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Rafael Furlanetti

Quando a verdade chega ao mercado antes de conseguirmos processá-la

Uma informação muda expectativas. Expectativas mudam posições. Posições mudam preços. É a informação interferindo na economia real

Publicado em 19 de Agosto de 2026 às 04:00

Públicado em 

19 ago 2026 às 04:00
Rafael Furlanetti

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Rafael Furlanetti Rafael Furlanetti

Uma das discussões necessárias nos dias de hoje é sobre a disseminação de notícias falsas. Mas e quando as notícias são verdadeiras? O que acontece quando fatos verdadeiros chegam simultaneamente a milhões de pessoas, em velocidade praticamente instantânea?


A informação deixou de ser apenas um insumo para decisões. Ela própria passou a movimentar mercados. Em determinadas circunstâncias, a verdade pode produzir consequências econômicas antes mesmo que empresas e investidores tenham tempo para compreender plenamente o que aconteceu.


O Estreito de Ormuz é um exemplo eloquente. Cada declaração sobre a possibilidade de reabertura ou interrupção do tráfego marítimo altera expectativas sobre petróleo, fretes, seguros, inflação e crescimento mundial. Repare: não é necessário que um evento econômico aconteça para que ele produza efeitos econômicos. A expectativa de que aconteça já pode alterar preços.

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Uma informação muda expectativas. Expectativas mudam posições. Posições mudam preços. É a informação interferindo na economia real.


Durante décadas, existiu uma sequência relativamente previsível nos mercados: uma empresa divulgava um resultado; analistas estudavam; investidores avaliavam; o mercado reagia. Essa sequência foi comprimida.


Hoje, uma informação pode aparecer em uma postagem, ser reproduzida milhares de vezes, analisada por sistemas automatizados e incorporada aos preços antes que um investidor humano tenha terminado de ler a notícia.


Um algoritmo pode monitorar milhares de fontes, reconhecer padrões e executar uma operação em frações de segundo. A velocidade deixou de ser apenas uma vantagem operacional. Passou a ser uma dimensão da competição.


Mas a questão tem camadas mais complexas. Estudos mostram que maior conectividade social, além de acelerar a incorporação das notícias aos preços, também pode aumentar a divergência de opiniões e o excesso de negociação. 


Há diferenças ainda se a fonte é a mídia tradicional ou as redes sociais. Maior exposição às redes esteve associada a maior volatilidade e volume de negociação. O problema, portanto, não é apenas a informação falsa. Informação verdadeira em excesso, chegando rápido demais, desafia a capacidade humana de tomar decisão.


Imagine esse tipo de situação nas empresas. Uma indústria precisa decidir quando comprar matéria-prima. Um exportador acompanha câmbio e frete. Uma empresa de energia monitora petróleo e gás. Um varejista administra estoques. Uma informação pode representar uma oportunidade, ou uma decisão precipitada.


A questão deixou de ser simplesmente ter informação. Passou a ser saber qual informação merece uma decisão. Essa é uma nova competência empresarial: a inteligência da informação. Não basta receber, compartilhar ou ser o primeiro. É preciso verificar, contextualizar, comparar fontes e decidir.


Essa transformação merece atenção especial no Espírito Santo. Uma economia integrada ao comércio exterior, à indústria, à mineração, à energia e à logística está diretamente exposta às informações que circulam pelos mercados globais.

Estreito de Ormuz, no Irã, onde passa maioria da produção mundial de petróleo
Estreito de Ormuz, no Irã, onde passa maioria da produção mundial de petróleo Imagem de Satélite/Google Maps/Reprodução

Uma notícia sobre petróleo altera custos de transporte. Um dado sobre a China modifica o preço do minério. Uma mudança nas expectativas de juros afeta o câmbio. Uma interrupção logística reorganiza cadeias de suprimentos. Assim, acompanhar o mundo deixou de ser uma atividade secundária. É parte da gestão.


A inteligência artificial tornará essa dinâmica ainda mais sofisticada. Sistemas capazes de acompanhar milhares de fontes poderão cruzar dados de mercado, notícias, redes sociais e indicadores econômicos em velocidades impossíveis para equipes humanas. Mas isso não elimina a necessidade de julgamento. Ao contrário: torna-o ainda mais importante.


A vantagem competitiva talvez não pertença a quem tiver mais informações, mas a quem conseguir separar sinal de ruído, fato de interpretação, informação de impulso. E transformar conhecimento em decisão melhor.


Não estamos apenas vivendo a era da informação instantânea, e sim a era em que o intervalo entre informação e consequência econômica está desaparecendo. 


Quando uma informação verdadeira pode alterar o preço de uma commodity antes mesmo que uma empresa consiga reunir seu conselho de administração, fica evidente que informação deixou de ser apenas conhecimento. Informação passou a ser mercado.

Rafael Furlanetti

Rafael Furlanetti Rafael Furlanetti

Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espirito Santo

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