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Tráfico cobra “pedágio” de até R$ 3 mil por mês de empresas no ES

Valor é cobrado para autorizar a realização de serviços como internet em bairros da Grande Vitória. Caso atrasem pagamento, empresários são ameaçados

Vitória
Publicado em 21/03/2024 às 09h44
Extorsão do tráfico a empresários
Extorsão do tráfico a empresários. Crédito: Arte: Geraldo Neto

Imagina um empresário que cumpre com suas obrigações naturais, pagando o salário dos funcionários, encargos, taxas e impostos variados. E além disso, é obrigado a desembolsar R$ 3 mil, todo mês, para entregar como “pedágio” ao tráfico de drogas. Essa é a única forma de obter autorização para realizar serviços, como os de internet, em bairros da Grande Vitória. E se atrasar o pagamento, recebe vídeos e áudios com ameaças, ou visitas intimidadoras de traficantes.

O relato foi feito à coluna por um empresário que, apenas nos últimos meses, já pagou cerca de R$ 16 mil. Mas ele estima que seu prejuízo é bem maior, considerando que em situações de atraso, integrantes das facções cortam os fios que levam o sinal de internet até a casa dos clientes. “Estou cansado desta situação. Além do desfalque no caixa, há o risco constante para minha família e funcionários”, conta. Ele não terá seu nome divulgado por segurança.

Há casos de outros empresários que, diante das cobranças e ameaças frequentes, mesmo após terem denunciado o esquema à polícia, decidiram deixar o Estado. "Meu investimento na empresa foi alto, preciso continuar trabalhando. Preciso de ajuda", desabafa.

É um tipo de extorsão que já é do conhecimento da polícia, que investiga a organização criminosa envolvida no esquema que atinge também comerciantes.

Além do pagamento, é ainda exigido a instalação de internet em pontos indicados pelos traficantes, em nome de pessoas que não podem ser identificadas em cadastro da empresa. Em geral são pontos utilizados para a implantação de câmeras, com o objetivo de vigiar a movimentação das polícias nos bairros. “E não podemos cobrar, são tratados como clientes isentos de pagamento”, explica o empresário.

Para alguns donos de empresas, a proposta dos traficantes vem em forma de sociedade, com promessas de que vão expulsar todos os concorrentes da região para que tenham um lucro maior. Quem recusa precisa pagar “pedágio”, exigido também para garantia de segurança de que nada vai acontecer ao comércio.

O pagamento aos traficantes é feito por meio de Pix, para diferentes números de telefone, e de pessoas diferentes.

O problema tem sido mais frequente em Nova Almeida, na Serra, além dos bairros Engenharia, Santos Dumont, Cruzamento, Conquista, Morro do Macaco e Grande Maruípe, em Vitória. Há ainda casos em Vila Velha. “Eles nos ameaçam dizendo que mandam em tudo”, conta o empresário.

Um exemplo de como as ações dos traficantes têm sido frequentes é a suspensão do serviço de internet ocorrida na madrugada desta quarta-feira (20), quando cabos foram cortados em pelo menos três bairros da Grande Vitória. A região é atendida por operadoras de atuação nacional e ainda por diversas empresas menores, os provedores, cujos técnicos foram impedidos de ter acesso aos locais, o que deixou os moradores sem o sinal.

Ações do TCP

Informações obtidas pela coluna são de que esse tipo de ação vem sendo posta em prática pelos faccionados do Terceiro Comando Puro (TCP), que trouxeram para o Espírito Santo a mesma prática adotada em bairros cariocas.

No Estado, o TCP é comandado pelos “irmãos Vera”. Bruno Gomes Faria, o Nono; Luan Gomes Faria, o Kamu; e Gabriel Gomes Faria, o Buti, são assim conhecidos em homenagem à mãe dos três. No final do ano passado, Buti e Kamu foram presos em operações da Polícia Civil.

Como Gabriel está foragido — estaria escondido no Rio —, a informação é de quem comanda a cobrança do “pedágio” no Estado é outro criminoso do mesmo grupo, Marcos Luiz Pereira Junior, o MK. Mas sob a vigilância atenta do chefe.

Foi a guerra com esta facção, o TCP, iniciada em outubro do ano passado, que trouxe Fernando Moraes Pereira Pimenta, conhecido como Marujo, de volta ao Estado. Como liderança do Primeiro Comando de Vitória (PCV) ele precisou retornar à cidade para coordenar, in loco, a criminalidade. Acabou sendo preso no último dia 8.

O que diz a polícia

Procurada, a Polícia Civil, por meio do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), informa que “investigações acerca dessa prática por uma determinada organização criminosa que atua no tráfico de drogas dessas regiões estão em andamento. No momento". Foi informado que detalhes não podem ser repassados para não interferir na apuração.

Destacam que “a principal liderança dessa facção já foi presa pela Polícia Civil, em ação no final do ano passado, além do irmão do mesmo, pego pela Polícia Militar, que também exercia papel de controle no mesmo grupo”.

Acrescenta que qualquer pessoa que tenha informações que possam contribuir com as investigações pode repassar para o Disque-Denúncia 181.

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