O deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi eleito prefeito de Vitória com muitos méritos, detidamente descritos e analisados aqui neste domingo (29). Pazolini chega à prefeitura da capital do Espírito Santo com um discurso que, vejam só, pode ser considerado até “politicamente correto”. Chega com um plano de governo que, olhado de perto, não pode de modo algum ser considerado de viés “bolsonarista”. Chega com um slogan bonito, que marcou sua campanha desde o início: “Paz e igualdade na Capital”.
Essa paz, em primeira análise, remete principalmente à paz social, em referência à segurança pública, o mote central da exitosa campanha de Pazolini. Mas podemos adaptá-la, também, como paz política, algo que o Brasil não consegue experimentar há alguns anos e que seria muito, muito bem-vinda.
Quanto à igualdade, tal como usado na campanha, o conceito remete primordialmente à igualdade de oportunidades para todas as partes da cidade. Mas também pode ser compreendido como igualdade no tratamento dispensado a todos, com respeito, por exemplo, a minorias, ou a quem pensa de maneira diferente, ou a eventuais adversários políticos (como no caso, por exemplo, dos derrotados nessas eleições municipais).
Não foi nada disso o que se viu na desastrosa mensagem de congratulações gravada pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, para Pazolini, logo após a confirmação oficial da vitória dele, sobre João Coser (PT), na disputa pela Prefeitura de Vitória. O que se viu foi a reedição, mais uma vez (até quando?), de um “nós contra eles”, outrora tão praticado e tão criticado no PT quando ocupava o poder central: a essência da curta mensagem é a divisão. Não é a paz, muito menos a igualdade.
O vídeo de Damares foi muito ruim, no meu entender, para o próprio prefeito eleito, não tanto por explicitar algo que todos sempre souberam, mas que foi minimizado durante a campanha do delegado (sua proximidade política com a ministra, que a trata no vídeo por “amigo”), mas, acima de tudo, pelo teor da mensagem.
Esta vai contra todo o discurso de campanha do delegado e expressa tudo aquilo que ele, obstinadamente, buscou evitar ao longo de sua caminhada eleitoral: dar contornos ideológicos à sua candidatura e levar o debate eleitoral (no caso, agora, a sua vitória) para o campo da disputa ideológica entre extremos, da polarização entre direita e esquerda e do maniqueísmo do “bem contra o mal”, do “nós contra eles”.
Disse a própria ministra, que chegou a ser condecorada por Pazolini na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em 2019: “Em Vitória, as crianças venceram. Não adianta! Não adianta! Este é um novo país, em que o Pacto pela Infância vai ser feito. Parabéns, Pazolini! Parabéns, Vitória! Pelas crianças! Esta vitória é das crianças. Deus te abençoe, meu amigo! Um abraço!”
Ora, por analogia, o que Damares está dizendo nas entrelinhas é que eventual vitória do adversário de Pazolini no 2º turno em Vitória (no caso, um candidato petista, o próprio PT, a “esquerda”...), em oposição ao deputado do Republicanos e ex-chefe da DPCA, teria representado “a derrota das crianças de Vitória”. Ou seja, o adversário, só por ser adversário e representante de um partido de um campo político antagônico, não teria real compromisso com o Pacto pela Infância nem com a defesa da pauta de proteção dos menores de idade (contra abusos, pedofilia etc.).
Podemos concluir então que, na concepção da amiga do prefeito eleito, o mesmo se aplica aos 72.684 eleitores de Vitória que votaram em João Coser nesse domingo (29). Ou aos 148.998 eleitores da Capital que poderiam ter votado, mas não votaram em Pazolini.
Não só é muito lamentável como vai contra a fala inicial, dirigida à imprensa, pelo próprio Lorenzo Pazolini, logo após o anúncio oficial de sua vitória, enfatizando que vai dialogar com todos. Sua mensagem, esta sim, deve ser parabenizada: elegante e muito adequada do ponto de vista institucional (além de, obviamente, muito mais inteligente do ponto de vista político).
Um prefeito recém-eleito, para governar numa quadra particularmente complexa como será a da pandemia e do pós-pandemia, precisa de imediato abrir portas, e não cerrá-las (inclusive com a oposição, ou potencial oposição a seu governo). A fala de Damares fecha portas.
PREOCUPAÇÕES PERTINENTES
O que preocupa a muitos que não apoiaram o delegado, e creio ser uma preocupação pertinente, não é tanto a pessoa de Pazolini, mas sobretudo alguns apoiadores que o acompanham e que permaneceram mais ou menos ocultos durante essa campanha eleitoral: pessoas com mentalidade que parou no tempo, que não acompanharam a evolução da sociedade, que parecem querer impor aos demais o seu modo de viver no campo de costumes (em flagrante desrespeito a minorias sociais) e, acima de tudo, que confundem Estado com religião, colocando crenças religiosas acima de questões de Estado e até da legislação brasileira.
Um exemplo do que afirmo é o episódio da menina de dez anos estuprada em São Mateus, pressionada a “abortar um aborto” integralmente amparado pelas leis deste país, nas circunstâncias em que se dera aquela gravidez.
São agentes que pautam sua ação política em um fundamentalismo religioso que cabe no templo e na consciência de cada um, mas que não deveria extrapolar para o campo das decisões políticas, nem influenciar, muito menos ditar, decisões de governantes eleitos para governar para todos.
Na avaliação deste colunista, com o máximo respeito a quem eventualmente discorde, a ministra Damares Alves representa exatamente essa visão de mundo atrasada.
Vitória é uma cidade moderna, com população muito crítica (vide a altíssima reprovação a Bolsonaro no momento) e altamente escolarizada. Não há de aceitar retrocessos no campo intelectual, muito menos uma “crivellização” (ainda pior que uma “bolsonarização”) de seu governo municipal, ainda que implementada não diretamente pelo próximo prefeito, mas por aliados e outros agentes reunidos em torno dele.
Em sua curta e meteórica trajetória política até aqui, Lorenzo Pazolini demonstrou uma inteligência acima da média. Com certeza está atento a tudo isso.