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Crítica

"Utopia", da Amazon, é a série errada no momento muito errado

Com texto da ótima Gillian Flynn, "Utopia" foi lançada pelo Amazon Prime Video e cria fantasia conspiracionista com uma pandemia, um vírus mortal e a possível vacina

Publicado em 30 de Outubro de 2020 às 18:07

Públicado em 

30 out 2020 às 18:07
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "Utopia", do Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
Na maior parte do mundo, a série “Utopia” foi lançada pelo Amazon Prime Video em 25 de setembro. Em um movimento estranho, a série não chegou à plataforma no Brasil na mesma data. Não houve explicação nenhuma, mas é bem provável que a Amazon tenha pensando estrategicamente em não lançá-la por aqui com a pandemia da Covid-19 ainda no centro de noticiários e preocupações. Pouco mais de um mês depois da data prevista, a série chega à plataforma, mas o momento continua sendo um equívoco. Explico.
“Utopia” acompanha um grupo de jovens e adultos obcecados pela rara história em quadrinho que dá título à série. Considerada uma lenda urbana e de autor desconhecido, a continuação de “Distopia” é encontrada e as peças do tabuleiro começam a se movimentar. As obras antecipam as grandes tragédias da humanidade e teriam antecipado o surto de Ebola na África, de Sars na Ásia e uma pandemia vindoura… Uma gripe mortal que começa a se espalhar pelos EUA e a revista pode conter a cura dessa doença e a solução para outros males - ficar com “Utopia” não será nada fácil.
O texto da ótima Gillian Flynn (“Garota Exemplar”, “Sharp Objects”) adapta uma série homônima lançada no Reino Unido em 2013 e que também tratava de uma pandemia, mas eram outros tempos. Mesmo que a nova série tome rumos completamente diferentes,com mais de um milhão de mortos em virtude de uma pandemia ao redor do mundo, a nova “Utopia” é um equívoco, o que é quase lamentável, pois a série não é de toda ruim.
A série acompanha, a princípio, tramas paralelas; a primeira, e mais central, é a do grupo de amigos virtuais que se encontra pela primeira vez em uma feira estilo comic-con para tentar comprar a recém-descoberta revista, objeto de um leilão realizado pelas pessoas que a encontraram. Logo no primeiro episódio já percebemos que se trata de uma série com violência gráfica e narrativa similar às das histórias em quadrinhos, algo não muito diferente de filmes como “Kick-Ass” ou “Kingsman”.
Série
John Cusack vive um gênio da indústria farmacêutica na série "Utopia", do Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
A narrativa vai gradualmente apresentando a audiência a dois outros personagens, o esquisitão gênio da indústria farmacêutica Kevin Christie (John Cusack) e o médico epidemiologista Michael Stearns (Rainn Wilson, o Dwight de “The Office”), que já enfrentou uma doença parecida no Peru e encontrou a vacina para ela. As três histórias obviamente se cruzam, mesmo que demore um pouco, mas tudo passa a fazer algum sentido em determinado momento da série.
“Utopia” faz algumas escolhas interessantes que causam uma sensação de anarquia no espectador, tudo pode acontecer, ninguém está a salvo e nada é o que parece na trama. Em contrapartida, os personagens da série pouco parecem se importar com as mortes que os cercam, e é isso que traz de volta o questionamento acerca do timing de lançamento - personagens de “Utopia” conseguem rir e se divertir mesmo que pessoas próximas tenham acabado de morrer; as mortes não têm peso ou consequências maiores e a tortura é totalmente permitida.
Série
Rainn Wilson é um médico com experiência no vírus causador da pandemia de "Utopia" Crédito: Amazon/Divulgação
A narrativa, que a princípio parece colocar ciência e fantasia de lados opostos, logo mistura tudo de maneira perigosa. Me permitindo aqui um pequeno spoiler, o roteiro demoniza a indústria farmacêutica e uma possível vacina com segundos interesses - sim, a indústria farmacêutica é uma das vilãs preferidas de Hollywood, mas não é o momento para fomentar teorias da conspiração sobre elas, pois mesmo se tratando de uma obra de ficção, sempre há quem assista e saia dizendo que “tem um pouco de verdade”.
Quando não está ocupada alimentando terraplanistas e conspiracionistas, “Utopia” tem bons momentos que despertam o interesse de audiência para saber qual o limite daquela história. A série tem uma esquisitice que funciona a seu favor e faz lembrar obras como “Dirk Gently”, nas figuras dos agentes adormecidos, e “Dispatches from Elsewhere”, principalmente quando brinca com a cultura de startups e os empreendedores neoliberais com sua fé cega no capitalismo. Há também um bom arco sobre construção de narrativas em redes sociais e construção de uma identidade diferente, mas ele logo se extingue.
O roteiro de Gillian Flynn explica tudo, passo a passo, para que não reste nenhuma dúvida dos planos do vilão e de cada escolha feita por ele. O curioso, porém, é que o que o coloca frente a frente com os protagonistas é uma virada totalmente inesperada do texto - não faz muito sentido, mas proporciona bons momentos no ato final.
Resta saber como será a vida da série a longo prazo, pois o gancho deixado ao fim do oitavo episódio, o último da primeira temporada, é grande (e, parando para pensar, também não faz muito sentido…). Até o momento em que escrevo este texto, dia 30 de outubro, a Amazon não se pronunciou sobre uma possível segunda temporada. A recepção mundo afora não foi das melhores, com quase todas as críticas deixando de lado a qualidade da série ressaltando a pandemia, mas “Utopia” pode até ter futuro, basta olhar para fora da janela e entender o momento do mundo.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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