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É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

Sinais trocados na conjuntura econômica brasileira

O ambiente externo impulsiona o crescimento via exportações. Mas o problema social interno deprime o consumo e reforça a anomia social

Publicado em 29/05/2021 às 02h00
*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 21.08.2019 - Still dinheiro. Cédulas. Real. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)
Perda de renda dos trabalhadores pode ter sido de R$ 200 bilhões em 2020. Crédito: Gabriel Cabral/Folhapress

Sob ameaça de uma 3ª onda da Covid-19, o Brasil vive um momento econômico de expectativas contraditórias. Por um lado, economistas do mercado financeiro e de instituições de pesquisas econômicas sinalizam alta do PIB em 2021 em torno de 3.5%. Por outro lado, os sinais de que a crise sanitária está se tornando uma crise crônica no Brasil tornam a apontar nuvens no horizonte. Lá se vão sete anos sem crescer. Outra reversão de expectativas volta ao radar. O único fato concreto que parece irreversível é que o agronegócio continuará sendo a âncora da economia brasileira.

Os ventos externos remam a favor do Brasil. O retorno das duas locomotivas mundiais – Estados Unidos e China - à rota de crescimento econômico já iniciou um “boom” de commodities que beneficia as exportações brasileiras. Os preços do minério de ferro cresceram 123%; do milho, 84%; da soja, 80%. Do café arábica também cresceu.

A onda não parece ser passageira. O Plano Biden é um pacote de US$ 2,3 trilhões de investimentos na economia americana, com efeitos duradouros na taxa de crescimento. E a China retomou seus planos de expansão, na trilha da Nova Rota da Seda. Tudo puxa a demanda por alimentos e commodities como o minério de ferro.

Ao mesmo tempo, é cada vez mais profundo no Brasil o problema da desigualdade, da pobreza, do desemprego estrutural e, recentemente, da carestia na cesta básica. Tudo isto é reforçado pela prolongada pandemia. Ricardo Barros (Insper-SP) colocou o dedo na ferida: a gestão da pandemia tornou a crise crônica. Amplia a desigualdade. Olhando para a taxa média de transmissão, ele aponta que “o Brasil é o país que fica mais tempo perto de 1 ao longo do tempo” – o que acaba transformando a pandemia em crônica. A perda de renda dos trabalhadores pode ter sido de R$ 200 bilhões em 2020, ele estima.

O ambiente externo impulsiona o crescimento via exportações. Mas o problema social interno deprime o consumo e reforça a anomia social. A volta do auxílio emergencial não resolveu a emergência. A cesta básica custa em torno de R$ 600. É urgente uma solução na direção da renda básica e um grande programa de reinclusão produtiva para os que perderam o seu trabalho, em torno de 15 milhões de pessoas.

O ministro Paulo Guedes declarou que o governo prepara um Bolsa Família melhorado e uma bolsa de qualificação profissional que poderá chegar a R$ 600. Vai resolver?

O ambiente político radicalizado pelo presidente Bolsonaro não ajuda a criar clima propício à reversão das expectativas. Há instabilidade e ausência de previsibilidade, essencial na formação de expectativas. Há, ainda, incertezas fiscais, apesar da melhoria da arrecadação federal.

Para 2021 e 2022, o nosso dilema permanece: como reverter expectativas econômicas e políticas e criar antídotos aos nossos recorrentes voos de galinha na economia?

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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