Vivemos tempos em que o óbvio precisa ser defendido com unhas e dentes. O recente episódio envolvendo o recolhimento de lote do detergente Ypê pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não é apenas um caso de falha no controle de qualidade industrial, mas um espelho deformado que reflete a tacanhez intelectual e moral de uma parcela da humanidade que decidiu politizar até a química básica.
Quando uma agência reguladora identifica um risco de contaminação bacteriana em um produto de higiene, ela está cumprindo seu papel técnico de preservação da vida. No entanto, o que vimos foi uma tentativa deliberada de embaralhar medidas sanitárias com palanque político, ao transformar um protocolo de segurança em "perseguição" ou "teoria da conspiração", denota-se não apenas um exercício de mediocridade, mas um ato criminoso contra a saúde pública.
O sociólogo James Jasper define a política como o repertório de interações onde agentes se reúnem com o propósito de construir o coletivo. É a arte da negociação, do conflito de ideias e da busca por soluções sociais. Beber detergente, ignorar contaminações biológicas ou incentivar o descumprimento de normas técnicas de saúde não faz parte de nenhum repertório político legítimo.
Beira a insanidade acreditar que uma bactéria ou um resíduo químico escolha lado no espectro partidário antes de infectar um organismo. Quando a ideologia tenta se sobrepor à biologia, abandonamos o campo da política e entramos no terreno da psicopatologia coletiva.
É difícil digerir a velocidade com que o debate político público se degrada. A resistência em aceitar fatos científicos e diretrizes de órgãos do Estado, que existem para garantir que o prato que você lava não se torne um vetor de doenças, demonstra uma falência educacional e empática.
Vamos desenhar: o fato - o lote estava impróprio; a ação - recolhimento visa proteger o consumidor; o ruído - uso desonesto da informação para alimentar bolhas de ódio.
Enquanto a humanidade insistir em enxergar conspirações onde há apenas ciência e cuidado sanitário, continuaremos mergulhados nessa mediocridade asfixiante. A saúde pública deve ser um solo sagrado, intocado pela guerra de narrativas.
Se não conseguimos concordar nem que detergente contaminado é um problema, talvez o que precise ser "limpo" com urgência não sejam as louças, mas nosso discernimento e nossa civilidade.
É cansativo, é nojento, mas é preciso nomear: quem politiza o risco sanitário não está fazendo política, está flertando com a barbárie.