A divulgação do resultado trimestral do desempenho da economia brasileira superou as expectativas médias de crescimento. No entanto, esse resultado merece considerações sobre a qualidade do crescimento. O ritmo lento da vacinação e o risco de racionamento energético integram as dúvidas e as incertezas no presente.
De acordo com Helder Lara e José Oreiro, em artigo de opinião no site Poder 360, no dia 4 de junho, “o PIB no 1º trimestre de 2013, por exemplo, ainda é superior ao PIB observado no 1º trimestre de 2021, refletindo a lentidão da reação frente à recessão de 2014 e 2016”. A renda per capita, por sua vez, está aquém da observada no primeiro trimestre de 2013.
O setor dinâmico da economia brasileira é a agropecuária, que, segundo Lara e Oreiro, “não cria tantos empregos quanto os outros setores”. Indústrias e serviços seguem com dinâmicas negativas. O crescimento recente derivou do investimento, principalmente aquele feito pela Petrobras, e da demanda externa por commodities agrícolas, com efeito de elevação da inflação doméstica.
A devastação estrutural do mercado de trabalho, medida pelo IBGE desde antes do início da pandemia de Covid-19, é um fato irrefutável. Nesse sentido, não é razoável esperar a reversão desse dramático quadro social nos próximos momentos a partir do aprofundamento de uma agenda regressiva de reformas, que vem sendo executada desde 2016.
Na coluna “Tropiconomia”, de Alexander Busch, no site da DW Brasil, de 12 de maio, constou a reflexão sobre o fato de que o agronegócio brasileiro está pondo a sua posição em jogo. Busch ponderou que, “sem o agronegócio, a crise econômica do Brasil seria muito mais grave”. Citando a Embrapa, ele afirmou que “o Brasil alcançou esta posição de liderança principalmente por meio de sua própria pesquisa e de tecnologia autodesenvolvida”.
Entretanto, reconheceu o jornalista, “os agricultores brasileiros também devastaram a floresta tropical e o Cerrado para plantar soja e abrir espaço para o gado”. A flexibilização das normas ambientais preocupa os estrangeiros. Quarenta redes varejistas europeias já alertaram o Legislativo de que não comprarão produtos brasileiros caso as operações de corte e queima não sejam reduzidas na Amazônia.
Como alerta, o jornalista ressaltou ainda que “os concorrentes no mercado mundial estão só esperando que o setor agrícola brasileiro abra seus flancos para que possam escantear os concorrentes indesejáveis da América do Sul ou exigir preços mais baixos”. Também foram mencionadas as condições de trabalho análogas à escravidão e o descaso das autoridades como fatores de risco para o agronegócio.
A pandemia e as crises socioeconômicas relacionadas reforçam as vulnerabilidades geradas pelo baixo crescimento em diversos países. As crescentes desigualdades sociais e a crise climática integram esse complexo imbróglio. Pensar a recuperação econômica identificando caminhos economicamente viáveis para se construir um Brasil mais moderno, sustentável e inclusivo em um contexto fiscal desfavorável, é algo muito necessário.
Será preciso identificar as vantagens competitivas e as oportunidades capazes de contribuir para a construção de uma nova economia brasileira, tendo em vista os desafios do século XXI. Caso a opção seja por ignorar essas oportunidades e vantagens, é bem provável que o Brasil fique limitado a tecnologias e modelos econômicos obsoletos. Afinal, a agenda regressiva das reformas tem buscado dar sobrevida a um modelo obsoleto de organização econômica, com consequências sociais e ambientais ruins?