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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Sintonia", da Netflix, continua ótima em segunda temporada

Série brasileira da Netflix volta para a segunda temporada se aprofundando nas histórias de Doni, Rita e Nando e mostrando a realidade das "quebradas" Brasil afora

Vitória
Publicado em 25/10/2021 às 21h15
Série
Série "Sintonia", da Netflix. Crédito: Vans Bumbeer/Netflix

Quando “Sintonia” foi lançada, em outubro de 2019, ela era a “série do Kondzilla”. De fato, a série brasileira da Netflix havia sido idealizada por Konrad Dantas e trazia elementos de sua vida na periferia do Guarujá, litoral de São Paulo, mas ia além. Focada nas diferentes jornadas de Doni (Jottapê), Rita (Bruna Mascarenhas) e Nando (Christian Malheiros) respectivamente pela música, a religião e o tráfico, “Sintonia” é um retrato da vida das pessoas nas periferias Brasil afora. “Quando os personagens ganham vidas e histórias, o público se identifica com eles”, diz Bruna, em entrevista à coluna.

Na segunda temporada, que chega nesta quarta (27) à Netflix, a vida dos protagonistas mudou. A história retorna cerca de um ano após os acontecimentos do filme da primeira temporada; MC Doni colhe os frutos do sucesso, Rita mergulha cada vez mais no mundo da igreja e Nando se torna um chefe no crime. O que não muda, porém, é a relação dos três. “Eles são unidos por uma ideologia. Vieram do mesmo lugar e aprenderam as mesmas coisas, mas cada um escolhe o que quer fazer”, explica Jottapê, para Christian completar: “essa é a família que eles escolheram e isso tem um valor simbólico muito forte”.

O tempo que separa as duas temporadas também foi de bastante transformação, principalmente para Christian, que ganhou destaque no ótimo “Sócrates” (2018), de Alexandre Moratto, participou da série “Sessão de Terapia” e protagoniza “7 Prisioneiros”, bom filme que chega à Netflix em 11 de novembro, ao lado de Rodrigo Santoro. “Meu foco é na responsabilidade que eu ganho com isso. Esse trabalho (atuar) tem me proporcionado histórias reais e tenho o compromisso de representar essas pessoas, as bandeiras que eu levanto”, pondera.

Voltando à “Sintonia”, a segunda temporada tem uma pegada parecida com a primeira, mas apresentando o já citado novo contexto. O texto gasta tempo apresentando a nova ambientação ao espectador (o recap da temporada passada é ótimo) ao mesmo tempo em que ensaia novos conflitos para os personagens.

É lá pelo terceiro episódio (de seis) que a temporada engrena. É interessante perceber como os laços permanecem fortes e inquebráveis, mas Doni, Rita e Nando já não são mais inseparáveis - novos amigos, escolhas e compromissos nas jornadas de cada um os afastam, ao menos fisicamente. O peso desse afastamento é sentido pelos personagens, mas sempre tratado com sutileza pelo roteiro, mostrado nos pequenos detalhes.

“Sintonia” é esperta o suficiente para repetir as fórmulas e os coadjuvantes que deram certo na primeira temporada. Com o sucesso de Doni, a série mergulha no universo da música pop brasileira, com muitos shows e participações especiais, mas também coloca novas escolhas no caminho do funkeiro. Paralelamente, Nando se transforma no chefe do tráfico na comunidade e tem que lidar com questões dos moradores da comunidade, mas também dá um passo adiante na escalada do crime e passa a dialogar com pessoas mais “graúdas” do que ele. Já Rita é quem apresenta menos conflitos - ela ganha um interesse romântico, trabalha pela igreja da comunidade e busca se reconectar com o afastado pai.

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Série "Sintonia", da Netflix. Crédito: Vans Bumbeer/Netflix

A apresentação do pai da personagem resgata uma característica forte de “Sintonia”, a vontade de acabar com os estereótipos caricatos. Inicialmente demonizado por ter abandonado a família da jovem, o personagem ganha certa profundidade em alguns flashbacks. “A série vem desmistificar as pessoas da periferia, da favela. Falta oportunidade a essas pessoas. A gente fala da periferia, mas isso é só a ponta do iceberg. Tem que falar de desigualdade social, da herança de um Brasil colonial”, analisa Christian, durante a entrevista ao lado dos colegas de elenco.

O roteiro de “Sintonia” é um pouco atropelado e dá impressão de que as coisas acontecem e se resolvem muito rapidamente, mas também é feliz ao trazer de volta um arco que ficara incompleto na primeira temporada e criar com ele um conflito cuja solução pode mudar o rumo da série. Distanciando as jornadas pessoais dos protagonistas, o texto já começa a ensaiar um caminho sem volta para Nando, mas o personagem também já começa a pensar além do crime, a ter ambições maiores para sua família, e talvez isso envolva os amigos, a família que ele escolheu.

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Série "Sintonia", da Netflix. Crédito: Vans Bumbeer/Netflix

Sem uma terceira temporada confirmada no momento, “Sintonia” deveria pensar em não deixar ganchos soltos, dando finais ao menos satisfatórios para seus três protagonistas, o que não acontece. A série dá uma inesperada guinada dramática no arco final dos novos episódios e ganha novos contornos, abrindo novas possibilidades e dando um impacto na narrativa que mais uma vez é levada para a realidade das periferias brasileiras. Se não houver uma terceira temporada, no entanto, a série permanecerá sem fim.

Mesmo com a força dos momentos finais da segunda temporada, “Sintonia” permanece divertida e urgente ao narrar o cotidiano da “quebrada” fugindo de estereótipos e de conceitos pré-estabelecidos. Há violência, mas ela não é exclusividade da periferia e tampouco causada apenas pelos que lá habitam. A Vila Áurea da série é envolvida em arte, música, amizade e cheias de histórias de redenção e de vidas das pessoas daquele lugar. Seja conhecida como a série idealizada por Kondzilla, como a história de Doni, Rita e Nando, ou como uma série sobre as “quebradas” Brasil afora, “Sintonia” é uma das mais consistentes séries brasileiras da Netflix.

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Série "Sintonia", da Netflix. Crédito: Vans Bumbeer/Netflix

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