O governador Renato Casagrande (PSB) deu uma entrevista no Palácio Anchieta, no fim da tarde da última sexta-feira (14), dia marcado pelos ataques de criminosos em algumas das principais avenidas de Vitória, após a morte de um jovem envolvido com uma facção no morro do Bonfim. Na entrevista, assim como já fizera o secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, no jornal da hora do almoço, Casagrande parabenizou efusivamente a polícia. Ambos fizeram elogios enfáticos, acima até do normal em situações similares, à atuação das forças de segurança para conter os atos de violência que aterrorizaram a cidade em dado momento daquela manhã. Por quê?
Foi um discurso claramente de valorização moral das tropas, justamente num momento em que crescem as cobranças de setores das polícias, sobretudo a PM, por “valorização salarial” (leia-se aumento). O discurso chama ainda mais atenção por ter sido o coroamento de uma semana em que a Frente Unificada de Valorização Salarial mostrou capacidade de articulação, em duas grandes mobilizações: na segunda-feira, lotando galerias durante a reunião da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa; e na quinta-feira, em uma manifestação no Centro de Vitória.
Ao longo daquela sexta-feira, cresceu a especulação de que, mesmo que indiretamente, a ação da bandidagem e a reação eficaz da polícia poderiam fortalecer a pauta reivindicatória da Frente, já que emprestam ao movimento um argumento forte: na medida em que a polícia mostra seu valor perante a sociedade num momento de caos (“quando o cidadão de bem precisa, é a nós que ele recorre”), a Frente pode se sentir ainda mais legitimada para bater à porta da cúpula do governo, “exigindo” maior valorização também do ponto de vista salarial. E o próprio Casagrande, ao dar tanta moral para a polícia naquele dia tão delicado, que encerrou uma semana tão delicada, não teria fortalecido esse argumento?
“Pode ser. Pode até fortalecer, sim”, reconheceu, para mim, uma alta fonte palaciana. Mas a cúpula do Palácio entendeu que esse era um risco menor. O governo Casagrande avalia, hoje, que há setores pontuais e personagens políticos, ligados de algum modo à polícia, apostando no “quanto pior, melhor”. E, por isso, o governo entende que precisa mesmo valorizar a ação policial correta e responsável que visa garantir a ordem pública, sem prejuízo da pauta de reivindicações e da mesa de negociações já instaurada - isto é, sabendo separar o que é cobrança salarial do que é cumprimento do dever funcional.
“Precisamos fazer um contraponto ao caos”, me disse a mesma fonte.
A INFLUÊNCIA DE BOLSONARO E DO BOLSONARISMO
Atores do governo Casagrande estão muito incomodados com o discurso do presidente Bolsonaro de empoderamento das forças policiais, que legitima qualquer tipo de ação e pressão dos representantes da categoria. O discurso de Bolsonaro, em suas três décadas no baixo clero da Câmara, sempre foi o de mais dinheiro e benefícios para as forças armadas e militares e, ao mesmo tempo, menos limites. Esse discurso agora foi transposto para a Presidência da República. “Eles [os policiais] estão se sentindo mais empoderados que nunca”, confidenciou-me um “anchietano”.
Isso tem tirado o sono dos governadores em geral. Todos, neste momento, independentemente de matiz político, enfrentam muita dificuldade em lidar com as respectivas polícias militares, das quais, é bom lembrar, são os comandantes em chefe. Não se descarta que possa estar em curso uma ação coordenada do governo central de modo a enfraquecer governadores, sobretudo aqueles de partidos de esquerda, escolhidos e tratados como inimigos pelo presidente da República.
Não por outro motivo, o próprio Casagrande expressou o seu incômodo no último sábado (15), após um dia de tensão e uma noite de carnaval no Sambão do Povo. Falando à militância do seu partido, em encontro estadual do PSB realizado na Serra, o governador fez um duro discurso contra bolsonarismo, opositores e fake news.
Para seus apoiadores, cobrou que todos se exponham, tenham posição clara e defendam o seu governo dos ataques. “Quem for omisso será castigado.”
NA BAHIA, NO CEARÁ...
Sobre a pressão de policiais militares (“empoderados” como nunca por Bolsonaro) e do próprio presidente da República sobre os governadores, vejam-se, a título de exemplo, as recentes declarações de Bolsonaro contra o governador da Bahia, Rui Costa, do PT. Tome-se, ainda, a greve policial que está ocorrendo desde terça-feira (18) no Ceará, Estado que também tem à frente um governador petista (Camilo Santana).
Isso sem falar que é nada menos que o reduto dos irmãos Gomes, ambos ex-governadores – estando o mais novo, Cid, no hospital após ter sido baleado por policiais, e sendo o mais velho, Ciro, um dos mais eloquentes líderes políticos de oposição ao governo Bolsonaro. Ambos, por sinal, já pertenceram ao PSB de Casagrande, que cultiva boa relação com os irmãos e que inclusive apoiou Ciro no 1º turno da última corrida presidencial.
EM MINAS GERAIS...
Por óbvio, a decisão do “liberal” Romeu Zema, do “liberal” partido Novo, de conceder um polpudo reajuste para a polícia de Minas Gerais, não obstante a quebradeira do Estado, não contribui em nada para um “movimento de resistência” por parte dos governadores hoje sob intensa pressão. Ao ceder dessa maneira - logo ele, de quem se esperava algo tão diferente -, Zema acabou ajudando a aproximar a espada militar da cabeça dos demais governadores.