Assisti na última semana, em Washington, a uma palestra sobre inteligência artificial que reforçou uma convicção: o Brasil tem praticamente tudo para ganhar a corrida da IA. Menos uma coisa que depende de nós mesmos: previsibilidade.
O Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT do mundo em usuários ativos semanais, número que quase dobrou no último ano. O país já envia cerca de 215 milhões de mensagens por dia à plataforma. Ao mesmo tempo, criamos com o Pix uma das mais impressionantes infraestruturas digitais de pagamentos do mundo.
Na energia, temos outra vantagem: cerca de 90% da eletricidade brasileira foi gerada por fontes de baixa emissão em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia.
Temos também tradição em gerar dados. O sistema público brasileiro reúne informações de saúde há décadas: as bases do DATASUS incluem, por exemplo, registros epidemiológicos que remontam aos anos 1980.
Evidentemente, isso não significa que esses dados possam simplesmente ser utilizados por empresas ou sistemas de IA, por questões de privacidade, segurança e governança. Mas significa que o Brasil possui um ativo informacional de enorme valor.
No fundo, a inteligência artificial precisa de três fatores: usuários, dados e energia. O Brasil tem os três. O problema é transformar potencial em investimento.
Nessa semana, o Congresso avançou na discussão sobre o Redata, legislação voltada à criação de um regime tributário especial para estimular investimentos em data centers, infraestrutura essencial para computação em nuvem e inteligência artificial. A discussão é relevante, e o incentivo pode ajudar a atrair capital.
Mas essa é apenas uma parte das questões que precisamos resolver para atrair investimentos em IA. Investidor não compra apenas incentivo. Compra estabilidade. Um grande data center é construído para durar décadas. Quem aplica bilhões de dólares precisa saber quais serão as regras tributárias, regulatórias e operacionais durante a vida do ativo. Precisamos oferecer confiança de longo prazo: um incentivo que pode desaparecer vale menos do que uma regra simples que permanece.
Shuttersotck
Outra discussão interessante em Washington dizia respeito à propriedade intelectual. Há uma tendência de imaginar que toda inovação tecnológica deve ser protegida por patente. Na inteligência artificial, a resposta pode ser mais complexa. Patentes exigem divulgação e, em determinados casos, revelar detalhes de uma solução pode expor aquilo que constitui sua vantagem competitiva.
Para algumas empresas, a patente será indispensável. Para outras, o segredo industrial, o controle de acesso e contratos bem estruturados poderão oferecer proteção mais adequada.
Há também a questão da responsabilização: quem responde quando o sistema produz uma informação incorreta, reproduz um viés ou toma uma decisão inadequada? Porque sistemas vão errar. Isso não é um argumento contra a IA. É um argumento a favor da governança.
Responsabilidades, supervisão humana, limites de utilização e mecanismos de correção precisam estar definidos antes que o problema aconteça. Quem não resolve essa questão no contrato pode acabar resolvendo no tribunal. E vale lembrar: computador não vai preso; você vai.
Por isso, a IA não elimina a necessidade de supervisão humana. Alguém precisa compreender os riscos das decisões tomadas com seu uso. Dizer “eu não sabia o que o sistema estava fazendo” é falha de governança, quase uma confissão de culpa.
A grande oportunidade brasileira, portanto, é transformar nossa extraordinária capacidade de adoção tecnológica em liderança econômica. Isso significa construir infraestrutura, montar um arcabouço regulatório, formar profissionais, criar empresas, aumentar a produtividade e desenvolver propriedade intelectual.
O país que vencerá a corrida da IA não será necessariamente aquele que vai construir mais data centers. Será aquele que conseguir ensinar milhões de pessoas a usar a tecnologia para trabalhar melhor, criar mais, empreender mais e resolver problemas mais complexos.
O Brasil tem usuários, dados, energia, escala, empreendedores e um mercado digital capaz de adotar novas tecnologias com uma velocidade impressionante.
Temos quase tudo. O que ainda precisamos consolidar é a confiança de longo prazo que transforma ativos em investimentos. Porque, no fim, o que o investidor compra é estabilidade. E, aí, depende de nós. Nosso futuro na IA depende da nossa inteligência como sociedade. É a inteligência real que vai fazer a diferença do Brasil no mundo da IA.