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Crítica

"Missa da Meia-Noite": terror, fé e drama em uma série incrível

Novo trabalho de Mike Flanagan ("Maldição da Mansão Hill") na Netflix, "Missa da Meia-Noite" ("Midnight Mass") é uma das melhores obras da plataforma

Publicado em 27 de Setembro de 2021 às 22:34

Públicado em 

27 set 2021 às 22:34
Rafael Braz

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Rafael Braz

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Série "Missa da Meia-Noite", da Netflix Crédito: EIKE SCHROTER/NETFLIX
“Esse é o negócio da volta de Jesus. Sempre nos disseram que não seria bonito”, diz um personagem de “Missa da Meia-Noite” no momento em que a série escrita e dirigida por Mike Flanagan começa a mostrar seu rumo. “Missa da Meia-Noite”, brilhante e prolixo novo lançamento de Flanagan na Netflix, lida com a questão de forma indireta, pela distorção da fé, do significado das escrituras e, principalmente pelos que se dizem porta-vozes da palavra.
Depois de “A Maldição da Residência Hill” e “A Maldição da Mansão Bly”, Flanagan parte para seu projeto mais pessoal, um desejo antigo inclusive já citado em outros trabalhos, um terror diferente e de forte pegada religiosa. O cristianismo e o cinema de terror sempre estiveram conectados por suas profecias, a culpa católica, ou caso de possessões demoníacas - filmes como “O Bebê de Rosemary” (1968), “A Profecia” (1976), “O Exorcista” (1973) ou “A Bruxa” (2015) são prova disso. O cristianismo é um prato cheio para o horror até em seu texto máximo, a Bíblia, e seu Apocalipse. Quem será salvo e o quanto a (boa) conduta cristã depende do medo de não estar entre os escolhidos?
Flanagan abandona as mansões familiares e ambienta seu terror religioso em uma pequena ilha 50 quilômetros afastada do continente, a Ilha de Crockett e seus pouco mais de 150 moradores. Assim, conhecemos Riley Flynn (Zach Gilford), um sujeito que volta à ilha após cumprir pena por um acidente com morte que ainda o atormenta. Ao retornar, Riley é obrigado pela família a ir à missa de domingo, e é quando somos apresentados ao novo padre da paróquia, o padre Paul Hill (Hamish Linklater).
O sacerdote rapidamente se conecta à comunidade de Crockett, lidando com os problemas individuais e atraindo até os não-praticantes de volta ao convívio da igreja; “As pessoas que não estão em estado de graça eram as favoritas de Jesus”, diz, em determinado momento. Não demora para que coisas estranhas comecem a acontecer por lá (é uma história de horror), de milagres inexplicáveis a algumas situações mais sinistras, mas não entrarei em spoiler nenhum neste texto.
As referências a Stephen King são óbvias e o diretor nem tenta escondê-las, mas“Missa da Meia-Noite” é bem diferente dos trabalhos anteriores de Flanagan e cria um clima também distinto. Ao invés de nos fazer procurar fantasmas por todos os ambientes de velhas mansões e nos assustar com aparições repentinas, o cineasta obriga o espectador a lidar com suas crenças e, por que não, com suas descrenças - “Missa da Meia-Noite”, afinal, é uma história sobre religião. Em sete episódios longos, a série passeia por diferentes subgêneros do terror, mas o que assusta mais é o comportamento humano. Isso não significa, porém, que não haja sustos ou tensão, eles apenas não são exatamente como esperamos que sejam.
Flanagan mostra seu já conhecido talento como diretor e roteirista ao misturar religião e horror ao melodrama normalmente presente em sua obra, o que ajuda a trazer um ar mais pop e uma carga dramática a ela. Os tão comentados monólogos da série são filmados em takes longos, exigindo boas atuações de atores para deixá-los o mais natural possível. Todos os protagonistas têm seus momentos “palestrinhas” para falar sobre a existência, a culpa, o que os move ou apenas para contar suas histórias.
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Série "Missa da Meia-Noite", da Netflix Crédito: EIKE SCHROTER/NETFLIX
Nos longos monólogos, Flanagan desenvolve seus personagens e manipula também a expectativa do público. O texto depende demais da dinâmica entre os personagens, mas os atores se saem bem sempre que requisitados. Hamish Linklater é um espetáculo como o padre Paul, criando um personagem afetuoso, atencioso, mas também meio sinistro e perigoso quando o roteiro pede. As conversas do padre com Riley são ótimas.
Zach Gilford e Kate Siegel funcionam bem tanto juntos quanto separados. Também vale destacar Rahul Kohli como o xerife Hassan, um muçulmano em meio ao fervor católico da ilha, e Samantha Sloyan, que vive Bev, uma devota líder comunitária que desperta a raiva do espectador desde o primeiro momento.
É interessante notar como Flanagan entende a morte. É fácil reconhecer o cineasta em Riley (a ovelha negra), um alcoólatra em recuperação (assim como Flanagan) que estudou religiões durante o cárcere apenas para perceber que não acreditava em nada. Riley vê o fim como uma redenção, uma possibilidade de corrigir os erros que cometeu em vida - terá sido o suficiente? Em contrapartida, a filha pródiga Erin (Kate Siegel, esposa do diretor) enxerga a possibilidade do fim de maneira diferente, como um reencontro, uma volta para casa. Deus, para ela, é o amor.
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Série "Missa da Meia-Noite", da Netflix Crédito: EIKE SCHROTER/NETFLIX
Apesar de uma ou outra virada possível de ser prevista, “Missa da Meia-Noite” surpreende em vários momentos e nunca se espera o rumo tomado pela série. Por isso, quanto menos se souber sobre a trama de Mike Flanagan, melhor. Desde o início, entende-se haver uma ameaça iminente, algo macabro a acontecer, mas o primeiro impacto real é quando se tem o ensejo do que está acontecendo na ilha.
“Missa da Meia-Noite” é um estudo da fé e das diferentes interpretações religiosas. Assim, esqueça qualquer tipo de texto/vídeo “entenda ‘Missa da Meia-Noite’”, pois a minha compreensão sobre tudo com certeza diferirá da sua, leitor, ou da de Mike Flanagan, e isso é um mérito gigante para o texto do cineasta em seu melhor trabalho.
Crédito:

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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