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Vitor Vogas

Surpresa: Ricardo não é o candidato de Lula... mas hoje é o dos lulistas, diz Quaest

Neste ponto da corrida ao Palácio Anchieta, o atual governador é quem alcança os melhores índices de intenção de voto entre eleitores que se declaram independentes e entre os de esquerda (incluindo os lulistas)

Publicado em 30 de Agosto de 2026 às 05:00

Públicado em 

30 ago 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
De um lado, Ricardo Ferraço; do outro, Lula com Helder
De um lado, Ricardo Ferraço; do outro, Lula com Helder Fotomontagem (Reprodução do Facebook e assessoria de Helder Salomão)

O governador Ricardo Ferraço (MDB) não tem histórico de proximidade com o PT. Como senador, votou a favor do impeachment de Dilma em 2016 e, no ano seguinte, relatou a reforma trabalhista que contrariou partidos de esquerda. Como governador, não fez questão alguma de ter o PT em seu governo (como tinha Renato Casagrande). O próprio PT, aliás, por mútua rejeição, antecipou-se, entregando os cargos nos primeiros escalões antes que Ricardo tomasse posse.


Para completar, quando Lula esteve em solo capixaba, no fim de maio, Ricardo limitou-se a ir ter com o presidente no Aeroporto de Vitória, numa recepção fria e institucional. Nem sequer foi tirada uma foto desse brevíssimo encontro, em mensagem inequívoca: nada de associação com Lula.


Apesar de tudo isso, vocês podem acreditar: neste momento, Ricardo é o candidato a governador preferido pelos eleitores que se declaram “lulistas” no Espírito Santo. É o que revela, de maneira surpreendente, a mais recente pesquisa da Quaest para a Rede Gazeta, divulgada na última quinta-feira (27).


Entre os lulistas declarados, Ricardo alcança 41% das intenções estimuladas de voto. Nessa parcela do eleitorado, ele supera até o deputado federal Helder Salomão – este, sim, o candidato do PT e do Lula. O petista obtém 32% das intenções de voto entre os que assim se declaram. Lorenzo Pazolini (Rep) só registra 12%.

A conclusão é uma só: Ricardo não é o candidato do Lula, muito menos o do “time do Lula”. Mas é, a preço de hoje, o candidato a governador dos lulistas no Espírito Santo.

Entre lulistas, hoje, Ricardo derrotaria Helder até em eventual confronto direto no 2º turno.

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Identificação política

Para esse levantamento sobre a eleição estadual, a Quaest ouviu 804 eleitores do Espírito Santo. As entrevistas foram realizadas entre o último domingo (23) e quarta-feira (26). No resultado geral, Ricardo Ferraço lidera a corrida, com 35% das intenções de voto na estimulada. Pazolini está em segundo, com 28%. Helder tem 10%.


Mas a Quaest também estratificou os resultados segundo o critério de “identificação política”.

Por incrível que pareça, Ricardo atinge seus melhores resultados, digamos, do centro para a esquerda da tabela.


Entre eleitores que se declaram independentes, o governador tem 39% das intenções de voto, contra 21% de Pazolini e 6% de Helder.


Mas os picos de Ricardo, na verdade, e suas maiores vantagens com relação a Pazolini, se dão entre os eleitores que se declaram “de esquerda não lulista” (41% a 11%, 30 pontos de frente) e entre os que se declaram “lulistas” (41% a 12%, 29 pontos de vantagem).


Pazolini, por sua vez, alcança seu melhor resultado entre os “bolsonaristas” declarados: 51% para ele contra 27% de Ricardo. São 24 pontos de distância.


Junto aos eleitores “de direita não bolsonarista”, Pazolini também leva vantagem, embora não tão ampla: 42% para ele contra 27% de Ricardo (15 pontos de diferença).


Helder, por seu turno, como era de se esperar, obtém seu melhor desempenho entre lulistas declarados. Nesse nicho, o candidato do PT (e do próprio Lula) chega a 32% das menções.


Mas vale a pena reiterar: mesmo entre lulistas declarados, Helder não é o candidato mais citado. Quem atinge a melhor marca nesse estrato, com 41%, é Ricardo Ferraço (nove pontos a mais que Helder). Em outras palavras, Ricardo é (quem diria?), neste momento, o candidato a governador preferido pelos eleitores que se declaram lulistas.


Junto aos “de esquerda não lulista”, observa-se fenômeno similar, mas com vantagem ainda maior para o atual governador: Ricardo tem 41%, ante 27% de Helder.


Significa que o atual governador é, neste ponto da corrida, o preferido pelos eleitores de esquerda do Espírito Santo (além dos independentes). 

Segundo turno entre Ricardo e Pazolini

Na simulação de 2º turno entre Ricardo e Pazolini, o contraste no quesito “identificação política” também se faz notar profundamente.


Entre lulistas, vitória ampla para Ricardo: 56% a 25% (31 pontos).


Entre os “de esquerda não lulista”, a maior vantagem a favor de Ricardo: 61% a 18% (43 pontos, um “massacre”).


Entre os independentes, Ricardo também vence Pazolini com folga: 49% a 27% (22 pontos).

Mas, quando passamos ao lado direito do espectro ideológico, a situação se inverte.


Entre os eleitores “de direita não bolsonarista”, Pazolini derrota Ricardo com tranquilidade: 50% a 33% (17 pontos).


Entre os bolsonaristas, a maior vantagem a favor do ex-prefeito de Vitória: 55% a 33% (22 pontos). 

As dificuldades de Helder

Outro dado da última Quaest realça a dificuldade de Helder nesta primeira quinzena da campanha. Em eventual 2º turno contra Ricardo Ferraço, ele hoje teria só 17% dos votos, contra 55% do governador.


Entre os eleitores de esquerda não lulista, Ricardo (43%) e Helder (41%) têm empate técnico.

Já entre os eleitores lulistas, pasmem, a vantagem de Ricardo seria de 10 pontos: 48% para o governador, contra 38% para o candidato do próprio PT.

A campanha ainda tem muito chão pela frente. Na TV e no rádio, por exemplo, só começou na última sexta-feira (28). Mas Helder Salomão precisa urgentemente se tornar mais conhecido (e mais votado) inclusive dentro do seu “território”: os eleitores lulistas e os de esquerda em geral.


A mesma pesquisa Quaest revela que, entre os três candidatos mais competitivos, Helder é, com sobras, o menos conhecido: 51% responderam que não o conhecem, enquanto 36% disseram não conhecer Pazolini e 24%, Ricardo.


Aparentemente, mesmo grande parte do eleitorado lulista (e petista) ainda ignora uma obviedade: no Espírito Santo, o candidato de Lula é o candidato do PT.


Não por outro motivo, Helder parece determinado a fazer essa informação chegar o quanto antes, da maneira mais direta, a seu potencial eleitorado: está investindo maciçamente em uma estratégia de campanha casada à de Lula, colando sua imagem à do presidente.


Desde sexta-feira, em sua estreia na propaganda eleitoral de rádio e TV, tem exibido a declaração do próprio Lula ao lado dele, na qual o presidente diz o seguinte:


“Quero pedir o seu voto para meu amigo, companheiro Helder Salomão, meu candidato a governador do Espírito Santo, para que ele possa construir uma nova história”.


Em seu programa de estreia, Helder se apresentou assim ao público, sem rodeios:


“Eu sou Helder Salomão, candidato a governador do Lula no Espírito Santo.”


Por ora, isso não se traduz em números.

Como isso influencia a campanha de Ricardo?

Tais conclusões dão muito o que pensar a Ricardo e a seu time, considerando um possível 2º turno entre ele e Pazolini. Do ponto de vista estratégico, é possível que ele não precise fazer grandes acenos ao eleitorado de esquerda e que possa até se permitir “dispensar” eventual apoio formal do PT para derrotar o ex-prefeito de Vitória.


Hoje, nessas fatias do eleitorado, o atual governador já alcança resultados bem superiores aos de Pazolini. Aparentemente, até por eliminação, a maior parte desses votos da esquerda tenderão a ficar com ele ou migrar para ele, por gravidade, já que Pazolini é um candidato conservador apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que apoia o filho de Bolsonaro para a Presidência da República, contra Lula.


O ex-prefeito tornou-se o candidato dos bolsonaristas e do bolsonarismo no Espírito Santo. Assim, os eleitores que não se identificam com nada disso podem ir com Ricardo “naturalmente”, sem que este precise fazer esforço algum, com o objetivo de evitar a chegada do candidato de Flávio Bolsonaro ao Palácio Anchieta. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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