Aos 76 anos, Enivaldo dos Anjos (PSB) tem experiência política
de sobra. Mais longevo líder em atividade na Região Noroeste do Estado, foi
prefeito de Barra de São Francisco nos anos 1980. Na década seguinte, tornou-se
deputado estadual. Depois, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCES).
Em 2015, retornou à Assembleia Legislativa, onde chegou a ser líder do governo
Casagrande. Em 2021, completando a trajetória circular, voltou a governar sua
cidade.
Na condição de prefeito de Barra de São Francisco, ele se
firmou como um dos maiores aliados de Ricardo Ferraço (MDB), articulando a campanha
do atual governador na região. Com toda essa autoridade, Enivaldo defende
abertamente, nesta semana de definições, um acordo político-eleitoral de
Casagrande e Ricardo com o ex-governador Paulo Hartung (PSD) – adversário histórico
de ambos.
Enivaldo também vê com bons olhos eventual candidatura e
retorno de Hartung ao Senado, ao lado de Casagrande.
“Eu defendo isso! Acho inteligente. E vejo como algo natural
na política. O Congresso ficaria com uma representação bem mais sólida, bem
mais qualificada. E isso harmonizaria o processo político do Espírito Santo,
que, desde esses dois governos, vem se comportando de maneira equilibrada
econômica e financeiramente, com muito desenvolvimento. Basta ver os números.”
Na visão do prefeito franciscano, uma reaproximação
estratégica agora seria um movimento inteligente das duas partes, até por uma
questão de sobrevivência política de líderes que têm história e longa folha de
serviços prestados ao Espírito Santo.
Sem mencionar Lorenzo Pazolini, concorrente de Ricardo na
corrida ao Palácio Anchieta, Enivaldo opina que o ex-prefeito de Vitória viria
para esta campanha não só com discurso de renovação política, mas também com um
projeto de “exclusão” e “negação da história” de políticos que o antecederam.
“Acho que é um comportamento inteligente das duas partes, já
que a candidatura que está sendo colocada contra o Ricardo tem a intenção de
excluir todos os políticos que já têm história dentro da política. Eles propõem
desconhecer todos os políticos. E, embora um dos candidatos tenha recebido
vários sinais do ex-governador Paulo Hartung, ele nunca respondeu. Então, essa
forma como ele está se comportando para se inserir na campanha a governador
mostra claramente que ele quer começar do zero.”
Ainda na avaliação do ex-líder de Casagrande na Assembleia, “políticos
com história” deveriam unir forças contra esse “procedimento”.
“É natural que os políticos que já têm uma história política
se juntem contra esse procedimento, porque essa aí é a negação da política, é a
negação da história de todos eles, principalmente a negação do governador
Renato, de três mandatos, do ex-governador Paulo Hartung, de três mandatos, do
Ricardo, que já foi o senador mais votado do Espírito Santo. É um tipo de
proposta do Hércules: eu sou eu, e todo mundo não é nada mais.”
Perguntamos a Enivaldo se ele acredita mesmo ser possível
uma reconciliação que soa muito improvável.
“Acredito, pela proposta do candidato adversário a
governador, que propõe eliminar todo mundo. Ou os ‘eliminados’ se juntam ou
eles vão correr o risco de entrar uma candidatura nova que vai zerar a vida
política de todo mundo. É questão de sobrevivência”, respondeu o veterano prefeito.
Contexto
O Partido Social Democrático (PSD), agremiação de Paulo
Hartung, é presidido no Espírito Santo pelo prefeito de Colatina, Renzo
Vasconcelos. Outro político famoso filiado à sigla é o deputado estadual e
ex-prefeito de Colatina Sérgio Meneguelli, filiado em março deste ano e pré-candidato
declarado a senador.
Até a última segunda-feira (20), o PSD estava fechadinho no
apoio a Pazolini para governador e na coligação encabeçada pelo Republicanos,
partido do ex-prefeito de Vitória.
Entretanto, a chegada do Partido Liberal (PL) a essa coligação,
pela maneira como se deu, levou o PSD a reavaliar os planos. Na manhã do dia 20,
em nota oficial, Renzo afirmou que o partido abriria diálogo com outros
pré-candidatos a governador e que não descarta lançar chama majoritária própria,
com candidato ao governo e ao Senado.
Na manhã da última quarta-feira (22), após ser procurado por
Renzo, Ricardo Ferraço o recebeu na Residência Oficial da Praia da Costa. Renzo
manifestou interesse em levar o PSD para a chapa majoritária de Ricardo e
Casagrande, mas pediu espaço para o partido na chapa. Ricardo ficou de avaliar
com os dirigentes dos outros partidos que já estão com ele.
As declarações de Enivaldo à coluna foram dadas na manhã do
último sábado (25), durante a convenção estadual do PSB que homologou a candidatura de Casagrande ao Senado. Filiado
à mesma sigla, o “Coronel do Noroeste” – como é apelidado no meio político –
compôs a mesa de autoridades.
Logo após a convenção, em entrevista coletiva, Casagrande defendeu a atração do PSD para a coligação governista. Disse considerar importante que o partido esteja com
eles. Mas esclareceu que ainda não conversou com Renzo, que essa bola está com
Ricardo e que tal diálogo não se dará em nível pessoal, mas partidário e
institucional.
Seguindo a mesma linha ditada pela cautela, Ricardo fez
questão de separar as duas coisas: partido de indivíduo; pessoa jurídica de
pessoa física. “Nós não estamos conversando com CPFs. Estamos conversando com
CNPJs”, afirmou o candidato à reeleição, escolhendo bem as palavras.
Diretamente indagados sobre a possibilidade de reconciliação
política com Hartung, conforme propõe Enivaldo, tanto Ricardo como seu
antecessor se esquivaram da pergunta. Nenhum dos dois falou em “reconciliação”
com o ex-governador.
Os incentivadores e
as dificuldades
Como já discorremos aqui, entre outros pontos, eventual
ingresso do PSD na chapa governista esbarra justamente nesse “detalhe paquidérmico”
(o “elefante na sala”): o fato de que se trata do partido de Hartung.
O acordo de paz propugnado por Enivaldo se mostra muito
difícil, dado o histórico de desavenças, atritos e disputas políticos que os separa
de maneira abissal e que se estende até hoje, no presente processo eleitoral.
“Acredito que essa aliança faria bem para o Espírito Santo”,
opinou, por exemplo, o prefeito da Serra, Weverson Meireles (PDT), “ferragrandista”
que governa o maior colégio eleitoral do Espírito Santo.
Aliás, no ano passado, o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal
(PDT), antecessor de Weverson no cargo e seu padrinho político, chegou a ir ao
encontro de Hartung no escritório do advogado e professor Henrique Herkenhoff para
incentivá-lo a se candidatar novamente ao Senado neste ano.
Por outro lado, a absorção do PSD na chapa esbarra em outra dificuldade: a pré-candidatura já estabelecida de Rose de Freitas ao Senado, pelo MDB. No último sábado,
durante a convenção do PSB, a ex-senadora se disse aberta a dialogar, mas
deixou muito claro que não abre mão de ser candidata, conforme tem reiterado
nos últimos meses.
Até o momento, o ex-governador Paulo Hartung não se
manifestou sobre as recentes movimentações do PSD.
A história de
Enivaldo no PSD
Coincidentemente, Enivaldo dos Anjos já passou pelo PSD e
ajudou a organizar o partido de Gilberto Kassab no Espírito Santo, logo após
sua fundação, em meados da década passada.
Ele havia acabado de antecipar sua aposentadoria do TCES e
voltou à vida política e partidária pelo PSD. Pela mesma legenda, foi líder de
Casagrande na Assembleia. Depois, entrou no PSB, onde segue até hoje.
Enivaldo x Pazolini
Ao longo de 2019 (primeiro ano do segundo governo
Casagrande), como líder no plenário, Enivaldo travou acalorados embates verbais
com ninguém menos que Pazolini, então um dos poucos deputados de oposição, em
seu ano de estreia na política. No ano seguinte, o delegado elegeu-se prefeito
de Vitória.
Num dos mais memoráveis, Enivaldo chegou a dizer a Pazolini
que colocaria o dedo em sua feria e giraria para ver até onde ele aguentava.
Pazolini replicou citando o Barão de Itararé: “O tambor faz muito barulho, mas
é vazio por dentro”.
Pazolini no Sambão do
Povo
As declarações de Enivaldo acerca de Pazolini nos remetem a
outra do próprio ex-prefeito de Vitória, ainda no cargo, no começo de fevereiro
deste ano, durante a abertura do Carnaval de Vitória.
Discursando diante das câmeras, com Casagrande e Ricardo de
um lado, e Arnaldinho Borgo do outro, disse o então prefeito da Capital:
“Temos a certeza absoluta que, assim como fizemos a revolução
do samba, respeitando a velha guarda [apontou, sem olhar, para o lado de
Casagrande], respeitando a ancestralidade e respeitando aqueles que nos
antecederam no passado, mas trazendo a modernidade, é que nós vamos,
Arnaldinho, reescrever essa história. Respeitando o passado, os que estiveram
antes de nós, mas com a certeza absoluta de que o futuro será de paz e
prosperidade!”
Para constar
Arnaldinho, àquela altura, ensaiava parceria com Pazolini.
Acabou optando por apoiar Ricardo.
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