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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Bronx": policial francês na Netflix é violento e confuso

Filme "Bronx", da Netflix, tem elenco europeu de grandes nomes e acompanha um grupo de policiais anti-gangues no complexo submundo do crime em Marselha

Publicado em 02/11/2020 às 22h30
Filme
Filme "Bronx". Crédito: Mika Cotellon/Netflix

Marselha, na costa mediterrânea da França, é o maior porto comercial do país. O complexo portuário e o vasto litoral também tornam a cidade um dos hubs para distribuição de drogas na Europa, América do Norte, África e até Ásia, e onde há redes de distribuição de drogas há também diferentes grupos lutando pelo controle do lucrativo negócio e uma complexa rede de corrupção que envolve empresários, políticos, fiscais alfandegários, policiais, etc. Com uma grande presença de imigrantes de ex-colônias francesas e de territórios próximos como a Córsega, a região ainda é palco de conflitos de identidade, xenofobia e intolerância religiosa.

Não foi ao acaso que filmes com o clássico “Operação França” (1971), de William Friedkin, e o bom “A Conexão Francesa” (2014), de Cédric Jimenez, contam histórias que envolvem as tais redes de tráfico, violência e corrupção - isso sem falar da série da Netflix devidamente intitulada “Marselha”, que mergulha na política da região.

Marselha também serve de ambientação para “Bronx”, lançado pela Netflix na última semana. O filme dirigido por Olivier Marchal, um ex-policial convertido em cineasta de filmes policiais, explora a complicada ligação entre traficantes mafiosos, autoridades e policiais na região.

O filme acompanha uma unidade policial anti-crime organizado que nem sempre age dentro da lei, pois seus integrantes acreditam que para lidar com seus alvos, devem agir um pouco como eles. O filme tem início com uma morte impactante e depois utiliza o batido (e funcional) recurso narrativo de mostrar o que leva história àquele ponto crucial. Logo após a primeira cena, acompanhamos um violento ataque a uma festa em um clube frequentado por árabes. A polícia sai dali com um suspeito e a rede começa a se expandir.

“Bronx” (gíria francesa para uma situação complicada) de cara já mostra a que veio: é cru, violento e não poupa ninguém. Dito isso, o filme peca em não fazer bom uso de seus personagens - o primeiro ato é bagunçado, com diálogos que vão do significado do fim de “Anna Karenina”, de Liev Tolstói, a uma rede de relacionamentos conjugais difícil de acompanhar.

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Filme "Bronx". Crédito: Mika Cotellon/Netflix

Durante boa parte do tempo estamos juntos ao capitão Vronski (Lannick Gautry), líder e bússola moral da equipe de policiais. Vronski é charmoso e sempre disposto a se sacrificar para salvar um dos seus, o que o coloca em situações não muito agradáveis. A situação de sua equipe muda quando um novo chefe linha dura (Jean Reno) é designado para o comando da delegacia.

O roteiro coloca a equipe de Vronski no meio de uma guerra entre córsicos e árabes pelo domínio das rotas de droga na região, mas “Bronx” gasta mais tempo em suas tramas sobre corrupção e política do que com a ação em si - há alguns tiroteios, mas a violência é mais pontual. De certo modo, é uma pena, pois o filme conta com David Belle (“13º Distrito”), o cara que popularizou o parkour no mundo, mas seus talentos nunca são utilizados.

Marchal cria um ambiente de pouca esperança, em que não se pode confiar em ninguém, mas também um ambiente confuso, com muitos personagens e tramas distintas. O avanço policial nas investigações é quase atropelado, com novas descobertas a todo instante, o que acaba tirando o peso delas - daria para fazer uma temporada inteira de uma boa série policial com a trama da primeira metade de “Bronx”.

Quando finalmente chegamos ao momento da trama em que voltamos à cena inicial, seu peso é diminuído, pois o roteiro não nos fez importar com aquele personagem até aquele momento, pelo contrário, sua construção é bem problemática - sim, as referências de “Anna Karenina” estão ali, do arco de Will ao nome do protagonista, mas mostram ser apenas um preciosismo narrativo, um charme para quem conhece o clássico de Tolstói e um apêndice para quem não tiver a referência.

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Filme "Bronx". Crédito: Mika Cotellon/Netflix

Quando no final do segundo ato o filme finalmente encontra um rumo, “Bronx” se torna uma experiência interessante mesmo com suas falhas. As tramas vão se afunilando e vamos reconhecendo os reais protagonista e antagonista do filme. Os personagens continuam não despertando empatia na audiência, mas protagonizam bons momentos que desembocam num final inesperado que pode não funcionar para alguns.

“Bronx” é confuso, niilista, desesperançoso e violento, uma boa trama de corrupção moral que se perde um pouco com uma direção confusa e uma história que acaba espremida em um roteiro que tenta ser amplo, mas que não consegue desenvolver o que tem em mãos. Não é incrível, mas ainda assim é um policial razoável.

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