Do ponto de vista político, a sabatina de A Gazeta e CBN com
Ricardo Ferraço (MDB) serviu para termos certeza absoluta de qual é a estratégia
do governador para esta campanha, a qual ele parece disposto a manter até o
fim: nem sob tortura, Ricardo assumirá lado na eleição presidencial. Fará de tudo
para não nacionalizar a disputa estadual. Buscará trafegar pelo centro, como candidato
equilibrado e moderado, que dialoga com todos, governará com qualquer
presidente e só está preocupado com as questões afetas ao cotidiano dos
capixabas.
Na sabatina, perguntei a Ricardo: “Afinal, candidato, qual é
sua posição? Como o senhor se define do ponto de vista ideológico? E, de uma
vez por todas: qual é seu lado na disputa presidencial?”
Ricardo respondeu assim, criticando seus “principais
adversários” (bem entendido: Pazolini e Helder) por quererem, segundo ele,
fazer o que ele mesmo não quer:
“Eu sou e vou continuar sendo 100% Espírito Santo. Os meus
principais adversários querem submeter o estado do Espírito Santo à polarização
ideológica. Nós achamos que submeter o Espírito Santo à polarização ideológica
é como você colocar em segundo plano o interesse maior do dia a dia dos
capixabas. Por isso, eu sou 100% do Espírito Santo e eu tenho afirmado que nós
vamos governar o estado do Espírito Santo — já estamos fazendo e queremos
continuar governando — fora do extremismo, seja ele de direita, seja ele de
esquerda”.
O governador prosseguiu:
“Estou preparado para governar o estado do Espírito Santo
com quem os capixabas e os brasileiros decidirem que deva ser o presidente da
República. Porque não é papel de governador, a meu juízo, fazer oposição a quem
quer que seja”.
Segundo Ricardo, os cidadãos capixabas não estão preocupados
em saber quem ele apoia para presidente da República e sim com questões que os
afetam diretamente no dia a dia.
“Quando eu ando pelas ruas e converso com as pessoas, elas
me perguntam muito mais do que onde eu vou votar. Elas me perguntam como é que
eu vou fazer para a educação capixaba continuar evoluindo, como é que nós vamos
fazer para continuar reduzindo o crime e a criminalidade, como é que nós vamos
ampliar a nossa atenção primária, a nossa saúde preventiva, quando é que eu vou
inaugurar o Hospital Geral de Cariacica com nova maternidade, quando é que nós
vamos concluir o complexo de saúde de São Mateus...”
Ricardo disse não querer erguer muralhas, mas pontes.
“Nessa trajetória de sucesso que o Espírito Santo construiu,
nós nunca vimos o Estado submetido a essa brigalhada ideológica. Porque, quando
você se submete e vai para o extremo, você está construindo muralhas. E nós
queremos construir, como governador, pontes que possam nos conectar.”
Como se nota, ao mesmo tempo em que diz não querer construir
muralhas, Ricardo ergueu um muro para se manter em cima, e de cima desse muro
não pretende sair.
Perguntamos, então, ao governador, se essa opção pela neutralidade
não pode lhe custar votos numa eleição nacional tão polarizada. Isso
considerando que ele tem, de um lado, um adversário que é o candidato de Lula e
do PT (Helder), e, do outro, o oponente que está sendo apoiado por Flávio
Bolsonaro e o PL (Pazolini).
“Vitor, você me pergunta se o meu lado é o lado A ou o lado B. Eu não estou nem do lado do A nem do B. Estou do lado do Espírito Santo. Eu quero ser governador do Espírito Santo para poder continuar priorizando o interesse da população capixaba. Eu não acredito nesses extremismos. Eu acho que esses extremismos não vão nos levar a lugar algum. Por isso é que há uma diferença fundamental do projeto que eu lidero para os projetos dos meus adversários, porque eles estão muito mais preocupados com as suas ideologias. E o meu lado é o lado do Espírito Santo. O meu lado é o interesse real do dia a dia do povo capixaba. Por isso eu sou 100% capixaba e estou do lado daqueles que querem construir pontes, e não muralhas para isolar o Espírito Santo.”
Estratégia faz
sentido? Faz!
Reconheço que tal estratégia, ao menos neste ponto da
corrida, faz sentido para Ricardo Ferraço, uma vez que, se a eleição fosse
hoje, ele iria para o segundo turno com Lorenzo Pazolini. Com o apoio do PL, de
Magno Malta e de Flávio Bolsonaro, o ex-prefeito de Vitória passou a ser o
representante do bolsonarismo na corrida ao Palácio Anchieta.
Ciente disso, Ricardo pode se limitar a fazer acenos para
esse segmento (numericamente expressivo) do eleitorado capixaba, mas sem mergulhar
de cabeça. Pode molhar os pés ou entrar até a cintura. Mas não precisa se jogar
no bolsonarismo visando atrair eleitores bolsonaristas.
Até porque, se Ricardo se declarar apoiador de Flávio
Bolsonaro ou fizer algum aceno mais forte aos eleitores desse campo, ele corre
o risco de desagradar e perder os votos dos lulistas, que são também muito
numerosos e já estão indo com ele por gravidade, no exercício do chamado “voto
útil”, para derrotar Pazolini no 2º turno.
Por pragmatismo e eliminação, esses eleitores são virtuais votantes
de Ricardo no 2º turno – e poderão ser já no 1º, se pesquisas de véspera
indicarem chance matemática de vitória dele no dia 4 de outubro.
Ricardo não pode se dar ao luxo de perder esses votos. Não
pode se arriscar a gerar entre lulopetistas uma antipatia ainda maior do que já
desperta no meio desse monte de eleitores que com certeza votarão nele no 2º turno,
engolindo em seco, simplesmente porque hão de querer derrotar o candidato de Flávio
Bolsonaro.
A última Quaest para a Rede Gazeta confirma a linha de raciocínio
exposta acima. Ricardo hoje é derrotado por Pazolini entre os eleitores
declaradamente bolsonaristas: 51% para o ex-prefeito contra 27% para ele.
Mas, na estratificação dos 804 entrevistados por “identificação
política”, Ricardo se mostra competitivo na segunda faixa (“direita não bolsonarista”)
e domina as outras três (precisamente, do centro para a esquerda).
Entre os eleitores de direita não bolsonarista, Pazolini
leva por 15 pontos: 42% a 27%.
Entre os independentes, Ricardo vence Pazolini por 18 pontos:
39% a 21%.
Entre eleitores de esquerda não lulista, Ricardo derrota
Pazolini por 30 pontos: 41% a 11%. O governador supera até Helder (27%).
Entre os lulistas declarados, Ricardo ganha de Pazolini por
29 pontos: 41% a 12%. O governador também ganha de Helder (32%).
Isso no cenário estimulado de 1º turno.
Significa que, entre os eleitores de esquerda (lulistas e de
esquerda não lulista), hoje, Ricardo sobra em relação a Pazolini. E, se a
eleição fosse hoje, mesmo entre lulistas declarados, teria mais votos até que
Helder Salomão, o candidato do PT e “do time do Lula” no Espírito Santo.
Possivelmente, já é o “voto útil” (ou a “intenção de voto
útil”) começando a se manifestar.
Em possível 2º turno contra Pazolini, aqueles eleitores de
esquerda que já declaram voto nele tenderão a manter isso. Já os que preferem
ir com Helder tenderão a migrar naturalmente para o governador, “por osmose”.
A história de Ricardo Ferraço o situa da centro-direita para
a direita (não extrema-direita). De todo modo, mais próximo de um Flávio
Bolsonaro que de um Lula. Mas tomar partido, neste caso, parece mesmo não só dispensável
como pouco inteligente.
Mesmo que tenha suas preferências e convicções pessoais, Ricardo
não tem por que exteriorizá-las – ao menos não a esta altura do processo.
Vamos ver como isso evoluirá no 2º turno e se a estratégia
será ou não mantida, dependendo dos resultados da eleição presidencial no
Espírito Santo e do grau de influência que esta jogará num possível 2º turno concorrente
com o estadual.
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