“Aplicada a um adversário, alude ao hábito que esse adversário tem de afirmar desavergonhadamente que o negro é branco, em contradição com os fatos óbvios. (...) Mas significa ao mesmo tempo a capacidade de acreditar que o negro é branco e, mais, de saber que o negro é branco, e de esquecer que algum dia julgou o contrário.” (“1984”, George Orwell)
Durante o Iluminismo surgiu o fenômeno do enciclopedismo, no qual cientistas e pesquisadores em geral buscaram catalogar tudo, documentando o conhecimento de todos os fatos do mundo para assim disponibilizá-los à sociedade. Não por acaso, é nesta época que surgem os jardins botânicos e zoológicos, locais para a guarda e o estudo de exemplares da fauna e da flora e que também se configuraram como espaços visitáveis pelo público em geral, tornando-se também um lugar de entretenimento.
No âmbito da arquitetura, o enciclopedismo, ao catalogar todos os estilos arquitetônicos pré-existentes, acabou incentivando o surgimento do Ecletismo, no qual uma edificação poderia ter elementos das ordens clássicas (dórico, jônico ou coríntio, por exemplo) junto com elementos góticos, o que, até então, seria uma heresia conceitual.
Eclético também é quando se usava um daqueles estilos característicos de uma época e lugar, como os citados anteriormente, num contexto de tempo e espaço distintos ao original. As diversas igrejas neogóticas construídas em pleno século XX em muitas cidades brasileiras são o exemplo mais evidente deste fenômeno.
Hoje o Ecletismo, como um princípio ou atitude, se vê aplicado em diversas expressões artísticas. Lembro-me bem de quando a Marisa Monte apareceu pelas mãos do Nelson Motta, cujo primeiro disco era totalmente eclético, pois misturava vários estilos musicais num mesmo álbum, colocando canções pop e bregas juntos, passando até por gêneros regionais como o xote. Se hoje isso é algo comum entre muitos artistas e bastante aceito pelo público, na época ainda era uma coisa rara.
Ser eclético é, portanto, gostar de coisas variadas e ao mesmo tempo e, às vezes, até misturá-las num único caldeirão. Algo muito diferente, porém, é ser contraditório, que é negar aquilo que defende ou que diz que gosta, mas não assume, ou ainda, que age de um modo totalmente oposto ao discurso manifestado publicamente.
E hoje essa parece ser uma prática bastante comum. Se diz cristão, mas não demonstra nenhuma compaixão com centenas de milhares de pessoas que morreram, nem com seus familiares, e pior, até desdenha da dor das pessoas. Se diz honesto, que não é corrupto, mas quando lhe perguntam como cheques foram parar numa determinada conta bancária, xinga, não responde e tudo fica do mesmo jeito.
Diz que vai acabar com a mamata do gasto público desordenado e com os privilégios, mas torra milhões nas férias e na compra de apoio congressista e por aí vai... Jurou “promover o bem geral do povo brasileiro” e faz chacota de quem usa máscara para se proteger e sequer queria comprar vacina para salvar a vida das pessoas.
Ser eclético é mais do que ser tolerante com a diferença, é ter a mente aberta à novas possibilidades de ver o mundo, de compreender a vida em diversos ângulos. Gosto de rock, mas também de samba, e até admito que uma música brega como “Sonhos”, do Peninha, toque no meu repertório, ou na minha playlist, para usar um termo da moda. Já quem é contraditório, diz gostar de música, mas ouve sertanejo... Fala mal do reality show, mas assiste às escondidas... Ou seja, há limites que não se pode ultrapassar.
“A ideologia oficial está impregnada de contradições, mesmo quando não há nenhuma justificativa prática para elas.”
Assim, enquanto eclético está relacionado à estética, o contraditório relaciona-se com a ética, e, portanto, pode-se dizer que a contradição é antiética, é imoral (e talvez até seja ilegal e engorde). Se o ecletismo quer misturar o conhecimento, a contradição quer dividi-lo; destruir a verdade é o seu objetivo.
No âmbito da Justiça, o termo contraditório refere-se ao direito da ampla defesa num inquérito policial, por exemplo. Parte-se do princípio de que se há uma ação policial, é porque algo errado, criminal, ocorreu, e deve-se investigar procurando estabelecer a verdade e buscar possíveis responsáveis pelo crime ou delito. É claro que tragédias ou acidentes podem ocorrer, mesmo que alguém não tenha agido de má fé. Contrapor-se, neste caso, é apresentar um argumento contrário às evidências.
“O ato essencial do Partido consiste em usar o engodo consciente sem perder a firmeza do propósito que corresponde à total honestidade. Dizer mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas.”
O momento atual é difícil, mas podemos definir alguns parâmetros. Desconfiar de determinados discursos moralistas. Recuperar o espírito iluminista ávido pela verdade científica como princípio social. Adotar uma atitude eclética perante as mais variadas formas de expressão, tendo a tolerância como um modo de ver o mundo. Tudo junto e misturado.