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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

A celebração do Natal em meio às desigualdades sociais

É um tempo em que a solidariedade parece aflorar do espírito humano, como se somente no final de ano as pessoas em situação de vulnerabilidade tivessem necessidade de comer e vestir

Publicado em 20/12/2021 às 02h00
Dom Dario participa de Ceia de Natal com pessoas em situação de rua em praça de Jardim da Penha
Ceia de Natal com pessoas em situação de rua. Crédito: Fernando Madeira

Esta semana termina com a celebração de uma das maiores festas do mundo. A celebração de memória do nascimento de Jesus Cristo, embora com indicativo histórico teológico deslocado, para o dia 25 de dezembro, festa de tradição cristã, caracteriza-se por reuniões familiares e afetivas, encontros e reconciliações, permeados por momentos de reflexões e avaliações de processos de vida.

Em um mundo em que o capital virou sujeito e o ser humano objeto, a festa de tradição judaico-cristã é capturada pelo consumismo e marketing exagerado. Todo o significado e significante de um tempo tão cheio de representações que acabam esvaziando-se do real sentido. Constitui-se dessa forma em um “tempo de vazios”, ao invés de um “tempo de cheios”, na melhor leitura de Manoel de Barros.

Todo o entorno das festividades de final de ano: confraternização de trabalho, almoço de família, 13º salário, troca de presentes e comemorações escolares, dentre outros, somente faz sentido para uma parte da população que durante o ano todo possui, trabalho, família, salário, estudo e recursos.

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Há uma parte significativa da população mundial, cerca de um décimo, de acordo com Relatório das Nações Unidas, que passam fome e não tem acesso ao mínimo para viver com dignidade, sobrevivendo às asperezas cotidianas, com agravamento dramático neste segundo ano da pandemia. Para essas 800 milhões de pessoas, o Natal passa ao largo de ser um tempo de alegria, considerando que batalha diária é pela vida nua.

Mesmo diante de números tão assombrosos e de uma realidade violadora, os enfrentamentos a essas questões sempre são adiados, podendo ser deixadas para o momento seguinte. Para o ano seguinte. Para o tempo seguinte. A urgência de quem passa fome não é universal. A pressa de quem tem direitos violados não se coletiviza. A dor de do outro não é a minha dor, e por isso pode esperar.

Curiosamente, é um tempo em que a solidariedade parece aflorar do espírito humano, como se somente no final de ano as pessoas em situação de vulnerabilidade tivessem necessidade de comer e vestir. A celebração com sobras e com piedade humana é bem diferente quando celebramos a partir da efetivação de direitos fundamentais. A partilha acontece com aquilo que eu não mais quero, o que não me faz falta.

Enquanto as condições para que as pessoas tenham acesso aos direitos e serviços básicos para o bem viver forem desiguais, celebrar uma festa universal, com o significante do nascimento de um Menino que veio trazer a mais desafiadora mensagem para a humanidade, mesmo que de forma diferente respeitando a crença de cada pessoa, não terá o valor e sabor que deveria ter.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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