O governador Ricardo Ferraço (MDB) não tem histórico de proximidade
com o PT. Como senador, votou a favor do impeachment de Dilma em 2016 e, no ano
seguinte, relatou a reforma trabalhista que contrariou partidos de esquerda.
Como governador, não fez questão alguma de ter o PT em seu governo (como tinha
Renato Casagrande). O próprio PT, aliás, por mútua rejeição, antecipou-se,
entregando os cargos nos primeiros escalões antes que Ricardo tomasse posse.
Para completar, quando Lula esteve em solo capixaba, no fim
de maio, Ricardo limitou-se a ir ter com o presidente no Aeroporto de Vitória,
numa recepção fria e institucional. Nem sequer foi tirada uma foto desse
brevíssimo encontro, em mensagem inequívoca: nada de associação com Lula.
Apesar de tudo isso, vocês podem acreditar: neste momento, Ricardo
é o candidato a governador preferido pelos eleitores que se declaram “lulistas”
no Espírito Santo. É o que revela, de maneira surpreendente, a mais recente pesquisa da Quaest para a
Rede Gazeta, divulgada na última quinta-feira (27).
Entre os lulistas declarados, Ricardo alcança 41% das intenções estimuladas de voto. Nessa
parcela do eleitorado, ele supera até o deputado federal Helder Salomão – este,
sim, o candidato do PT e do Lula. O petista obtém 32% das intenções de voto entre os que assim se declaram. Lorenzo
Pazolini (Rep) só registra 12%.
A conclusão é uma só: Ricardo não é o candidato do Lula,
muito menos o do “time do Lula”. Mas é, a preço de hoje, o candidato a
governador dos lulistas no Espírito Santo.
Entre lulistas, hoje, Ricardo
derrotaria Helder até em eventual confronto direto no 2º turno.
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Identificação
política
Para esse levantamento sobre a eleição estadual, a Quaest
ouviu 804 eleitores do Espírito Santo. As entrevistas foram realizadas entre o
último domingo (23) e quarta-feira (26). No resultado geral, Ricardo Ferraço
lidera a corrida, com 35% das
intenções de voto na estimulada. Pazolini está em segundo, com 28%. Helder tem 10%.
Mas a Quaest também estratificou os resultados segundo o
critério de “identificação política”.
Por incrível que pareça, Ricardo atinge seus melhores resultados, digamos, do centro para a
esquerda da tabela.
Entre eleitores que se declaram independentes, o governador tem 39% das intenções de voto, contra 21% de Pazolini e 6% de
Helder.
Mas os picos de Ricardo, na verdade, e suas maiores
vantagens com relação a Pazolini, se dão entre os eleitores que se declaram “de esquerda não lulista” (41% a 11%, 30 pontos de frente) e entre
os que se declaram “lulistas” (41% a 12%, 29 pontos de vantagem).
Pazolini, por sua vez, alcança seu melhor resultado entre os
“bolsonaristas” declarados: 51% para ele contra 27% de Ricardo. São 24 pontos de
distância.
Junto aos eleitores “de
direita não bolsonarista”, Pazolini também leva vantagem, embora não tão
ampla: 42% para ele contra 27% de Ricardo (15 pontos de
diferença).
Helder, por seu turno, como era de se esperar, obtém seu
melhor desempenho entre lulistas declarados. Nesse nicho, o candidato do PT (e
do próprio Lula) chega a 32% das
menções.
Mas vale a pena reiterar: mesmo entre lulistas declarados,
Helder não é o candidato mais citado. Quem atinge a melhor marca nesse estrato,
com 41%, é Ricardo Ferraço (nove
pontos a mais que Helder). Em outras palavras, Ricardo é (quem diria?), neste momento,
o candidato a governador preferido pelos eleitores que se declaram lulistas.
Junto aos “de esquerda
não lulista”, observa-se fenômeno similar, mas com vantagem ainda maior
para o atual governador: Ricardo tem 41%,
ante 27% de Helder.
Significa que o atual
governador é, neste ponto da corrida, o preferido pelos eleitores de esquerda
do Espírito Santo (além dos independentes).
Segundo turno entre
Ricardo e Pazolini
Na simulação de 2º turno entre Ricardo e Pazolini, o
contraste no quesito “identificação política” também se faz notar
profundamente.
Entre lulistas,
vitória ampla para Ricardo: 56% a 25%
(31 pontos).
Entre os “de esquerda
não lulista”, a maior vantagem a favor de Ricardo: 61% a 18% (43 pontos, um “massacre”).
Entre os independentes,
Ricardo também vence Pazolini com folga: 49%
a 27% (22 pontos).
Mas, quando passamos ao lado direito do espectro ideológico,
a situação se inverte.
Entre os eleitores “de
direita não bolsonarista”, Pazolini derrota Ricardo com tranquilidade: 50% a 33% (17 pontos).
Entre os bolsonaristas,
a maior vantagem a favor do ex-prefeito de Vitória: 55% a 33% (22 pontos).
As dificuldades de
Helder
Outro dado da última Quaest realça a dificuldade de Helder
nesta primeira quinzena da campanha. Em eventual 2º turno contra Ricardo
Ferraço, ele hoje teria só 17% dos
votos, contra 55% do governador.
Entre os eleitores de
esquerda não lulista, Ricardo (43%)
e Helder (41%) têm empate técnico.
Já entre os eleitores lulistas, pasmem, a vantagem de Ricardo seria de 10 pontos: 48% para o governador, contra 38% para o candidato do próprio PT.
A campanha ainda tem muito chão pela frente. Na TV e no rádio, por exemplo, só começou na última sexta-feira (28). Mas Helder Salomão precisa urgentemente se tornar mais conhecido (e mais votado) inclusive dentro do seu “território”: os eleitores lulistas e os de esquerda em geral.
A mesma pesquisa Quaest revela que, entre os três candidatos mais competitivos, Helder é, com sobras, o menos conhecido: 51% responderam que não o conhecem, enquanto 36% disseram não conhecer Pazolini e 24%, Ricardo.
Aparentemente, mesmo grande parte do eleitorado lulista (e petista) ainda ignora uma obviedade: no Espírito Santo, o candidato de Lula é o candidato do PT.
Não por outro motivo, Helder parece determinado a fazer essa informação chegar o quanto antes, da maneira mais direta, a seu potencial eleitorado: está investindo maciçamente em uma estratégia de campanha casada à de Lula, colando sua imagem à do presidente.
Desde sexta-feira, em sua estreia na propaganda eleitoral de rádio e TV, tem exibido a declaração do próprio Lula ao lado dele, na qual o presidente diz o seguinte:
“Quero pedir o seu voto para meu amigo, companheiro Helder Salomão, meu candidato a governador do Espírito Santo, para que ele possa construir uma nova história”.
Em seu programa de estreia, Helder se apresentou assim ao público, sem rodeios:
“Eu sou Helder Salomão, candidato a governador do Lula no Espírito Santo.”
Por ora, isso não se traduz em números.
Tais conclusões dão muito o que pensar a Ricardo e a seu
time, considerando um possível 2º turno entre ele e Pazolini. Do ponto de vista
estratégico, é possível que ele não precise fazer grandes acenos ao eleitorado
de esquerda e que possa até se permitir “dispensar” eventual apoio formal do PT
para derrotar o ex-prefeito de Vitória.
Hoje, nessas fatias do eleitorado, o atual governador já
alcança resultados bem superiores aos de Pazolini. Aparentemente, até por
eliminação, a maior parte desses votos da esquerda tenderão a ficar com ele ou
migrar para ele, por gravidade, já que Pazolini é um candidato conservador
apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que apoia o filho de
Bolsonaro para a Presidência da República, contra Lula.
O ex-prefeito tornou-se o candidato dos bolsonaristas e do
bolsonarismo no Espírito Santo. Assim, os eleitores que não se identificam com
nada disso podem ir com Ricardo “naturalmente”, sem que este precise fazer
esforço algum, com o objetivo de evitar a chegada do candidato de Flávio Bolsonaro
ao Palácio Anchieta.
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