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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"A Mulher na Janela", na Netflix, é suspense confuso e vazio

Adaptação do livro homônimo de A. J. Finn, suspense "A Mulher na Janela" chega à Netflix com grande elenco, mas não faz jus ao material em que se baseia

Vitória
Publicado em 14/05/2021 às 18h52
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Filme "A Mulher na Janela", disponível na Netflix. Crédito: Melinda Sue Gordon/Netflix

É fácil entender o apelo do livro “A Mulher na Janela”, de A. J. Finn, pseudônimo do escritor Dan Mallory, sujeito com uma história bem maluca (sério, leia aqui). Lançado em 2018, o livro fez muito sucesso com uma história que obviamente remetia ao clássico “Uma Janela Indiscreta” (1954), de Alfred Hitchcock, mas que trazia elementos de thrillers modernos com os livros de Gillian Flynn (“Garota Exemplar”). A Fox adquiriu os direitos do livro e era questão de tempo para que ele fosse transformado em um filme.

As primeiras notícias eram promissoras - um elenco encabeçado por Amy Adams, Gary Oldman, Julianne Moore, Anthony Mackie e Wyatt Russell seria comandado pelo talentoso diretor Joe Wright (“O Destino de uma Nação”), mas as coisas logo desandaram. As sessões teste tiveram reações negativas e o filme passou por diversas adaptações de roteiro e por algumas refilmagens. A estreia foi adiada, de 2019 para 2020, mas aí o tudo mudou. Após diversos adiamentos durante a pandemia, a Fox vendeu o filme para a Netflix, o que parece uma morte menos dolorosa do que vê-lo fracassar nos cinemas.

“A Mulher na Janela” é a história de Anna Fox (Amy Adams), uma psicóloga que sofre com agorafobia e se sente incapaz de sair de casa há cerca de um ano. Ela passa seus dias assistindo a filmes antigos, sob forte medicação, consumindo muitas taças de vinho e observando a vida do bairro pelas amplas janelas de sua casa. Após conhecer os novos vizinhos, os Russell, e passar uma noite agradável na companhia de Jane (Julianne Moore), Anna vê, pela janela, o momento em que sua nova amiga é assassinada.

Tudo o que acontece a partir deste momento, o fim do primeiro ato, é confuso. Em uma atuação exagerada de Amy Adams, Anna é uma mulher com a qual a audiência não simpatiza em momento algum, mas o roteiro também não ajuda. O texto adaptado para as telas por Tracy Letts, que vive o psicólogo de Anna no filme, cria o mistério com a falta ou o excesso de informações.

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Filme "A Mulher na Janela", disponível na Netflix. Crédito: Melinda Sue Gordon/Netflix

Os personagens que cercam Anna são caricatos e variam o comportamento num piscar de olhos - em um momento são atenciosos, compreensivos e sorridentes, mas no outro já agem como psicopatas e são extremamente agressivos. O texto tenta a todo custo fazer com que o espectador questione a sanidade da protagonista e, ao mesmo tempo, desconfie de todos.

É fácil usar o álcool e os remédios de Anna para questionar sua sanidade, mas o filme se distancia do livro ao apostar mais em um suposto impacto de algumas cenas que nunca têm o efeito esperado. O livro de Finn constrói a protagonista como uma mulher confiável e na qual vale a pena acreditar - a Anna do livro se questiona mais acerca do que viu do que é questionada pelos outros. O filme também tira profundidade da personagem ao acabar com a subtrama do grupo de apoio virtual do qual ela faz parte.

Joe Wright se aproveita das influências do material original para brincar com estilos de cinema. Em alguns momentos, “A Mulher na Janela” se assemelha esteticamente muito aos filmes de Hitchcock ou Brian De Palma, com diferentes angulações para reforçar alguma característica da cena. A trilha sonora de Danny Elfman tem papel crucial na construção dessa tensão e até compensa algumas falhas do roteiro nesse sentido.

É interessante a maneira como o filme se transforma ao fim do segundo ato, o momento de virada do filme e quando entendemos o que está acontecendo - mesmo que essa descoberta venha de uma maneira não muito crível. O thriller psicológico sai de cena e abre espaço para um filme de psicopata que gera algumas sequências quase risíveis. Para acabar com qualquer possibilidade de questionamento para o espectador, o filme abusa da exposição e do didatismo em todos os seus pontos de viradas, ignorando a máxima de "não fale, mostre", do já citado Hitchcock. Assim, personagens contam todas suas motivações e deixam tudo bem claro para a protagonista e, claro, para o público.

Ao fim, “A Mulher na Janela” é um filme tão problemático quando sua produção. O roteiro tira toda a sutileza e a dúvida do material em que se baseia - e o livro já nem é lá muito original. Com bons atores sendo subutilizados e normalmente gritando (sabe-se lá o porquê), o filme de Joe Wright se resume a um suspense que passaria perfeitamente no “Supercine”, nas noites de sábado da Globo. Sorte da Fox que conseguiu recuperar parte do investimento sem depender das bilheterias dos cinemas.

Netflix Rafael Braz

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