Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Pai em Dobro": filme de Maisa na Netflix pode se tornar clássico

Maisa Silva é o grande atrativo de "Pai em Dobro", da Netflix, mas filme tem texto esperto de Thalita Rebouças e o carisma de Du Moscóvis e Marcelo Médici

Vitória
Publicado em 14/01/2021 às 00h30
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Filme "Pai em Dobro", com Maisa, na Netflix. Crédito: SUZANNA TIERIE/NETFLIX

Maisa Silva é um fenômeno. Antes da popularização do meme, ela já era estrela de vários. Figura frequente na TV desde que passou pela primeira vez pelo “Programa Raul Gil”, aos três anos, foi contratada pelo SBT, ponto de partida para seu plano de dominação mundial. Seja em trechos do “Sábado Animado”, do “Bom Dia & Cia” ou do “Programa Silvio Santos”, você com certeza já viu algum vídeo de Maisa que viralizou por aí.

A garotinha que um dia respondeu “Meu querido, eu sou cantora” a um participante que disse que ela não cantava muito bem se tornou atriz. Foi uma das protagonistas do remake da novela mexicana “Carrossel” e da versão brasileira da também mexicana “Carinha de Anjo”. Não demorou para chegar ao cinema em filmes adolescentes como “Tudo por um Popstar” (2018) e “Cinderela Pop” (2019). Em mais um passo do já citado plano de dominação, Maisa chega agora a quase 200 países com “Pai em Dobro”, que estreia na Netflix nesta sexta-feira (15).

Novamente trabalhando um texto de Thalita Rebouças (como em “Tudo por um Popstar”), Maisa é Vicenza, uma jovem que viveu a vida toda em uma comunidade hippie ao lado da mãe (Laila Zaid) sem nunca saber quem é seu pai. Quando completa 18 anos, encontra uma pista em casa e resolve seguir seu coração para realizar o sonho de conhecer o pai. Ela então aproveita uma viagem espiritual da mãe à Índia e parte para o Rio de Janeiro, mais especificamente no bairro de Santa Teresa, onde a mãe passou o carnaval há quase duas décadas.

Chegando lá Vicenza conhece Paco (Du Moscóvis), um artista plástico em crise criativa e possivelmente seu pai. Após um início um tanto conturbado na relação, os dois logo se dão bem, mas é aí que Giovani (Marcelo Médici) entra na jogada. Com novas pistas na mesa, Vicenza acredita que qualquer um dos dois pode ser seu pai. Sem que um saiba do outro, ela passa a criar uma afetuosa relação com ambos os possíveis pais. É óbvio que essa mentira não vai durar muito tempo.

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Filme "Pai em Dobro", com Maisa, na Netflix. Crédito: SUZANNA TIERIE/NETFLIX

Da mesma forma que Maisa e Larissa Manoela sempre foram alvos de comparações, muito em função de terem estrelado “Carrossel” juntas, “Pai em Dobro”, ironicamente, pode ser comparado a “Modo Avião”, filme de Larissa lançado também pela Netflix em janeiro do ano passado. Enquanto em “Modo Avião” a personagem de Larissa Manoela, uma garota urbana, tem dificuldades em lidar com uma cidade pequena, “Pai em Dobro” é o oposto - a jovem hippie se aventura pelo Rio de Janeiro. A comédia de costumes ganha um prato de cheio de possibilidades a serem exploradas e o faz com certa eficiência.

O texto de Thalita Rebouças é quase sempre ágil, com boas sacadas e piadas bem colocadas ganhando força com as atuações tanto do trio de protagonistas quanto de coadjuvantes de luxo como Fafá de Belém, Thaynara Og, Roberto Bonfim e a já citada Laila Zaid. Não é novidade que Thalita sabe se comunicar bem com o público jovem e não é à toa que ela é uma das grandes vendedoras de livro do mercado literário brasileiro.

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Filme "Pai em Dobro", com Maisa, na Netflix. Crédito: SUZANNA TIERIE/NETFLIX

Nascido de uma conversa entre a escritora e Du Moscóvis, na qual falavam de ele ser um paizão (tem três filhas), o roteiro encontra em Maisa seu dínamo. Dirigido por Cris D’Amato, “Pai em Dobro” é um veículo para a jovem brilhar - Vicenza pode não ter o conhecimento da cidade grande, mas é esperta, uma jovem com uma ingenuidade genuína, que aprendeu a confiar nas pessoas. Bem acolhida por uma comunidade amorosa, ela transmite esse amor por onde passa e com quem se relaciona. Além de tudo isso, Vicenza é safa: como disse Maisa em entrevista via chamada de vídeo, “uma versão feminina do Rodrigo Hilbert”.

“Pai em Dobro” é um filme difícil de ser analisado sem ter em mente qual seu público alvo - não é um filme feito para mim, por exemplo. As soluções para os conflitos do filme podem ser sempre simples, mas elas funcionam no contexto em que a história é desenvolvida. O texto de Thalita pode ser criticado pela falta de grandes embates, pois as pessoas são boas, não há vilões, e algumas relações parecem superficiais, simples demais. Isso tudo resulta em um filme leve, divertido, e principalmente positivo, mas também torna deslocado os momentos em que o texto necessitava de mais carga dramática.

Maisa tem 36,5 milhões de seguidores no Instagram e outros 9,4 milhões no Twitter no momento em que este texto é escrito, esse é o público de “Pai em Dobro”. É interessante fazermos um exercício acerca dos filmes que nos marcaram na infância e na adolescência: seriam eles realmente boas obras ou apenas dialogavam com nossos anseios da época? Filmes hoje guardados por gerações como memória afetiva foram motivo de crítica da intelligentsia da época.

Com o alcance da Netflix e a popularidade de Maisa, “Pai em Dobro” tem tudo para se tornar um clássico para a geração de nascidos a partir da segunda metade dos anos 2000, jovens que cresceram com Maisa e que vivem ou em breve viverão dilemas parecidos com os de Vicenza.

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