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Crítica

"O Gambito da Rainha", série sobre xadrez da Netflix, é ótima

Apesar do nome um tanto estranho para os não conhecedores do jogo de xadrez, "O Gambito da Rainha", da Netflix, é um ágil e profundo estudo de personagem

Publicado em 04 de Novembro de 2020 às 00:38

Públicado em 

04 nov 2020 às 00:38
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "O Gambito da Rainha", da Netflix Crédito: KEN WORONER/NETFLIX
“Eu não sabia que xadrez poderia ser tão emocionante”, diz uma personagem à protagonista de “O Gambito da Rainha”, minissérie da Netflix que vem pouco a pouco conquistando audiência após uma primeira semana bem morna - uma reação justificada, visto que a plataforma pouco trabalhou em cima da atração, que carrega um nome pouco atrativo e tem seus momentos de grande tensão em… partidas de xadrez.
Escrita e dirigida por Scott Frank, a série acompanha a jovem Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy) desde os nove anos, quando se torna órfã. No rígido orfanato, aprende a jogar xadrez com o zelador vivido por Bill Camp e o jogo se torna uma obsessão, uma válvula de escape para Beth.
A série tem início com o sempre funcional (mas não muito inovador) recurso de nos colocar em um ponto futuro, já mostrando ao espectador que, garantidamente, Beth terá uma bem-sucedida carreira no xadrez, mas tudo bem, é essa a premissa de “O Gambito da Rainha”, acompanhar a trajetória de uma jovem enxadrista. O que logo em sequência nos surpreende é quão satisfatória será a jornada até aquele ponto.
O nome de Frank pode não chamar a atenção de imediato, mas o diretor e roteirista tem duas indicações ao Oscar (“Logan” e “Irresistível Paixão”) e já mostrou domínio da narrativa em formato seriado na ótima “Godless”, também na Netflix.
Série
Série "O Gambito da Rainha", da Netflix Crédito: KEN WORONER/NETFLIX
O talento do roteirista e cineasta para aproveitar o tempo da minissérie com paciência, mas sem nunca deixá-la chata, é o grande mérito de “O Gambito da Rainha”. O roteiro é esperto ao não transformar a protagonista em um fenômeno sem antes dar algumas dicas sobre suas capacidades intelectuais e até trazer um pouco do histórico de sua família.
E se você, assim como eu, considera xadrez algo distante, pode começar a considerar a possibilidade de querer entender mais do jogo ao final dos sete episódios de “O Gambito da Rainha”. Scott Frank entende a dinâmica de seu roteiro e sabe perfeitamente separar os momentos de sua contação de história - há partidas disputadas com tensão, movimento a movimento, mas há campeonatos inteiros disputados em uma ágil montagem, ou seja, a série sabe acelerar e frear nos momentos corretos, tudo para criar uma tensão no espectador ou relaxá-lo.
Tendo o rosto dos jogadores quase sempre como o centro das atenções durante os jogos, a série constrói suspense pelas expressões e pelos gestuais de cada um deles; sabemos, pelo olhar, exatamente o momento que Beth vai ganhar ou perder uma disputa. As partidas muitas vezes são narradas, às vezes com a protagonista falando sobre as partidas para alguém, às vezes com um narrador in loco - o recurso funciona bem das duas formas para ambientar os não conhecedores.
Série
Série "O Gambito da Rainha", da Netflix Crédito: KEN WORONER/NETFLIX
O total desconhecimento sobre xadrez não foi empecilho para que eu pudesse desfrutar a série, ela, afinal, é muito mais um estudo de personagem, uma protagonista sempre em transformação, do que uma série unicamente sobre xadrez. É interessante acompanhar essas transformações na maneira como ela encara o jogo, indo da arrogância adolescente à insegurança da vida adulta. Um outro acerto também é construir uma protagonista que por vezes parece no limite de sua sanidade, com a linha muito tênue separando sua genialidade de um transtorno mental, aspecto reforçado pelo abuso de substâncias.
Anya Taylor-Joy é um espetáculo e mostra mais uma vez porque é uma das grandes atrizes de sua geração. A atriz vive a protagonista da adolescência à vida adulta (Isla Johnston vive Beth na infância) e se sai bem tanto como uma adolescente desengonçada quanto como uma mulher linda e segura de suas capacidades como jogadora, com plena ciência de que pode massacrar seus adversários, mas ainda assim às voltas com dramas pessoais típicos da idade. A relação de Beth com a mãe adotiva, Alma (Marielle Heller), é complexa, com projeções distintas de pessoas que não sabem exatamente como ser mãe ou filha; funciona como a carga dramática da minissérie.
Série
Série "O Gambito da Rainha", da Netflix Crédito: KEN WORONER/NETFLIX
“O Gambito da Rainha” tem um grande acerto de não vilanizar os antagonistas de Beth nas diferentes fases de sua jornada. O roteiro encontra espaço para pequenos desenvolvimentos e humanização até do temido soviético Vasily Borgov (Marcin Dorocinski), maior enxadrista do mundo. Os soviéticos são construídos de maneira não caricata e até têm nuances interessantes - é curioso ver, por exemplo, as diferenças de estilo de jogo e a maneira como eles enxergam o xadrez, além da existência de um senso de camaradagem entre os soviéticos que inexiste nos americanos. A grande antagonista da trama, na verdade, é a própria Beth.
A série criada por Scott Frank é tão elegante quanto uma partida de xadrez, com ótimas fotografia, elenco, montagem e direção de câmera. “O Gambito da Rainha” é excelente, uma das grandes surpresas recentes da Netflix e uma prova de que o serviço tem guardado seus conteúdos mais “adultos” para o formato minissérie.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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