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Vitor Vogas

Pazolini se pinta como o candidato (ainda mais) moderado do “Bolsonaro mais moderado”

Na sabatina A Gazeta/CBN, cada resposta de Pazolini foi ilustrativa da sua disposição em se manter num meio-termo, no meio do caminho entre uma posição radicalmente bolsonarista e outra francamente divergente

Publicado em 02 de Setembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

02 set 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Eleições 2026 - Sabatina com Lorenzo Pazolini
Eleições 2026 - Sabatina com Lorenzo Pazolini Ricardo Medeiros

Na estreia da série de sabatinas de A Gazeta e CBN Vitória com os candidatos a governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) trocou o mármore de sua Cachoeiro pela pedra-sabão. Veio bem ensaboado para a entrevista, sem responder de forma mais efetiva a nenhuma pergunta relacionada a suas posições ideológicas pessoais. Nem se ele é centro, direita ou centro-direita, Ricardo quis responder...


Ontem, foi a vez de Pazolini besuntar o próprio corpo com o óleo de Lorenzo (não aquele do filme) antes de ingressar no auditório da Rede Gazeta. Em alguns momentos, o ex-prefeito foi escorregadio, sobretudo ao ser “chamado” a abraçar por completo o bolsonarismo. Cauteloso, preferiu não o fazer.


Compreensível: seria reduzir a si mesmo a um rótulo e se isolar em um corner extremo. É tudo o que ele não quer e não precisa neste momento em que precisa se tornar mais conhecido e expandir seu eleitorado, inclusive entre eleitores independentes, de centro-direita e de direita não bolsonarista.


Apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro, Pazolini teve a oportunidade de se declarar bolsonarista, logo no início da sabatina. Não o fez. Minha pergunta a ele foi direta: o senhor se considera um “bolsonarista”? Ele poderia ter dito sim ou não. Não fez nem uma coisa nem outra.


Definindo a própria gestão na Prefeitura de Vitória como de centro-direita (e colocando-se, portanto, nesse campo), o candidato do Republicanos fez diversos acenos muito claros ao eleitorado mais engajado da família Bolsonaro. Ao mesmo tempo, assumiu discurso e posições bem mais contidas que as de Jair Bolsonaro, Flávio e Magno Malta, representante maior do bolsonarismo em solo capixaba, presidente estadual do PL e, nessa disputa local, apoiador e aliado do ex-prefeito.


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Pazolini buscou se apresentar como o candidato a governador moderado do pretenso “Bolsonaro mais moderado” com quem trocou um abraço físico e, simbolicamente, político no dia 18 de julho, em Vitória. Abraçou Flávio, sim, mas não o bolsonarismo por inteiro – vale dizer: não toda a ideologia de extrema-direita representada pelo Bolsonaro pai, da qual o filho 01 é herdeiro e representante na presente eleição presidencial.


Se houvesse uma escala de 0 a 10 de “radicalidade bolsonarista”, poderíamos dizer que Pazolini se manteve ali, num índice mediano, de 5 a 6. Isso ficou evidente, por exemplo, quando ele mesmo fez questão de ponderar que mantém opiniões discordantes daquelas mantidas por aliados eleitorais. Foi quase uma ode à diversidade de pensamento:


“Sou sempre alguém a favor da boa gestão. Naturalmente, eu aprendi a conviver com as diferenças na vida. Aprendi a entender as características de cada um. E, para caminhar ao lado das pessoas, nós não precisamos ter exatamente as mesmas opiniões sobre tudo. Imagina o mundo, como seria ruim, se todos tivessem que gostar das mesmas cosias, ter a mesma opinião. Nós acreditamos muito no diálogo, no debate propositivo. Temos a nossa gestão, que é de centro-direita, que fez um resultado na cidade. E nós temos que nos aproximar daquilo que está mais próximo a nós”.


Pegando esse gancho do ex-prefeito, propusemos-lhe um ligeiro “pingue-pongue”: pedimos a ele para se posicionar, de maneira direta e objetiva, sobre algumas das premissas inegociáveis da “cartilha bolsonarista” – aquilo em que todo “bolsonarista raiz” acredita de maneira incondicional. Concorda ou discorda? Por quê?


Cada resposta de Pazolini foi ilustrativa do que estamos buscando aqui frisar: sua disposição em se manter num meio-termo, no meio do caminho entre uma posição radicalmente bolsonarista (inteiramente de acordo com tais premissas) e outra francamente divergente.


Mesmo quando a discordância se mostrou evidente, como no caso das teorias conspiratórias sobre as urnas, ele procurou suavizá-la, escolhendo bem as palavras, em vez de a manifestar de forma explícita. Podia simplesmente ter dito “Discordo. Confio nas urnas. Próxima!”


Em vez disso, sem conjugar o verbo “discordar”, preferiu responder com seu exemplo: 

O que eu posso afiançar é que, a partir do momento em que eu fui eleito pelas urnas três vezes, naturalmente ela deve ter algum grau de confiança, e é isso que eu acredito.

Lorenzo Pazolini (Rep), ex-prefeito de Vitória e candidato a governador do ES

E olha que nem lhe perguntamos sobre cloroquina e vacinação!


Em outras situações, deu-se o contrário. Pazolini, por exemplo, deu a entender que concorda com a premissa de que não houve tentativa de golpe de Estado (por parte de Jair Bolsonaro e dos participantes do 8 de setembro), mas não chegou a dizê-lo com todas as letras.


Em vez disso, disse que concorda com as punições pelo crime de dano qualificado ao patrimônio público (aos manifestantes na linha de frente), mas que houve “excessos” na dosimetria das penas definidas pelo STF. Um meio-termo, pendendo mais para a tese bolsonarista, mas sem radicalizar na resposta... sem defender, por exemplo, uma “anistia geral”. De novo: buscando exprimir uma posição de equilíbrio e moderação.


Assim também ao ser questionado especificamente sobre Alexandre de Moraes. Em momento algum Pazolini disse concordar que o ministro deva ser cassado pelo Senado por crime de responsabilidade, “impeachment já” ou algo que o valha... Mas não deixou de registrar algumas sérias ressalvas ao comportamento de Moraes como julgador, avaliando que ele acumulou poderes e extrapolou, sim, suas competências delimitadas pela Carta Magna.


“A Constituição de 1988 teve a sabedoria de separar as atribuições e competências de cada instituição. Quando uma instituição investiga, acusa, pune e ainda acompanha o cumprimento da execução penal, me parece que tem algo de errado. Então, essa luz precisa ser acesa na mente das pessoas para levar a uma reflexão. O Estado Democrático de Direito não prevê esse tipo de conduta.”


Questionado diretamente sobre o possível impeachment do ministro, ele ressaltou que a atribuição para fazer essa avaliação é do Senado, mas que esta precisa mesmo ser feita, até porque “a maioria da opinião pública brasileira já se expressou que houve um excesso”.


“Se eventualmente alguém foi além da sua função, além da sua atribuição, além do que deveria fazer, naturalmente tem que existir uma sanção, tem que existir uma pena, até porque, independentemente do cargo que você ocupa, nós temos um sistema de freios e contrapesos, e o Senado Federal existe para equilibrar os Poderes da nação.”

Falando em equilíbrio...

O ex-prefeito, enfim, buscou sempre se equilibrar sobre esse estreito muro da ponderação e da autocontenção... o que também despontou daquela sua primeira resposta sobre ser ou não “bolsonarista”. Sem excluir eventuais “diferenças” de opinião, ele fez questão de salientar: o projeto nacional representado hoje por Flávio está mais “próximo” do que ele acredita.


Vale reproduzir aqui:


“Se você olhar o projeto nacional, nós estamos mais próximos ao projeto que o Flávio Bolsonaro acredita do que o outro candidato, respeitando todos os candidatos. Mas o que nós acreditamos está mais próximo desse núcleo. E é exatamente esse núcleo que nós vamos trazer para o Espírito Santo, como já fizemos em Vitória, com muita racionalidade, com razão, com base em evidência. A gestão de Vitória deu certo porque ela se baseou em evidência, se baseou em estudo, se baseou em técnica. É isso que nós acreditamos”.


Ele encerrou opinando que Flávio tem demonstrado, na campanha, “uma posição muito equilibrada sobre temas nacionais” (olha aí o tal “Bolsonaro moderado”...): 


“Essa discussão às vezes se torna pueril, estéril, e acaba não transformando a vida das pessoas. Mas é claro: nós nos aproximamos mais do projeto do PL, do projeto do Flávio Bolsonaro. Não quer dizer que todos tenham que concordar. E o próprio Flávio hoje tem demonstrado, nessa campanha, uma posição muito equilibrada sobre temas nacionais, mostrando o que ele acredita de forma muito racional. E é disso que nosso Brasil precisa: vencer essa brigalhada, vencer esse conjunto de discussões que às vezes não estão mudando a vida das pessoas, para que nós possamos de fato melhorar a vida de quem precisa, colocar comida na mesa”.


A mesma inclinação ao “equilíbrio” despontou, ainda, da primeira resposta de Pazolini na entrevista, à pergunta da minha colega Letícia Gonçalves: questionado se o PL e, especificamente, Magno Malta terão influência em seu eventual governo (como tiveram na composição de sua chapa), ocupando e indicando ocupantes de secretarias de Estado, o candidato do Republicanos abriu o leque: disse que, uma vez eleito, vai querer governar com todos – o que inclui os demais, mas não exclui o PL...


Ou seja, também vai governar com o PL, mas não somente com a sigla de Magno.

“Vamos convidar todos os partidos para o projeto de um novo Espírito Santo.”


Foi um jeito de se mostrar democrático e dialógico, sem admitir necessariamente qualquer compromisso com Magno, mas, ao mesmo tempo, sem excluir possível participação do PL e até eventuais indicações do senador em seu governo, caso triunfe nas urnas.


É o “custo Magno”. Aí haja “moderação” para moderar o apetite do senador, ou “contenção” para contê-lo...

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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