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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Mare of Easttown", da HBO, é a série que você deveria estar vendo

Estrelada pela oscarizada Kate Winslet, "Mare of Easttown" é uma história de detetive em cidade pequena, mas com detalhes que a tornam uma das melhores séries do ano

Vitória
Publicado em 18/05/2021 às 02h20
Atualizado em 31/05/2021 às 04h00
Série
Série "Mare of Easttown", da HBO. Crédito: HBO/Divulgação

Atualização

31 de Maio de 2021 às 03:46

Texto atualizado com as impressões da temporada inteira. O original havia sido escrito com base nos cinco primeiros episódios.

Quando os executivos da HBO assistiram às primeiras prévias de “Mare of Easttown”, eles perguntaram se Kate Winslet tinha realmente que parecer tão acabada. A resposta da equipe criativa foi “sim, Kate tem que parecer destruída”. A atriz conta essa história com orgulho de quem assumidamente não quer fazer mais papéis inatingíveis. “Eu tenho 45 anos, eu pareço destruída de vez em quando. É assim que é a vida da maioria das mães da minha idade”, explica a atriz, vencedora de um Oscar, no material de divulgação da série da HBO.

Às vésperas da chegada da HBO Max no Brasil, “Mare of Easttown” passa meio despercebida em meio a tanta oferta em serviços de streaming com plataforma muito mais eficiente que a atual HBO GO, mas não deveria. A série criada por Brag Inglesby e dirigida por Craig Zobel (“A Caçada”) tem início como um clássico ‘whodunit’, uma história de detetive, mas amplia seu escopo e se transforma em algo único.

Winslet vive Mare, uma detetive da pequenina Easttown e uma espécie de heroína na comunidade. Décadas atrás, Mare foi responsável pela cesta que deu o título estadual de basquete à escola local e ninguém a deixa se esquecer disso - o americano valoriza muito o esporte colegial e universitário.

Easttown é uma cidade pacata, mas uma jovem desapareceu há cerca de um ano, um caso que Mare ainda não conseguiu resolver. Isso resultou num climão entre os moradores, que se dividem entre responsabilizar a detetive pela não solução e entender que ela não poderia ter feito nada além do que fez.

Com um primeiro episódio basicamente de apresentação de personagens e universo, “Mare of Easttown” engrena ao fim dele, quando o corpo da jovem Erin (Cailee Spaeny) é encontrado em um rio. É interessante como o episódio de estreia nos apresenta Erin, fazendo com que tenhamos uma breve simpatia por ela, uma mãe solteira de 16 anos às voltas com os custos de uma cirurgia para seu bebê, o ex-desinteressado e o pai problemático.

Nos episódios que desenvolvem a série, o foco é quase sempre em Mare. Após o fim da temporada e, consequentemente, da série, “Mare of Easttown” é dura e às vezes cruel, mas também com forte carga sentimental. Além de cuidar dos casos, a protagonista ainda tem que lidar com diversos problemas familiares que vão do casamento do ex-marido à guarda do neto. No meio disso tudo, ainda surgem na vida de Mare o escritor galã Richard (Guy Pearce) e o detetive Zabel (Evan Peters), com quem é designada a trabalhar.

Sem revelar nada sobre as viradas da série, é possível dizer que “Mare of Easttown” tem seu grande acerto na ambientação em uma cidade muito pequena, daquelas em que todo mundo se conhece e parece dividir um pouco da culpa pelo que vem acontecendo. O roteiro constrói bem o clima e é fácil perceber que todos ali estão afetados pelo caso e, de alguma forma, até envolvidos, mas o texto é inteligente o suficiente para não cair nos exageros.

E aqui voltamos ao parágrafo inicial, à vontade de Kate Winslet aparecer em tela como uma mulher real. A força da série está justamente em tudo ali parecer crível e orgânico. O mistério, normalmente construído nesse tipo de narrativa com o excesso de informações e muita exposição, é natural - há poucas informações sobre o caso, então toda pista é uma boa pista a ser investigada. Durante a investigação, Mare se depara com um lado pesado da comunidade, com histórias e acontecimentos que provavelmente continuariam desconhecidos se não fosse pelo crime.

O roteiro de Brad Inglesby, cheio de detalhes importantes, tem na dor de Mare o ponto de identificação com o público. A detetive vivida por Kate Winslet está longe de ser perfeita, mas acabamos nos envolvendo com ela mesmo quando erra. Talvez isso aconteça por praticamente vermos a sério sob o olhar da protagonista, descobrindo tudo no desenrolar das coisas - o que fica muito claro num ponto crucial do episódio cinco.

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Série "Mare of Easttown", da HBO. Crédito: HBO/Divulgação

Winslet, uma atriz britânica, se entrega ao papel e assume o forte sotaque da Pensilvânia. Além disso, Mare carrega uma dor e uma desconfiança constantes, sentimentos aos poucos desvendados pela audiência, mas sempre estampados na linguagem corporal e nas expressões faciais da atriz. Quando finalmente entendemos sua dor, percebemos que os sinais já estavam ali desde o início.

É interessante perceber como um texto tão duro ainda consegue oferecer espaço quase para uma comédia familiar. Vivida por Jane Smart, Helen, a mãe de Mare, é um poço de ironia e sarcasmo. As duas dividem o mesmo teto, então as interações são constantes e até a trilha sonora muda quando a personagem aparece em cena.

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Série "Mare of Easttown", da HBO. Crédito: HBO/Divulgação

Ainda, a série sempre surpreende com ganchos que são construídos ao longo de cada episódio, o que faz a narrativa semanal ser perfeita para “Mare of Easttown”, criando uma expectativa gigante para o episódio da próxima semana mais uma vez de forma natural, sem que tudo pareça apressado apenas para a trama chegar àquele ponto. 

"Mare of Easttown" é um primor de texto de suspense e de condução de narrativa. Em seus dois episódios finais, por exemplo, tudo parece caminhar para uma conclusão que funcionaria bem e encerraria a série como uma boa jornada. Quando o sexto episódio chega ao fim, somos novamente pegos de surpresa e tudo nos leva a crer que a última parte da série será apenas um desenrolar dos fatos, mas o texto ainda tem uma grande reviravolta guardada. 

A conclusão é ousada e surpreendente, mas estava tudo ali durante os episódios anteriores - nós (e Mare) é que não conseguimos ou não quisemos enxergar. De forma natural, o texto já havia dado pistas valiosas. Assim, mesmo que, claro, a montagem ajude na surpresa escolhendo o que mostrar e o que não mostrar, em nenhum momento parece que nós, os espectadores, fomos enganados ou subestimados.

São esses detalhes que fazem “Mare of Easttown” uma das séries mais legais de 2021. A história de assassinato na cidade pequena não é nova - “Sharp Objects”, “Top of the Lake”, “Home Before Dark” já fizeram isso -, mas a série da HBO, capitaneada pela atuação de Kate Winslet, se coloca entre as melhores do gênero e uma série a que todos deveriam estar assistindo.

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Rafael Braz

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