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Crítica

"Eu Nunca..." é encantadora e esquisita comédia na Netflix

Com narração do ex-tenista John McEnroe (e um convidado surpresa), série criada por Mindy Kaling mostra a complexa adolescência de uma jovem de família indiana nos EUA

Publicado em 05 de Maio de 2020 às 19:19

Públicado em 

05 mai 2020 às 19:19
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Série
Série "Eu Nunca..." Crédito: Lara Solanki/Netflix
A atriz Mindy Kaling ficou famosa como Kelly Kapoor, uma funcionária hindu-americana nos escritórios da Dunder Mifflin na série "The Office". Kelly segue a religião de seus pais, o hinduísmo, e assume a herança cultural trazida por eles, mas é uma jovem totalmente moldada pelos costumes ocidentais e que constantemente faz afirmações erradas sobre os costumes da Índia. Mindy também era roteirista na série protagonizada por Steve Carrell - era a única mulher da equipe que também não tinha uma grande pluralidade étnica.
Mindy se sentiu diferente por toda sua vida, da infância e adolescência em Massachusetts ao estrelato em Hollywood, onde se tornou também uma influente produtora. A atriz agora usa sua influência para criar conteúdos como “Eu Nunca…”, série de comédia adolescente inspirada em sua vida e lançada pela Netflix. A comédia acompanha, quem diria, uma jovem hindu-americana de família tradicional crescendo em meio ao caldeirão cultural que são os EUA.
Com 10 episódios que nunca ultrapassam 30 minutos, a série narrada pelo ex-tenista John McEnroe (tem explicação para isso) acompanha Devi (Maitreyi Ramakrishnan), uma adolescente indiana disposta a perder a virgindade e deixar de ser uma “esquisitona” na escola. Além de Devi, o texto acompanha também suas amigas Fabiola (Lee Rodriguez) e Eleanor (Ramona Young), cada uma com seus próprios problemas familiares, amorosos e escolares para resolver.
“Eu Nunca…” bebe na fonte de “Sex Education” como uma comédia moderna ao criar um ambiente plural e bem menos tóxico para o colegial. A série explora bem as diferenças culturais e a relutância de Devi em seguir as tradições de seus pais - ela só quer ser uma adolescente americana normal, o que o roteiro deixa claro desde o início.
A série aproveita também para falar de assuntos sérios como luto, depressão, sexualidade, identidade, relações familiares e a maneira como cada pessoa lida com as dores da vida. Quando conhecemos a protagonista, aprendemos que ela passou por um ano pesado (mesmo que não seja spoiler propriamente dito, nada sobre essa premissa será discutido aqui) e tenta retomar sua vida.
Apesar da seriedade dos assuntos discutidos, o roteiro nunca deixa o humor de lado. A rivalidade de Devi com Ben (Jaren Lewison) é ótima e o personagem é desenvolvido com carinho pelo roteiro. O mesmo acontece com Fabiola, Eleanor e Kamala (Richa Moorjani), a prima mais velha e bonitona de Devi está às voltas com um casamento arranjado, uma tradição nas famílias indianas. Uma pena que outro personagem recorrente na trama, o bonitão Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnet) não ganhe a mesma dedicação - uma interessante possibilidade é aberta pelo texto, mas acaba pouco explorada.
Série
Série "Eu Nunca..." Crédito: Lara Solanki/Netflix
“Eu Nunca…” pode ser uma comédia adolescente, mas é uma série com humor inteligente e conteúdo atrativo para todos. Ela conversa de maneira honesta tanto com jovens nas situações das protagonistas quanto com pessoas mais velhas que vão se divertir com as referências do narrador. A série é um interessante e moderno retrato de uma geração que cresce com mais informação e com conceitos diferentes, mas que ainda enfrenta a resistência da sociedade às transformações.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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