Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República com discurso anticorrupção. Foi esse, entre outros aspectos, o motivo que levou milhões de brasileiros a canalizarem para ele suas esperanças em
2018. O plano de governo de Bolsonaro, “O Caminho da Prosperidade”, dá ênfase à palavra
“libertação”. A promessa grandiosa era a de “libertar os brasileiros”, o que incluiria, é claro, libertar-nos do flagelo da
corrupção.
Passados pouco mais de oito meses de governo, a expectativa cedeu lugar à realidade. Sejamos francos: o presidente Bolsonaro não fez, até aqui, nenhum gesto concreto que indique compromisso real com o combate à corrupção. Pelo contrário. Os sinais são péssimos.
Sem o menor pudor ou embaraço, Bolsonaro tem interferido - e declarado abertamente a sua intenção de interferir - na direção de órgãos vitais no enfrentamento ao crime organizado e de colarinho branco. Órgãos cujo sucesso no cumprimento dessa missão depende, fundamentalmente, da autonomia funcional e da independência absoluta em relação a qualquer governo.
Quanto ao
Coaf, o ex-juiz
Sergio Moro se uniu a Bolsonaro e aceitou tornar-se seu ministro da Justiça com um grande sonho de consumo: transferir para debaixo da sua asa o órgão de inteligência sobre atividades financeiras, tão importante em operações como a Lava Jato. Nada feito.
EX-JUIZ FEITO DE GATO E SAPATO
Num golpe de mestre, Bolsonaro o trouxe para seu lado logo após a vitória eleitoral, a fim de transferir a seu ministério a marca “Lava Jato” e reforçar, ao menos no campo simbólico, o pretenso compromisso de seu governo no enfrentamento ao crime (inclusive, a corrupção). Só que Moro está todo amarrado.
De potencial superministro, passou à condição de marionete, ou mascote, de Bolsonaro. É um símbolo, um troféu na prateleira do presidente, cujo real poder de decisão vai sendo atrofiado, podado pela baioneta do próprio Bolsonaro, a cada dia que passa.
E agora
essa escolha absurda para a chefia do MPF… A palavra final é do presidente, tá ok? Sim, segundo a Constituição, está ok. Mas não deixa de soar como outra interferência indevida, contrária à vontade dos próprios procuradores da República.