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Tráfico não pode ser dono de lugar nenhum, diz chefe do Bope do RJ

O pagamento de "pedágio" ao tráfico para a realização de serviços representa um controle das organizações criminosas sobre bairros, o que precisa ser combatido segundo o  comandante do Bope, Uirá do Nascimento Ferreira

Vitória
Publicado em 22/03/2024 às 05h00
Chefe do Bope
Comandante do Bope, tenente-coronel Uirá do Nascimento Ferreira. Crédito: Arte: Geraldo Neto

A cobrança de “pedágios” pelo tráfico é uma demonstração de controle dos territórios em bairros da cidade, o que precisa ser fortemente combatida. A avaliação é do comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro, o tenente-coronel Uirá do Nascimento Ferreira, que observa que ao permitir que um criminoso seja “dono” de um território, ele passa a ditar as regras.

“O tráfico não pode ser dono de lugar nenhum, porque dono é o Estado, é o que está previsto na Constituição Federal”, assinala Uirá.

Nesta quinta-feira (21), a coluna revelou a situação vivida por um empresário que desembolsa, todo mês, R$ 3 mil, que são entregues a traficantes para ter autorização para oferecer serviços de internet em bairros da Grande Vitória. Drama vivido também por outros empresários e comerciantes. E quando atrasam a entrega do valor, recebem vídeos e áudios com ameaças, ou visitas intimidadoras de traficantes que se intitulam "donos das áreas".

“Isso é um problemaço, um desafio para o Estado”, observa Uirá, relatando que no Rio o tráfico de drogas se uniu às milícias e passaram a cobrar taxas e fazer extorsão.

A coluna conversou com o tenente-coronel após a sua aula inaugural na pós-graduação em Segurança Pública da Guarda Municipal de Vitória. Curso a ser ministrado pela Escola Superior do Ministério Público (ESMP), da Associação Espírito-Santense do Ministério Público (AEMP). Confira mais detalhes da entrevista:

O senhor destacou em sua palestra que o Espírito Santo é o Rio há uns 30 anos. Por qual motivo?

Quando o tema é segurança pública, sempre digo para observar o Rio de Janeiro. Tenham em mente o que aconteceu lá, como a criação e a evolução das facções, o tráfico de droga internacional, o mercado consumidor, uma série de questões que o tornaram uma espécie de vitrine. É como um estudo de casos para outros Estados que enfrentam problemas com facções, ônibus queimados, entre outras situações. Saibam que isso aconteceu no Rio há 30 anos. E lembrando que estamos lidando com uma criminalidade que está totalmente integrada.

E que não respeita fronteiras.

Para o criminoso não existem fronteiras, ele não respeita as divisas entre o Espírito Santo, Rio, Bahia e Minas Gerais. Ele vai expandindo, e às vezes nós, como Estado, demoramos a agir por questões estruturais, mas precisamos superar estas barreiras, porque é preciso trabalhar integrado. Recentemente recebemos informações de policiais capixabas de que criminosos capixabas   estavam escondidos em comunidades do Rio, de onde cuidavam de suas facções. Com algumas ações importantes, pontuais, fizemos com que os criminosos voltassem para cá, onde foram presos pelas forças de segurança, como é o caso do traficante Marujo (Fernando Moraes Pereira Pimenta).

No ES já temos ações criminosas como as praticadas no Rio, como a cobrança pelo tráfico de “pedágio” para a realização de serviços.

Isso é um problemaço. Vamos lembrar o que aconteceu no Rio, onde o tráfico de drogas só fazia tráfico e a milícia cobrava taxa. Houve uma junção dessas duas facções, e as duas passaram a cobrar taxa e fazer extorsão. O que existe hoje é uma política do medo, onde tanto a milícia quanto o tráfico de drogas fazem as mesmas ações, unidos nos seus propósitos, que virou um negócio. E assim, além de pagar o IPTU, condomínio, entre outras contas, vem um miliciano e cobra uma taxa de segurança ou de outra coisa.

E como combater esse tipo de ação criminosa?

Só com muita polícia, muito investimento,  com um olhar para a lavagem de dinheiro, e tem que trabalhar muito mesmo, de forma integrada com todas as forças e órgãos de segurança para combater esse tipo de ação. O criminoso não abre mão de receita, se prevalece da violência, precisa ter cada vez mais armas e ser mais violento com seus inimigos. Essa questão é um desafio para o Estado.

E as milícias?

Elas começaram na década de 1970, no Rio, com os grupos de extermínios, mas se transformaram hoje em milícias modernas. Decidiram que além de matar, podiam oferecer serviços de segurança e controlar áreas. Então, você vê grupos de extermínio formando milícias modernas em outros lugares, isso está se expandindo.

Uma situação que já ocorreu no Estado em um passado recente.

Sim. Elas são formadas por policiais, ex-policiais, justiceiros… Antigamente, eram tratadas como se fosse uma coisa que não devia ser combatida. Houve até um político que falou que elas eram um mal menor. É totalmente o contrário, elas representam um mal muito maior, porque passam a ter mais dominação e entrada nas coisas do Estado. Então, assim como as facções, é preciso tomar as medidas para não deixar que tenham o controle territorial.

Como?

Nós temos um papel importantíssimo, a população depende e conta conosco. Como dirigentes públicos, nós temos que controlar o território. À medida que a gente concede para o criminoso ou crime organizado uma parcela daquele território, fica muito difícil, porque a legislação passa a ser do crime e não mais do Estado. Então, quem dita as regras daquele terreno é o criminoso. Isso é um problemaço para a segurança pública. Temos dito a dirigentes de vários Estados que se alguém se intitular dono de uma esquina, vai lá Ministério Público, polícias, guardas, todo mundo, e acaba com essa esquina. Tráfico não pode ter dono de lugar nenhum, porque dono é o Estado, é o que está previsto na Constituição Federal.

O senhor relata que estamos vivenciando uma guerrilha urbana.

Hoje uma ação do Bope é mais do que uma operação policial, é uma operação militar, para enfrentar uma guerrilha urbana. Sabe quantos blindados a Polícia Militar do Rio de Janeiro possui? São 50. Nem a polícia de Israel, da Turquia, da Argentina tem isso. Há 22 anos eu entrava no Complexo do Alemão com 30 homens, e hoje preciso de 150 para o enfrentamento do tráfico, das facções, das milícias. É um desafio para o Rio o controle do território. A área é muito grande, temos mais de 1.200 comunidades, algumas são verdadeiras cidades, com mais de 200 mil habitantes. Não tem como a polícia militar ou qualquer estrutura de Estado fazer uma ocupação permanente. E o crime acaba voltando, de alguma forma, porque é um negócio onde o criminoso não abre mão de receita.

Há alguma solução?

O caminho é a troca de informações, a integração entre todas as forças de segurança, polícia, guardas, Ministério Público, Judiciário. A união é o caminho.

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