os melhores trechos das declarações de Euclério sobre o PT e petistas:
HELDER SALOMÃO
Na parte da entrevista sobre como elevar a receita municipal, Euclério destacou o diálogo com a bancada do Espírito Santo no Congresso para conseguir emplacar emendas parlamentares para Cariacica no orçamento do governo federal. “O primeiro passo, que sempre preguei na minha campanha, é a união. Em Cariacica, hoje, você precisa puxar emendas.”
Perguntei-lhe, então, se ele já conversou sobre isso com Helder, o membro da bancada capixaba mais identificado com Cariacica, para estreitar a relação política, principalmente em busca de mais recursos. Euclério começou citando um membro de sua equipe de transição que é filiado ao PT: “Eu prego a união. Você pode ver que, na minha equipe de transição, tem um petista roxo, que é o Paulino Reblin. Ele é petista doente e cresceu comigo. ‘Petista doente’ que eu falo é, assim, ele é petista”.
Em seguida, contou que o chefe de gabinete de Helder já estabeleceu contato com ele e que, por intermédio desse assessor, os dois já trataram do tema das emendas parlamentares: “O Renato Lauer, chefe de gabinete do Helder… Eu pedi ao Helder. A maior votação do Helder [para deputado federal, em 2018] e quem elegeu o Helder foi Cariacica. Nada mais justo do que ele colocar pelo menos 50% das emendas dele para o município de Cariacica. Eu disse isso ao jornal A Gazeta. Que ele coloque para o município de Cariacica.”
E voltou a pregar união, dizendo que “a eleição passou”:
“O Renato Lauer me ligou na semana passada, até mesmo porque ele é funcionário efetivo de Cariacica e está cedido para ser o chefe de gabinete do Helder na Câmara Federal. A cessão dele vence no dia 31. E nesse ponto eu pedi ao prefeito atual e ele me honrou nesse ponto, para ele renovar a cessão do Renato Lauer. Eu entendo que você tem que construir. A eleição passou. Cariacica precisa de todo mundo. Eu preguei união e não foi fachada para eu me eleger não. Eu, como prefeito, não posso ter direito nem de ser direita nem de ser esquerda. Então, o próprio Renato Lauer me adiantou que devem estar vindo pelo menos R$ 3 milhões [em emendas]. Pedi para mandar pelos menos uns R$ 5 milhões. Mas ele falou que R$ 3 milhões já estão em andamento.”
Já em outros pontos da entrevista, meio paradoxalmente, Euclério deixou aflorar a sua mágoa com Helder Salomão, ainda não curada do processo eleitoral:
“Ali foi a luta de Davi contra Golias. Foi a luta do tostão contra o milhão. Foi a luta da persistência e da verdade contra a inverdade. Foi difícil. Mas costumo dizer que a vitória é mais saborosa quando tem luta. Eu não enfrentei a candidata do PT. Eu enfrentei o deputado federal Helder Salomão. Ele construiu história em Cariacica. Ele poderia ter jogado melhor o jogo, como eu joguei. Eu não faço ataques. Não sei fazer nada que eu não assine embaixo, até se for maldade. Eu não sei fazer.”
PT E LÚCIA DORNELLAS
Mas a mágoa de Euclério com o PT transbordou mesmo quando indagado por mim e por Leonel Ximenes sobre a participação de Lúcia Dornellas, ex-petista e ex-aliada de Helder, em sua campanha. Dona de uma empresa de consultoria e marketing político, a ex-deputada estadual prestou serviços à campanha de Euclério. Na última segunda (14), após um grupo de petistas de Cariacica ligados a Helder ter pedido a expulsão de Lúcia, ela mesma se adiantou e pediu formalmente a sua desfiliação do partido. Euclério deu sua versão dos fatos e sua opinião, frisando que o PT, mesmo após a campanha, continua trabalhando com “ódio”:
“Eu não trabalho com ódio. O que o PT está fazendo é lamentável. Eu contratei uma profissional eficiente de estratégia. Para mim não importa se ela é petista. Eu não trabalho com discriminação, ao contrário do que muita gente pensa. Ela tinha uma empresa. Eu contratei porque a referência que eu tinha dela nessa área são as melhores, como chamei para fazer parte da equipe de transição um rapaz que sei que é eficiente e que gravou vídeo para a adversária [Celia Tavares]. Por que eu vou discriminar? Eu queria e quero o melhor para o meu projeto em Cariacica. Eu não trabalho com ódio, como o PT está trabalhando. Foi uma série de acusações levianas que o PT fez. Eu ainda não analisei, se envolve essa questão do meu nome. Fui atacado durante quase um ano, inclusive pelo PT, com fake news. Não trabalho com fake news. Não sei fazer nada sem botar minha digital. É uma característica minha. Se eu tiver que pagar a conta, eu vou pagar. Então eu contratei a Lúcia, uma profissional super competente, e a contrataria novamente, se eu for candidato novamente. Ela diz que avisou o PT.”
"ÓDIO" E "DESESPERO"
A partir desse ponto, Euclério subiu o tom contra Helder:
“Na verdade, é o desespero de um deputado que é competente, acha que é o dono de Cariacica e que perdeu para um filho legítimo de Cariacica e que ele julgava neófito. Estou falando do Helder Salomão. O Helder tem que esquecer o ódio. Ele, quando acabou a eleição, me atacou. Ele e a candidata dele [Célia Tavares]. Ele subia no trio elétrico e me atacava. E acho que devemos fazer as coisas por amor, não é por ódio não. De dois anos para cá, Deus tem mudado muito o meu coração.”
Finalmente, perguntei a Euclério se ele recebeu de Lúcia algum segredo relativo à campanha de Célia Tavares que somente uma petista como ela poderia conhecer. Ele negou-o com veemência e tornou à carga, falando de si na 3ª pessoa.
“Primeiro que campanha não tem segredo nenhum. Segundo: a minha campanha foi a campanha da união, enquanto a campanha do PT foi a campanha do ódio, da separação, da segregação. E todo mundo viu isso. Era o PT contra o Bolsonaro. Eu preguei a união. Então não teve estratégia idêntica nenhuma do PT com Euclério Sampaio. Euclério pregou o amor, pregou a união e pregou o bem da população de Cariacica. Euclério não pregou o ódio que o PT pregou. Euclério não precisou mudar pensamento nenhum. Não mudou nem a cor do partido dele para dizer que era diferente, não renegou nem o partido, como o PT fez. A Lúcia é competente. Em momento nenhum ela me falou nada. E, pelo que sei, ela só votou na candidata do PT para ser a candidata [na escolha feita pela Executiva do PT em Cariacica, no fim do 1º semestre]. Na pré-campanha, eu desconheço que ela tenha estado com a candidata do PT. Não me passou nada. Mesmo porque eu tenho o meu jeito de ser.”
E concluiu recordando a expressão usada por mim certa vez e retomada no título da nossa última coluna: “Como uma vez você já brincou, eu tenho ‘o jeito Euclério de ser’. A Lúcia simplesmente me prestou um serviço, que me disseram que era uma das melhores. E foi. E mostrou resultado. Mostrou competência, é uma mulher de garra e recomendo o trabalho dela para quem quer ser vencedor.”
Eis uma amostra do “jeito Euclério de ser”.