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Bolsonarismo em crise

Eleição no ES foi um desastre para o bolsonarismo e para Bolsonaro

Nas maiores cidades capixabas, eleitor rejeitou todos os candidatos que apoiam declaradamente o presidente, que fizeram eco a seu discurso e que colaram sua imagem na dele

Publicado em 18 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

18 nov 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bolsonarismo no divã
Bolsonarismo no divã Crédito: Amarildo
Bolsonaro jamais fará o que vou dizer a seguir, nem seus seguidores mais apaixonados. Conforme deixou bem claro em um tuíte no início de seu governo, o presidente considera a Psicologia e todos os outros saberes da área de Humanidades como algo completamente inútil, que não dá “retorno à sociedade”. Além disso, deve achar que é “coisa de maricas” ficar deitado em um divã enquanto abre as gavetas de sua mente a um quase desconhecido. Mas o bolsonarismo está em crise de curtíssima idade e precisa, urgentemente, fazer uma autoanálise para não se desmantelar de vez.
Se alguém tem alguma dúvida disso, basta olhar os resultados desastrosos colhidos no último domingo (15), no 1º turno das eleições municipais, não só pelos candidatos expressamente apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro como também pelos candidatos que, mesmo sem participação direta do presidente na campanha, são extremamente identificados com ele. Foi assim no Brasil inteiro, e o Espírito Santo, que consagrou Bolsonaro há dois anos, não fugiu nem um pouco a esse padrão.
Nas maiores cidades capixabas, o eleitor rejeitou todos (vou repetir: todos) os candidatos que apoiam declaradamente o presidente, que fizeram eco a seu discurso na campanha e que colaram a sua imagem de todas as formas na dele – enfim, os candidatos bolsonaristas. Nesta terça-feira (17), analisamos aqui os resultados medíocres do PT no Espírito Santo, mas, olhando a outra face da moeda, os candidatos “fechados com Bolsonaro” tiveram desempenho geral ainda mais sofrível.

ASSUMÇÃO: 7,22% (4º)

Em Vitória, seguindo o presidente, o deputado estadual Capitão Assumção – eleito pelo PSL, na “onda Bolsonaro", em 2018 – chegou a alegar manipulação de pesquisas – que acertaram sobre ele – e até mostrou Bolsonaro pedindo para eleitores não votarem em candidatos que tenham utilizado o Fundo Eleitoral (embora o seu filho 02 tenha usado). Mas, chegando em 4º lugar, Assumção não passou dos 7,22% dos votos válidos em Vitória.

AMARILDO: 3,75% (5º)

Em Vila Velha, o ex-presidente estadual do PSL Amarildo Lovato fez uma campanha, declaradamente, “fechada com Bolsonaro”, assim como o seu candidato a vice-prefeito, o tenente-coronel Foresti, também do PSL. O eleitorado canela-verde não fechou com eles e lhes deu míseros 3,75% dos votos válidos.

VANDINHO: 16,87% (3º)

Na Serra, embora filiado ao PSDB, o deputado estadual Vandinho Leite (PSDB), autodeclarado representante do conservadorismo de direita, mostrou-se gradualmente, ao longo do atual mandato, um parlamentar muito mais alinhado ao ideário de Bolsonaro do que ao de seu partido, que hoje tem como expoente nacional o governador de São Paulo João Doria, agora tido por Bolsonaro como adversário mortal.
Em junho, por exemplo, Vandinho foi autor, na Assembleia, do projeto de lei que “autorizou” o governo do Estado a usar cloroquina no tratamento para a Covid-19. No mesmo mês, participou com Assumção, Pazolini (Republicanos) e outros três parlamentares da malfadada “visita técnica” ao hospital estadual Dório Silva, em sua cidade, um dia após o presidente conclamar apoiadores a inspecionarem hospitais destinados ao tratamento de pacientes com a doença.
Na eleição a prefeito da Serra, Vandinho bateu na trave, mas, com 16,87% dos votos, ficou fora do 2º turno. Passaram candidatos de partidos de esquerda: Vidigal (PDT) e Fábio (Rede).

ASSIS: 11,48% (3º)

Em Cariacica, o Subtenente Assis (PTB) começou sua campanha dizendo, em vídeo ao lado de Assumção e de um blogueiro bolsonarista, que sua meta era “sepultar os comunistas do Espírito Santo”. Os eleitores cariaciquenses não lhe deram sobrevida: com 11,48% dos votos, ele ficou em 3º lugar. Ainda teve que amargar a chegada da petista Célia Tavares ao 2º turno, ao lado do deputado estadual Euclério Sampaio.
Ah, Euclério não tem um fio do seu cabelo espetado que seja “de esquerda”, como deveria saber Assis, ex-diretor de Segurança da Assembleia. Mas o subtenente o tratou assim em um vídeo postado por ele nos últimos dias de campanha. Assim, pela ótica do próprio Assis, ele perdeu a eleição em Cariacica para dois candidatos “de esquerda”.

JONAS NOGUEIRA: 10,7% (3º)

No interior, a sorte de bolsonaristas não foi melhor. Em Cachoeiro, o maior reduto bolsonarista do Estado – com base na votação do presidente em 2018 –, o vice-prefeito Jonas Nogueira, eleito em 2016 pelo PP, migrou para o PSL na “onda Bolsonaro”; depois, para concorrer à prefeitura, passou para o PL de Magno Malta.
Veio para a disputa com discurso cloroquineiro, recitando a cartilha bolsonarista. Ficou em 3º, com 10,70% dos votos, e ainda teve que testemunhar de perto a reeleição, com votação consagradora, de um “prefeito socialista” (ou, ao menos, filiado ao PSB): Victor Coelho.

COLATINA: 33,01% (2º)

Já em Colatina, o segundo maior colégio eleitoral bolsonarista no Espírito Santo com base no mesmo critério, foi por muito pouco, mas não deu. O diretor da Faculdade Castelo Branco, Luciano Merlo, fez campanha tão colada em Bolsonaro que grudou literalmente no presidente (e também em Damares Alves, Tereza Cristina e Bia Kicis), numa viagem “bate e volta” a Brasília para tirar e publicar fotos com eles.
Nos últimos dias de campanha, Merlo até se aproximou do líder e perdeu por 631 votos, mas deu mesmo Guerino Balestrassi (PSC), prefeito da cidade de 2001 a 2008 (também pelo PSB) e com uma inclinação muito mais moderada, do centro para a esquerda (apoiado por ele, seu sucessor em 2009 foi o petista Leonardo Deptulski).

RESSALVA: PAZOLINI

Fica como ressalva nesta análise a chegada do já citado Pazolini ao 2º turno, como líder da eleição a prefeito de Vitória. Embora declaradamente de direita (mas existem muitas direitas), o deputado não se declara um bolsonarista convicto, muito diferentemente, por exemplo, de Assumção.
Mas, pelo menos nas origens políticas, tem proximidade com Magno Malta (este, sim, um “bolsonarista raiz”) e, até hoje, com a ministra e ex-assessora parlamentar de Magno, Damares Alves, que dispensa apresentações. Fica um asterisco sobre ele.

E O MAIOR DERROTADO É...

Com sua crônica propensão a brigar com fatos (e não só com eles), Bolsonaro se recusa a aceitar a derrota. É claro que ele jamais admitirá isso – na verdade, até hoje alega fraudes, sem a menor prova, até na eleição que ele ganhou. Mas, como muitos analistas têm afirmado, o presidente sai dessa eleição municipal país afora como o grande derrotado. Indo um pouco além, afirmo que o maior derrotado dessa eleição, inclusive no Espírito Santo, é o bolsonarismo.

VERBETE: BOLSONARISMO

Rudimentar em muitas ideias e preferências, Bolsonaro nutre um amor imensurável e inexplicável por votos em cédulas (sim: papeizinhos, em pleno ano 2020). É uma das suas muitas enormes fixações, no patamar da cloroquina e do nióbio. Pois bem: se o voto no Brasil ainda fosse realizado em cédulas de papel, o que se leu no papelzinho retirado da “grande urna nacional” nesse último domingo foi um grande “não” ao bolsonarismo, isto é, à ideologia que encontrou no atual presidente da República sua mais acabada forma e expressão neste país.
Nessa ideologia, incluo o conjunto de ideias radicais nutridas desde sempre por ele; a renitente agressividade verbal; a política baseada na negação do adversário e na busca (declarada) por sua aniquilação;
O apreço pelo autoritarismo, proporcional ao incontido desejo de atropelar as regras e instituições democráticas;
O indisfarçado desprezo pela vida humana; a negligência e o descaso em relação ao sofrimento de terceiros;
O egocentrismo exacerbado; o narcisismo desmesurado; a persistente falta de nexo, os delírios paranoicos e adoração por teorias conspiratórias;
O discurso quase sempre violento, preconceituoso e desrespeitoso, bem como a contínua apologia a práticas igualmente violentas, preconceituosas e desrespeitosas, que encorajam brasileiros a agir de igual maneira;
As constantes manifestações de falta de educação, de decoro, de civilidade e de modos;
O desdém pela ciência, pela academia, pela cultura, pelas humanidades, pelas pesquisas com rigor e método, bem como pelo conhecimento formal acumulado ao longo de séculos;
Muitas vezes, sem nenhum exagero, o elogio da ignorância, na dupla acepção do termo: brutalidade no trato e desconhecimento orgulhoso.
Eis uma relação do que o bolsonarismo mostrou ter de pior nestes menos de dois anos de governo. Cabem discordâncias, é claro, mas cada item da lista foi reiteradamente confirmado pelo próprio presidente em seus atos e, sobretudo, manifestações, desde 1º de janeiro de 2019.
O brasileiro (incluindo o capixaba) não está comprando mais o bolsonarismo. Fez uma experiência, resolveu prová-lo, mas parece ter precisado de muito pouco tempo, menos de dois anos, para concluir que o sabor real não é dos mais agradáveis.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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