O Espírito Santo vive um momento de forte movimento empreendedor. Somente nos três primeiros meses de 2026, mais de 8 mil novos negócios foram registrados na Junta Comercial do Estado, sem considerar os Microempreendedores Individuais (MEIs). Em março, foram 3.070 novas empresas, um recorde. Só em Cachoeiro de Itapemirim, 135 negócios foram constituídos naquele mês.
Os números mostram a disposição do capixaba para empreender. Mas abrir uma empresa nunca foi garantia de construir um negócio saudável. Na prática, encontramos empresários que vendem bem, mas não sabem quanto realmente lucram.
Empresas com boa movimentação financeira que chegam ao fim do mês sem dinheiro em caixa. Empreendedores que misturam as finanças pessoais com as empresariais, formam preços olhando apenas para a concorrência e fazem retiradas sem planejamento.
Em muitos casos, não falta venda. Falta estrutura. É por isso que a contabilidade não pode ser vista apenas como responsável por calcular impostos e cumprir obrigações. Ela também precisa ajudar o empreendedor a entender o próprio negócio. Costumo dizer que “não existe CNPJ forte com CPF fraco”. Não estou falando de patrimônio pessoal, mas da preparação de quem está por trás da empresa.
Muitos negócios nascem de uma habilidade. Quem cozinha bem abre um negócio de alimentação. Quem vende bem monta uma loja. Quem domina um serviço decide empreender.
O problema é que conhecer o produto não significa necessariamente saber administrar uma empresa. É preciso aprender sobre preço, custos, fluxo de caixa, estoque, capital de giro, pró-labore e planejamento. E, principalmente, compreender que faturamento não é lucro e vender mais nem sempre significa ganhar mais.
Esse aprendizado se torna ainda mais importante à medida que a empresa cresce. O aumento do faturamento traz também novas responsabilidades, custos e decisões. Sem organização, aquilo que deveria representar crescimento pode acabar expondo problemas que antes passavam despercebidos. Por isso, acompanhar indicadores e conhecer a realidade financeira da empresa não deve ser uma preocupação apenas dos grandes negócios.
Essa discussão é especialmente importante no Espírito Santo, onde os pequenos negócios têm enorme participação na economia. Empreender transforma uma pessoa, muitas vezes de uma hora para outra, em gestora, compradora, vendedora, líder e responsável pelas decisões financeiras.
E essa transformação exige preparo. O empreendedor precisa deixar de olhar apenas para o movimento diário do caixa e começar a enxergar o negócio também no médio e no longo prazo. Saber quanto precisa vender, quanto pode investir, quando é possível contratar e quais despesas precisam ser revistas são decisões que não deveriam ser tomadas apenas pela intuição.
Outro desafio é fazer a empresa deixar de depender exclusivamente do dono. Se ele precisa vender, comprar, cobrar, responder clientes e tomar sozinho todas as decisões, talvez tenha criado para si um emprego extremamente pesado, e não uma empresa preparada para crescer.
Estruturar significa criar processos, organizar responsabilidades, acompanhar números e permitir que o negócio funcione para além da presença constante do proprietário. Quero continuar vendo o Espírito Santo bater recordes de abertura de empresas. Mas, mais importante do que celebrar quantas nascem, precisamos discutir quantas conseguem permanecer, crescer e gerar empregos e renda nos municípios capixabas.
Empreender exige coragem. Permanecer exige gestão. O CNPJ pode ser aberto rapidamente. Uma empresa sólida, não. Ela é construída todos os dias, com conhecimento, controle, processos e estratégia.
Porque, antes de estruturarmos uma empresa, muitas vezes precisamos preparar quem está por trás dela.
Não existe CNPJ forte com CPF fraco.