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Thalles Contão é psicólogo clínico, existencialista, marido, pai, filho e humano, demasiadamente humano

Você tem mesmo motivo pra se estressar no trânsito?

Quando acreditamos que somos especiais e que o universo foi feito para nós, conforme o marketing nos garante, tendemos mesmo a exagerar nas nossas respostas a situações que, ao contrário do que pensamos, são completamente confortáveis

Publicado em 25/11/2020 às 05h00
Homem irritado e estressado no trânsito
Percebo que você, caro leitor, pode estar cultivando uma emoção desproporcional por um caminho de equívoco interpretativo, por influência cultural. Crédito: Shutterstock

X.

anônima

"Tive um pico de raiva essa semana num engarrafamento e minha esposa acha que é estresse. O que posso fazer?"

Caro leitor, como é de praxe, posso te fazer uma pergunta: o que você pensa sobre estresse? Posso pressupor que seja o que todo mundo pensa? Vamos ver se estou certo... o estresse, para você, são picos de resposta emocional agravada. Ou seja, você reage a uma situação de desconforto com comportamentos exagerados.

Acredito no que desenhei como definição de estresse pelo seu relato integral, e, de fato, o trânsito é um ambiente muito propício para esses comportamentos do tipo "estouro de manada". Não é à toa que há um número grande de situações que irrompem até em assassinato e em confusões relacionadas ao trânsito. É uma fonte de estresse para o homem pós-moderno,  mas insisto em te perguntar outra coisa: deveria ser para você?

Minha intenção com as perguntas, caro leitor, é mesmo socrática, porque percebo que pode estar cultivando uma emoção desproporcional por um caminho de equívoco interpretativo, por influência cultural. Traduzindo, meu amigo, sou levado a crer que não há motivos reais para se estressar com o trânsito na sua conjuntura existencial.

Vivemos em um mundo que nos municia de justificativas, pretensamente científicas-filosóficas que escondem nossa "mimatez" existencial. Quando acreditamos que somos especiais e que o universo foi feito para nós, conforme o marketing nos garante, tendemos mesmo a exagerar nas nossas respostas a situações que, ao contrário do que pensamos, são completamente confortáveis!

Uma vez, num engarrafamento, vi ao meu lado um senhor e, talvez, seu filho... Estávamos lado a lado! Eles num carro bem deteriorado, sem conforto algum, num dia de calor intenso. E eu no meu carro, com música e ar-condicionado, profundamente desconfortável por crenças historicamente produzidas em mim de que eu sou um "sujeito de direitos"! Graças ao bom Deus, a visualização daquela imagem foi a intervenção terapêutica que precisei no momento para não alimentar um sofrimento que não existia!

Thalles Contão

psicólogo

"Caro leitor, sua mulher não está errada em sua opinião sobre o seu estresse, mas talvez você esteja errado em superdimencionar incômodos cotidianos sob o lapso de não ser "justo" viver aquilo! Você, de fato, como eu já fiz e faço, precisa mergulhar no oceano do autoconhecimento e perceber que suas crenças sobre a realidade podem estar totalmente equivocadas e sendo promotoras de situações e sofrimentos desnecessários."

O que pode fazer sobre si mesmo, meu amigo, é abandonar sua criança interior que provavelmente acha injusto que a vida tenha dificuldades, e que as lições de matemática tenham mesmo que serem feitas. O grande problemas hoje do estresse não é o seu peso, mas a falta de força voluntária das pessoas que decidiram, por preguiça existencial, negar a realidade. E isso faz mesmo com que achemos que um engarrafamento num carro de luxo é um inferno!

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