ASSINE
É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade. Escreve quinzenalmente, às segundas

A recuperação da demanda de consumo e os efeitos duradouros da pandemia

Hábitos de consumo de longa data foram interrompidos, alguns acelerados ou revertidos durante a pandemia

Publicado em 17/05/2021 às 02h00
e-commerce comercio internet compras online
Mudanças nos padrões de consumo levaram a mudanças na participação de mercado e abriram a possibilidade de novos participantes. Empresas foram forçadas a acelerar as suas transformações digitais. Crédito: Pixabay

Um relatório do McKinsey Global Institute (MGI), publicado no dia 17 de março, trouxe reflexões sobre a recuperação da demanda de consumo e os efeitos duradouros da pandemia da Covid-19. Os gastos dos consumidores, importantes fontes de atividade econômica, entraram em colapso quando a primeira onda da pandemia varreu os países no início de 2020. Não foi diferente o ocorrido no Brasil.

De acordo com o MGI, “de repente, os consumidores foram forçados a mudar de comportamento, as empresas a transformar os modelos de negócios e os governos a ajustar as regulamentações”. Trabalhadores mais qualificados conseguiram segurar mais os seus empregos, em home office, por exemplo, diferentemente dos trabalhadores menos qualificados. Mais uma vez, o progresso técnico não cumpriu com a sua promessa de democratizar a prosperidade e as oportunidades.

Foram examinados no relatório os gastos de consumidores na China, na França, na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Segundo as informações disponibilizadas, as quedas médias de consumo foram de 11% a 26% para os serviços em 2020. A organização e o avanço das campanhas nacionais de vacinação são encarados como elementos estratégicos para a recuperação das economias.

Conforme consta no relatório do MGI, “embora muitas famílias de renda mais alta saiam em grande parte ilesas financeiramente, famílias de baixa renda perderam empregos ou enfrentam incertezas quanto à renda, principalmente devido às mudanças no mercado de trabalho causadas pela digitalização e automação”. Esse quadro não é tão diferente da distopia brasileira, que vem sendo construída a partir do aprofundamento de uma "modernização" institucional regressiva desde 2016.

A polarização do consumo entre as rendas mais altas e as mais baixas tende a se elevar. Em síntese, é esperado que os gastos das pessoas de rendas médias e altas voltem aos níveis pré-pandemia entre 2021 e 2022, enquanto os gastos de baixa renda podem cair abaixo dos níveis pré-pandemia quando as medidas de estímulo expirarem. Nesse sentido, é razoável que os governos estendam auxílios e apoios financeiros.

Hábitos de consumo de longa data foram interrompidos, alguns acelerados ou revertidos durante a pandemia. Dois padrões consistentes se destacaram no relatório. O primeiro padrão diz respeito à aceleração da economia digital, especialmente em compras de alimentos e saúde. A pandemia e os “lockdowns” inverteram a tendência de longa data de declínio do dinheiro e do tempo gasto em casa, aponta o segundo padrão.

Para que os padrões citados se desdobrem no tempo, há a pré-condição de uma infraestrutura adequada. Afinal, conforme ponderou o relatório, “o grau de adequação da infraestrutura pode afetar a resposta do consumidor, da indústria e do governo na determinação da rigidez dos comportamentos”.

No caso de uma região, já é conhecido o fato de que a infraestrutura pode apoiar os negócios, o consumo e a geração de rendas. Uma infraestrutura digital abrangente, por exemplo, é a chave para o acesso a serviços públicos remotos, mas também para a articulação de cadeias de suprimentos e negócios mais eficientes.

A pandemia alterou o cenário competitivo em muitos setores econômicos. Mudanças nos padrões de consumo levaram a mudanças na participação de mercado e abriram a possibilidade de novos participantes. Empresas foram forçadas a acelerar as suas transformações digitais. O trabalho em casa reduziu a demanda por viagens aéreas de negócios, com estimativas indicando que a queda de 20%, ou mais, poderá ser permanente.

Governos, por sua vez, enfrentam muitos desafios no presente. Destaco do relatório a necessidade de encontrar o equilíbrio nas políticas macroeconômicas para apoiar a recuperação da demanda dos consumidores, ajustar as regulamentações nos mercados de consumo para acompanhar as mudanças em andamento e enfrentar as marcas duradouras da pandemia, especialmente as desigualdades sociais.

Em termos de sustentabilidade, que deve ser a lógica das políticas públicas para a recuperação, a rotulagem de eficiência energética para bens domésticos duráveis em todo o mundo tem se mostrado capaz de influenciar escolhas de consumidores para produtos mais ecológicos. Mudanças regulatórias podem influenciar mudanças no consumo para escolhas mais "verdes".

O plano de ação da economia circular da União Europeia é um exemplo que estabelece metas para a Europa reduzir os produtos de uso único, aperfeiçoando as práticas de reciclagem e expandindo a reutilização de materiais. Reduzir a insustentabilidade socioambiental é uma necessidade global. Esse tipo de ação tem repercussão transformadora nas estruturas produtivas, dos projetos de produtos às logísticas das cadeias de suprimentos.

Em artigo anterior neste portal, argumentei que, se bem coordenado, o processo de transição verde, através das suas diversas dimensões, pode auxiliar no combate ou mesmo reverter problemas de longa data do Brasil, relacionados à infraestrutura insuficiente e obsoleta, à perda de competências industriais, ao limitado desenvolvimento tecnológico, baixo dinamismo da produtividade, má distribuição de renda, entre outros.

Acrescentei então que não ocorrerá espontaneamente a recuperação da economia brasileira, sob novas bases. Sem o direcionamento político para investimentos verdes, sustentáveis e que sejam inclusivos do ponto de vista social, dificilmente viveremos melhores momentos nos médios e longos prazos. Será preciso fortalecer efetivamente as políticas ambiental e de ciência, tecnologia e inovação no Brasil.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.