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Crítica

"Noturno": terror da Amazon é simples, mas funciona muito bem

"Noturno" faz parte do pacote "Welcome to the Blumhouse" e conta a história de uma pianista no limite da sanidade que pode ou não ter um pacto com o diabo

Publicado em 14 de Outubro de 2020 às 00:05

Públicado em 

14 out 2020 às 00:05
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme
Filme "Noturno", da Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
Outubro é mês de Halloween. Por mais que a data para o brasileiro não signifique muita coisa além de uma festinha à fantasia aqui ou outra acolá, e pautas requentadas em publicações país afora, nos EUA a situação é bem diferente, é tradição e, consequentemente, dinheiro. É por isso que em outubro as salas de cinema tradicionalmente recebem filmes de terror - a franquia “Jogos Mortais”, por exemplo, foi toda lançada no final de outubro.
Sem salas de cinema, mas com diversas opções nos serviços de streaming, a tradição de terror em outubro segue forte. O Amazon Prime Video fechou parceria com a produtora Blumhouse ("Corra", "Atividade Paranormal") para lançar a série de filmes ”Welcome to the Blumhouse” com os títulos “Black Box” (“Caixa Preta”), “The Lie” (“Mentira Incondicional”), “Evil Eye” (“Mau-olhado”) e “Nocturne” (“Noturno”), todos já disponíveis.
Mesmo que “Black Box” seja uma interessante ficção científica de terror, o filme funcionaria melhor como um episódio de “Black Mirror” ou “Tales From de Loop”. Por isso, o que mais se destaca dessa leva da Blumhouse é o bom “Noturno”, do diretor britânico Zu Quirke.
No estilo terror de baixo orçamento consagrado pela produtora (“Nós” e “Vidro” são os filmes mais caros feitos pela Blumhouse até hoje, US$ 20 milhôes), “Noturno” é um filme visualmente simples e utiliza isso a favor da história que conta. A trama acompanha as gêmeas Juliet (Sydney Sweeney) e Violet (Madison Iseman) em uma típica situação em que irmãs gêmeas não poderiam ser mais diferentes.
Violet é bonita, confiante, uma garota popular e pianista talentosa; já Juliet é igualmente bonita e talentosa, mas insegura. As coisas mudam quando Juliet encontra o caderno de música de uma jovem que se suicidou - cheio de anotações e desenhos misteriosos, o caderno desperta algo na jovem.
Filme
Filme "Noturno", da Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
“Noturno” tem uma estrutura similar à de “Cisne Negro” (2010), de Darren Aronofsky, com narrativa que faz o espectador questionar se está assistindo a um colapso nervoso ou a algo mais macabro. Há também uma quase homenagem ao filme estrelado por Natalie Portman, com a câmera acompanhando Juliet pela coxia minutos antes de uma apresentação. Claro que, aqui, a grandiosidade de um grande espetáculo de balé dá lugar a uma apresentação escolar; o clima, no entanto, é o mesmo.
Um possível pacto com o diabo é mencionado em diversos momentos, tudo reforçado por palavras como “invocação” e “sacrifício” - o mistério que cerca essa possibilidade torna o filme tenso e mais imprevisível. O filme de Zu Quirke tem muito de “Fausto” em sua essência, principalmente quando se envereda para o tal “pacto”, mas não é tão expositivo. Há dicas espalhadas durante todos os 90 minutos de projeção, mas a compreensão sobre o que aconteceu ou não em tela fica a cargo do espectador - a conclusão oferece diversas interpretações.
Por mais que tudo em “Noturno” seja funcional, o roteiro dá algumas derrapadas ao escolher saídas fáceis - em determinado momento, Juiet decifra um mistério ao perceber um padrão em uma mensagem recebida no telefone. Todas as concessões feitas pelo texto parecem tornar seu consumo mais fácil - a trama, afinal, trata de adolescentes e os dilemas da idade. Há ainda um ou outro recurso narrativo (o jantar, por exemplo), que parece não se encaixar ao tom do filme, estando ali apenas para facilitar o caminhar.
Ao fim, toda a alegoria funciona sem grandes destaques, mas de maneira muito correta. Sydney Sweeney quase se entrega ao exagero, mas parece sempre voltar a uma atuação mais contida - seu olhar é profundo e, em algumas cenas, assustador. “Noturno” é um filme de terror/suspense bom, com elementos psicológicos interessantes, mas que se equilibra bem entre o sobrenatural e a vida real.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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