Precisamos construir um Brasil onde o empresário tenha medo de NÃO investir, e não de investir. O Movimento Brasil Competitivo (MBC) e a revista Exame realizaram em São Paulo, na semana passada, um grande evento nacional reunindo representantes da indústria, do varejo e da infraestrutura, para debater a competitividade e o futuro do país.
Participaram também economistas e coordenadores de campanhas dos principais candidatos à Presidência da República. Como vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), fui convidado a participar do painel central, intitulado “Competitividade na prática: a visão dos empresários”.
Em minha apresentação, destaquei três grandes frentes em que devemos atuar com urgência. São elas: enfrentar os chamados macropreços, especialmente juros e câmbio; estabelecer uma política industrial de Estado, e não de governo, e atacar o Custo Brasil. Temos falado sobre esses temas neste espaço e levamos as nossas ideias para o debate nacional.
O Movimento Brasil Competitivo é uma organização privada e suprapartidária que atua como um elo entre o setor público e o setor privado, para formular políticas que aumentem a produtividade e a competitividade da economia brasileira. É o MBC, por exemplo, que calcula o Custo Brasil, uma conta que já está em R$ 1,7 trilhão. Como sabemos, isso é o que pagamos a mais pelas nossas dificuldades estruturais, incluindo burocracia, tributos, infraestrutura e capital humano, minando a nossa competitividade global.
A taxa de juros nas alturas está matando a economia brasileira, como mostram os dados sobre recuperação judicial e endividamento das famílias. Quase todo dia uma grande empresa anuncia recuperação. Com essa remuneração do sistema financeiro, o investidor deixará o dinheiro no banco ou arriscará no setor produtivo? Observei no debate que o empresário brasileiro deveria ter mais medo de não investir, deixando o dinheiro parado, do que de investir e ficar para trás no mercado.
A indústria, por estar diretamente exposta à competição internacional, sofre de maneira mais intensa com as condições brasileiras. Hoje o ambiente econômico desestimula o capital produtivo e favorece o rentismo.
O problema obviamente não é apenas das empresas. Os juros elevados também atingem o consumidor, restringem o crédito e dificultam a aquisição de bens duráveis. A consequência é uma economia que anda de lado há anos. Economistas já falam em crescimento de apenas 1% a 1,5% no ano que vem, ou seja, estagnação.
Pensando no crescimento sustentado, deve ser prioridade estabelecer uma política industrial de Estado, e não de governo. O Brasil conseguiu fazer isso muito bem com o agronegócio, construindo ao longo de mais de duas décadas uma política de desenvolvimento que atravessou governos e foi sendo aperfeiçoada. Hoje o setor tem competitividade global.
Precisamos ter essa mesma visão estratégica para a indústria, como aliás estão fazendo as principais economias do mundo, que voltaram a tratar a política industrial como instrumento estratégico. Estados Unidos, Europa, Coreia do Sul e Japão estão todos apoiando setores considerados estratégicos, com pacotes bilionários.
Outra frente que devemos enfrentar é o conhecido Custo Brasil. É importante deixar claro que não estamos falando aqui de uma pauta corporativa do empresariado. O Custo Brasil é um problema de toda a sociedade.
As ineficiências acumuladas em nossa estrutura tributária, regulatória, trabalhista, jurídica e de infraestrutura tornam mais caro produzir no país e, no fim da cadeia, esse custo chega ao consumidor. A existência desse custo faz com que tudo que é produzido aqui fique em torno de 20% mais caro. Reduzir o Custo Brasil significa, portanto, aumentar a competitividade das empresas, mas também ampliar o poder de compra dos brasileiros.
Um dos destaques do debate foi a constatação de que não haverá aumento sustentável de produtividade se o próprio Estado continuar funcionando de maneira lenta, burocrática e pouco eficiente. Digitalização dos serviços públicos, reorganização da estrutura administrativa, revisão de marcos regulatórios e redução da burocracia são uma agenda que dialoga diretamente com o desafio de reduzir o Custo Brasil.
A tecnologia também terá um papel decisivo nessa transformação. A inteligência artificial já está mudando a forma como empresas produzem, tomam decisões e se relacionam com seus clientes. Precisamos fazer o mesmo com o Estado.
O debate em São Paulo resultou num diagnóstico convergente: o Brasil tem ativos importantes, mas não consegue transformá-los em crescimento sustentado na velocidade necessária. O problema brasileiro não é falta de diagnósticos ou de propostas: é a dificuldade de transformar esses diagnósticos conhecidos em decisões, reformas e resultados concretos. Sabemos o que precisa ser feito, falta fazer!