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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Profecia do Inferno": nova série coreana da Netflix é ótima

Esqueça as picaretas comparações com "Round 6", "Profecia do Inferno" ("Hellbound") é uma série com vida própria que usa o sobrenatural para discutir o mundo

Vitória
Publicado em 20/11/2021 às 04h18
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Série "Profecia do Inferno", da Netflix. Crédito: Jung Jaegu | Netflix

O diretor coreano Yeon Sang-ho é um jovem de quem se espera muito na indústria. Seguindo os passos de Park Chan-wook (“Oldboy”), Bong Joon-ho (“Parasita”), Hwang Dong-hyuk (“Round 6”), entre tantos outros, o cineasta se destacou com o ótimo “Train to Busan” (“Invasão Zumbi”, no Brasil), filme que voltou a ter destaque com o anúncio da refilmagem americana intitulada “Last Train to New York”. O filme de estreia do diretor é divertido, violento e ágil, enfrentando algumas convenções dos filmes de zumbis num clima de “tudo pode acontecer”. Surpreendeu, assim, quando "Invasão Zumbi 2: Península" foi lançado, um filme sem identidade, um genérico de ação.

“Profecia do Inferno”, minissérie que chegou à Netflix na última sexta (19), funciona como um tira-teima: o que, afinal, devemos esperar de Yeon Sang-ho? A boa notícia é que, mesmo com alguns problemas na narrativa, a série é ótima e o diretor mais uma vez usa uma premissa de terror para discutir questões humanas.

A série tem início com a aparição de grandes criaturas misteriosas atacando um cidadão no meio da rua. Após surrá-lo, os monstros se juntam e aparentemente queimam o corpo, deixando apenas os restos carbonizados antes de desaparecerem misteriosamente. O texto segue a receita de abrir a narrativa com um acontecimento impactante, que desperta o interesse do público, antes de desacelerar e apresentar seu verdadeiro ritmo - algo não muito diferente, por exemplo, de “Ghostbusters: Mais Além”.

Quando desacelera, “Profecia do Inferno” apresenta as cartas com as quais pretende jogar. Aprendemos logo que aquelas criaturas da introdução não surgiam sem aviso; antes delas, um “anjo” aparecia para a pessoa e a informava o dia e a hora exata de sua morte. Conhecemos então uma mulher, mãe de dois filhos, que recebe a visita de um desses “anjos”; ela procura a polícia, mas a informação logo chega a uma seita, a Nova Verdade, que oferece um dinheiro para a mulher pela transmissão de sua execução. Qual era, afinal, o seu pecado?

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Série "Profecia do Inferno", da Netflix. Crédito: Jung Jaegu | Netflix

Após esse acontecimento ser exibido para todo o mundo, a seita ganha importância, assim como seu líder, Jeong Jin-soo (Yoo Ah-in). “Você acredita que a justiça dos homens é capaz de executar a justiça divina?”, questiona o rapaz ao detetive Jin Kyung-hoon, um sujeito marcado pelo cruel assassinato da esposa e cujo responsável nem sequer cumpriu pena. Com fala mansa e discurso pronto, Jin-soo transforma a Nova Verdade em uma instituição poderosa e influente, uma religião que faz questão de espetacularizar as mortes "divinas" e de fazer com que as pessoas ligadas aos mortos sejam expostas pela associação com um pecador.

O surgimento da nova religião também faz surgir uma violenta milícia, os Arrowheads. Liderados por um influencer incendiário, eles decidem punir por conta própria todos os que julgam merecedores disso, caso da advogada Min Hye-jin (Kim Hyun-joo), que busca apoio às famílias, do já citado detetive de qualquer um que se recuse a aceitar os acontecimentos como intervenções divinas.

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Série "Profecia do Inferno", da Netflix. Crédito: Jung Jaegu | Netflix

“Profecia do Inferno” guarda boas e inesperadas surpresas - uma delas, inclusive, divide a narrativa praticamente em duas temporadas de três episódios (são seis no total). O arco inicial nos apresenta àquele universo e à construção de tudo. Após uma passagem de tempo, o segundo arco nos reintroduz em uma sociedade totalmente modificada pelas “punições divinas”, praticamente uma teocracia comandada pela Nova Verdade.

É muito eficaz a maneira como a narrativa entrega dois arcos diferentes, mas que obviamente se conectam. “Profecia do Inferno” tem o terror sobrenatural apenas na premissa, pois a série é muito mais profunda do que aparenta inicialmente.

O texto cria uma sociedade controlada pelo medo da punição - seja a punição divina por um pecado que não é explicitado, ou a punição dos milicianos do Arrowhead a quem se opõe ao sistema. Os monstros misteriosos desaparecem da narrativa e abrem espaço para os monstros humanos controlarem o universo da série. A pouca utilização das criaturas é uma boa escolha, pois, além de não banalizar a aparição delas, a computação gráfica utilizada não é das melhores.

Há algumas decisões ruins do texto, quase caricatas (como o sujeito que decide fugir da punição ou o mini-prólogo ao fim de tudo), mas ele funciona bem na maior parte do tempo. A virada que dá início ao terceiro ato faz com que a série cresça, ganhe novas camadas e ofereça novas discussões sobre lideranças religiosas e livre arbítrio. Em tempos de Covid-19, é possível até traçar paralelos que causam arrepios.

“Profecia do Inferno” não é o próximo “Round 6”, “Kingdom” ou “My Name”, é uma trama com identidade própria. A série também não é a produção de terror indicada pelo título ou pela premissa, mas sim mais um bom exemplar da produção audiovisual coreana; um texto original e conectado com o mundo para uma obra que entende a necessidade de ser pop, mas que não se esquece da força de seu conteúdo. Monstros “divinos” podem não existir exatamente como em “Profecia do Inferno”, mas há vários deles por aí.

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