A pandemia da Covid-19 tem mostrado a relevância de repensarmos os paradigmas produtivos de bens e serviços. Cadeias globais de suprimentos foram estressadas, algumas rompidas, e os efeitos se fizeram sentir nos preços de produtos necessários à manutenção da vida humana, alimentos, por exemplo. Repensar as formas como vivemos é algo necessário para que possamos encontrar saídas coletivas da crise.
No Brasil, a crise possui múltiplas dimensões. O retorno e a expansão da insegurança alimentar, o alto desemprego e a devastação do mercado de trabalho são banalidades do mal que pouco encontram preocupações efetivas na agenda regressiva das reformas. A prioridade brasileira deveria ser acelerar a imunização da população contra o vírus. No entanto, há quem entenda que a agenda regressiva não pode parar no Congresso Nacional.
O estudo “Nova economia para o Brasil” (2020), liderado pelo WRI Brasil, em parceria com outras instituições, merece destaque. Iniciado antes da pandemia, o estudo tem como objetivo “identificar caminhos economicamente viáveis para se construir um Brasil mais moderno, sustentável e inclusivo dentro de um contexto fiscal desfavorável”. O estudo buscou identificar vantagens competitivas e oportunidades capazes de contribuir para a construção de uma economia mais adequada aos desafios do século XXI.
Os recursos financeiros, públicos e privados a serem mobilizados para as recuperações econômicas e sociais dos países representarão uma grande oportunidade histórica de redirecionamento tecnológico e organizacional das sociedades. Nesse sentido, a geração de empregos e a sustentabilidade ambiental precisarão caminhar juntas nas preocupações dos formuladores e executores de políticas públicas.
Segundo apontou o estudo, “o mundo enfrenta atualmente uma convergência de crises sem precedentes”. A pandemia escancarou o que já estava ruim em diversos países, ou seja, as “crises social e econômica relacionadas reforçam as vulnerabilidades geradas pelo baixo crescimento econômico, as crescentes desigualdades dentro e entre países, e a crise climática”.
Entre as recomendações do estudo, encontra-se a necessidade de investimentos em infraestrutura de qualidade, inovação industrial (“tecnologias verdes”) e agricultura sustentável. De acordo com o documento, esses investimentos “têm o potencial de gerar milhões de empregos, alavancar o crescimento sustentável e competitivo do Brasil e contribuir para a redução da pobreza e da desigualdade”.
Como é de conhecimento público, uma infraestrutura de qualidade viabilizaria uma maior produtividade e competitividade sistêmica da economia brasileira. Uma infraestrutura de qualidade criaria ainda as condições para a ampliação do investimento em diversos setores, com repercussões positivas na geração de empregos e rendas.
Do ponto de vista das inovações tecnológicas, o estudo afirmou que o objetivo deve ser “reduzir significativamente a desigualdade no acesso a serviços básicos e a mercados, o que poderia acontecer por meio de tecnologias sustentáveis existentes no Brasil”. Tal fato demandará ajustes na estrutura regulatória nacional.
Em síntese, ponderou o estudo, “a transição energética para tecnologias de baixa emissão de carbono é uma forte tendência do século XXI e já não é mais uma questão de se, mas de quando irá acontecer”. O transporte coletivo precisa ser repensado no Brasil, por exemplo, sob novas bases de preocupações ambientais. O estudo citou as oportunidades da cadeia produtiva do ônibus elétrico. No geral, “subsídios e incentivos deveriam ser redirecionados para atividades associadas a alta produtividade, práticas sustentáveis e de baixo carbono, bem como assistência técnica”.
Uma nova agenda de desenvolvimento, nos moldes propostos pelo estudo, “levaria a um aumento líquido de mais de 2 milhões de empregos na economia brasileira em 2030 em relação à trajetória atual, e com benefícios já desde o primeiro ano”. Ademais, essa nova agenda tem o potencial de reduzir a emissão de gases de efeito estufa para além do compromisso do Brasil para 2025 no âmbito do Acordo de Paris.