Desde 2002, a política capixaba vive um efeito de longue durée em suas estruturas. Tomo emprestado o conceito difundido por Fernand Braudel para designar mudanças estruturais de longo alcance histórico. No Espírito Santo, significou a cultura do ajuste fiscal, da resistência ao crime organizado e da recorrente luta contra o pó preto. E a continuidade da agenda do desenvolvimento e da política educacional.
Aqui, a longue durée consolidou a liderança dos dois maiores líderes da política estadual no século XXI: Paulo Hartung e Renato Casagrande. Eles se revezam no poder há 20 anos – e poderão permanecer até 2026 e depois. Não há sinais de surgimento de lideranças que poderiam “quebrar” esta alternância dual. Os jovens políticos do mantra da nova política estão longe de formar lastro político para alcançar os dois líderes da “velha política”.
E daí? Daí que Renato Casagrande se posiciona para disputar a reeleição. E Paulo Hartung se movimenta com discrição para retornar à política eleitoral. Casagrande já revelou que vai para a reeleição. Hartung é estimulado por lideranças empresariais do eixo Faria Lima-Leblon para uma pré-candidatura à Presidência da República. Ao mesmo tempo, move suas pedras no xadrez capixaba para influenciar a sucessão estadual e, talvez, ser candidato a senador. No xadrez da política, tem político que é dedo e político que é pedra. Hartung é dedo.
Ele fala em “centro expandido”, nacionalmente. Deu uma entrevista ao Antagonista. Nas entrelinhas, sinais de candidato a candidato do centro. Conta com o apoio discreto de lideranças do mercado financeiro e de empresas ESG, que o estimulam ao protagonismo. Luciano Huck, que ele apoia, parece realmente ter decidido desistir da candidatura.
Ao mesmo tempo, Hartung e aliados estimulam o povoamento de candidaturas no centro político capixaba. Estão se movimentando nos bastidores as eventuais candidaturas de Audifax Barcelos, Guerino Zanon, Aridelmo Teixeira, Felipe Rigoni, Leonardo de Castro e Eugenio Ricas. Nas pontas do espectro político, as candidaturas de Manato e do PT se apresentam. Seria uma geopolítica para derrotar Casagrande no segundo turno.
Parte das elites políticas capixabas ainda julga possível a política da geopolítica. Há, inclusive, alguns estrategistas que consideram possível arrumar o tabuleiro para formar uma espécie de “minueto implícito”: Casagrande para governador e Hartung para senador.
O que há na fenomenologia da política estadual? O fato que ela está em processo de transição, liderado por Renato Casagrande. O fato, também, que um vácuo de novas lideranças com lastro político estadual, e não local, é convite para Paulo Hartung continuar na pista. Na métrica da esperança de vida política, os dois são jovens. Pode ser que a longue durée seja prolongada. A conferir.