"Desseguir", descurtir e cancelar não estão sendo uma atitude presente apenas nas redes sociais, mas, sobretudo, no nosso cotidiano. Passamos a cancelar aquele que pensa diferente, o que não faz parte das minhas crenças ou das minhas convicções, por exemplo. O que isso tudo quer dizer? Por qual motivo isso vem acontecendo? Onde iremos parar?
No dicionário, a palavra cancelar quer dizer eliminar ou riscar para tornar sem efeito. É exatamente isso que a cultura do cancelamento da web propõe. Basta que uma pessoa, pública ou não (apesar de os famosos serem as principais vítimas), faça algo errado para que as propostas de cancelamento comecem a surgir. No Brasil, nomes como o do humorista e influencer Carlinhos Maia, do funkeiro MC Gui, da cantora Anitta e do cantor Nego do Borel já apareceram entre os cancelados. Bullying, preconceito, homofobia e transfobia foram os motivos que os levaram ao boicote do público.
O cancelamento surge de um incômodo que nasce dentro da pessoa, mas que sempre se projeta no outro. No outro é que é tachado o certo ou o errado pelo tribunal justiceiro das redes, e logo em minutos uma campanha viraliza para cancelar o sujeito que incomodou o outro, ou possui um conceito de certo ou errado apenas diferente.
Freud lança luz sobre esse assunto: “a projeção é um mecanismo de defesa psicológica em que determinada pessoa 'projeta' seus próprios pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis numa ou mais pessoas”. O que me revolta, me repudia no outro, é aquilo que de alguma forma está dentro de mim.
Isso tudo vem acontecendo primeiro pelo espaço que as redes sociais instigaram nas pessoas a responderem: o que você está pensando? O que está acontecendo com você? Quem não se recorda dessas perguntinhas na caixa de postagem do Facebook? Elas fizeram nascer, a partir das carências do ser curtido, do ser afagado com comentários, pessoas diferentes.
Assim, os likes confirmaram as emoções e convicções, tivemos espaço para expor tudo e enraizar nossas convicções. E a partir dessas convicções os algoritmos começaram a me entender e a me agradar, mostrando apenas aquilo que eu acho certo, o que eu acredito mais, e assim por diante.
Sigmund Bauman já nos alertava sobre isso quando dizia que as redes sociais são uma armadilha. Ele sabia o que estava falando. Embora façamos dela uma ferramenta de relações, por outro lado, ela nos coloca na bolha. Para o jornal "El País", Bauman enfatiza: “Na rede... é possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O Papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia".
Dialogar com quem pensa diferente me faz refletir sobre o que eu penso a partir de um novo ponto de vista. Pensar diferente me faz mudar ou certificar uma opinião, um convicção. Dialogar com quem pensa diferente me faz pensar, e isso dói; já cancelar, enganosamente, parece me aliviar.