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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Dan Abranches lança "Titan", um álbum dolorido, mas necessário

"Titan" é o primeiro disco completo do capixaba Dan Abranches e marca o registro de uma fase difícil na vida do músico. Show de lançamento é nesta quinta (2), às 21h

Vitória
Publicado em 02/09/2021 às 03h40
Dan Abranches, músico
Dan Abranches, músico. Crédito: Magu/Divulgação

Na última noite das audições às cegas do “The Voice Brasil” de 2019, Dan Abranches subiu ao palco, cantou “Believer”, do Imagine Dragons, e precisou escolher entre Lulu Santos e Michel Teló. Escolheu o primeiro. Dan foi adiante no programa e, mesmo não tendo ganhado, conseguiu uma projeção antes inimaginável para o jovem natural de Cachoeiro de Itapemirim.

Veio a projeção, vieram os projetos, veio a pandemia. Antes do programa, Dan já tocava pela noite capixaba e produzia músicas autorais como as lançadas no EP “Ruby”, de 2017. O Dan daquela época, no entanto, ficou para trás. Em 2020, o músico lançou o delicado EP “Flor de Laranjeira”, que mostrava ao mundo composições em português e uma pegada mais próxima da música brasileira.

Assim, surpreende que o Dan Abranches que hoje lança “Titan”, seu primeiro álbum completo, seja algo mais próximo de seu primeiro trabalho do que do lançado ano passado. “As composições são de 2019, 2018. Eu fiquei com elas na gaveta por um bom tempo e pensei várias vezes não lançá-las”, conta o músico em entrevista por telefone. “Ficou para trás, faz parte do meu processo e eu sou uma pessoa completamente diferente hoje, mas não quis deixar de lado todo o processo até chegar onde estou hoje. Foi muito importante pra mim e talvez seja para outras pessoas também, quem sabe…”, completa.

O processo a que Dan se refere é o processo de transição de gênero. Dan é um homem trans que só se assumiu aos 28 anos, em rede nacional, e conviveu anos com a depressão causada pela ansiedade de lidar com a disforia de gênero. Com 10 músicas, “Titan” é um disco de clima tenso e temas pesados, com canções que contam a história de uma dolorida jornada de autoconhecimento e transformação.

Dan Abranches e banda no show de lançamento de
Dan Abranches e banda no show de lançamento de "Titan". Crédito: Willyans Thiago da Silva

“Titan” seria, em tese, o sucessor de Ruby, mas os planos nem sempre saem como o planejado. Ainda assim, o disco nunca soa datado, pelo contrário. Há muito de rock, trap, música brasileira e folk nas camadas criadas por Dan Abranches.

Em entrevista, Dan fala sobre quão duro é o disco, sobre a experiência no “The Voice”, as dificuldades impostas pela transição de gênero e também sobre o show que será exibido hoje, às 21h, como lançamento de “Titan”. O show você pode conferir clicando aqui, mas para conferir a entrevista basta continuar descendo na página.

É um disco mais pesado, nas letras, nos tons das músicas. Você diz que as músicas são histórias, então como foi reviver essas histórias e deixá-las marcadas para sempre na forma de um trabalho?

As composições são de 2019, 2018. Eu fiquei com ele (o disco) na gaveta por um bom tempo e pensei várias vezes não lançá-lo. Ele tem, sim, um teor mais pesado, fala de assuntos de que muita gente não quer falar, mas eu vi que precisava lançar, é um marco. É um processo meu e eu não queria jogar fora todo esse trabalho. É isso, ficou para trás, faz parte do meu processo e eu sou uma pessoa completamente diferente hoje, mas não quis deixar de lado todo o processo até chegar onde estou hoje. Foi muito importante pra mim e talvez seja para outras pessoas também, quem sabe...

Imagino que seria difícil também deixar um material assim guardado...

Sim. Foi todo um processo de experimentação sonora que eu fiz nesse álbum, ele é o trabalho mais experimental que eu tenho, propositalmente. Não queria que tivesse amarras em nenhum lugar, nas letras ou composições. Não tinha um intuito comercial, era uma parada de colocar pra fora, fazer uma coisa sincera. A maior dificuldade foi que eu deixei passar muito tempo. Fui para o "The Voice" e tinha um contrato com eles, depois veio a pandemia, logo que eu comecei a fazer o disco. Como ele envolvia ir a estúdios e encontrar pessoas, preferi dar um tempo e lançar meu outro EP ("Flor de Laranjeira"), um trabalho mais reduzido, dentro de casa. Acho que ele é muito importante, tinha que sair. Faz parte de mim e não conseguiria deixar guardado. Eu precisava soltar e ver no que vai dar.

Dan Abranches
Dan Abranches. Crédito: Magu/Divulgação

O disco se divide em camadas bem definidas, com partes mais experimentais e outras músicas em voz e violão. Foi algo pensado?

Esse álbum é todo encaixadinho. As histórias se completam. Se você pegar da primeira a última música, tem uma história acontecendo e cada música fala sobre um tema diferente. Tem música de superação, outra mais sexual, de libertação de corpo, paranoia... Cada uma fala de uma história do meu período de transição, as coisas boas e ruins. As músicas acústicas ficaram no final porque eu queria relembrar de quando eu comecei a tocar, com músicas acústicas, sem a produção da primeira parte do álbum. Muito legal que a galera tá me mandando mensagem falando sobre isso, gente que diz "me lembrou de quando a gente era criança e você levava o violãozinho para praça pra tocar". Eu queria botar isso, esse lado meu. Foi onde tudo começou, fazendo voz e violão em bar. São as músicas com as quais as pessoas mais se identificaram justamente por lembrar, por trazer uma nostalgia. É muito sincero.

Tem então um resgate do Dan do início de carreira?

Sim. É meu primeiro álbum oficial mesmo, então eu queria que tivesse um pouco de tudo, o que eu fiz antes. O que eu estou fazendo agora pode vir depois. Eu queria que tivesse um pouco do rock, umas coisas da época do Surbelle, outras mais acústicas. Isso tudo está na minha história. Tem o rock, o groove... A identidade tá ali. Continua sendo sempre a mesma pegada, mas isso era o que eu tinha para mostrar no começo, é o que me trouxe até aqui.

Cada música tem um trabalho visual. Como esse trabalho foi feito e idealizado?

Eu juntei com a Flora Fiori e fizemos esse conceito. Eu já tinha as ideias. Eu queria a primeira música mais clara, mais branca, uma praia... Na segunda eu queria uma cachoeira, é uma música que fala de orgasmo de uma forma não tão sexual. Eu queria que cachoeira simboliza isso sem ser nada apelativo, queria algo mais artístico mesmo. Eu tinha várias ideias. "Fake City" já era uma coisa mais caótica, que entrasse no mundo virtual. A partir dela, nós entramos no universo virtual e eu entro nos cenários como um artista virtual. Esses vídeos vão contando a história desse personagem que vai passando por várias coisas até chegar às acústicas, que tem um barquinho indo embora. Queríamos dar sentido às músicas e também oferecer algo pra galera olhar e pegar esse sentimento das músicas.

Dan Abranches

Músico

"Eu queria muito ter as mudanças (hormonais) porque eu tenho muita disforia, mas a minha voz foi construída por mais de 10 anos. Eu cantava há muitos anos e sabia que não conseguiria mais cantar da mesma forma. A minha voz baixou uma oitava, é muita coisa. Eu tinha muito medo, mas faz parte do processo."

Como as foram as participações? O Pê Lopes você conheceu no "The Voice"?

Quando a gente se encontrou, no "The Voice", o Pê ainda não tinha nem transicionado, mas tava num processo e esse encontro foi muito importante pros dois. A gente se conectou muito e combinou de fazer um feat.. Eu tinha essas músicas e comecei a hormonizar, então minha voz mudou muito e eu não consigo mais cantar as músicas no mesmo tom.

Eu vi seu relato no Twitter na época da hormonização e isso me marcou muito. De fora, a gente não pensa muito nisso, mas imagino que seja uma decisão muito difícil, né?

Pra nós, artistas, é a primeira coisa em que pensamos. Eu queria muito ter as mudanças (hormonais) porque eu tenho muita disforia, mas a minha voz foi construída por mais de 10 anos. Eu cantava há muitos anos e sabia que não conseguiria mais cantar da mesma forma. A minha voz baixou uma oitava, é muita coisa. Eu tinha muito medo, mas faz parte do processo. Coincidiu da pandemia ser durante a minha hormonização, então foi um período grande que eu fiquei sem precisar cantar tanto. Deu tempo para eu ir me adaptando, mas obviamente minha região agora é outra. Eu queria manter as músicas onde elas estavam porque trocar a tonalidade muda toda a estética delas. Aí chamei o Pê porque ele não hormonizou, então a voz dele continua igual e tem essa região mais aguda. Chamei ele pra fazer "Come", que é uma parada mais intensa, um rock meio r&b, a cara dele. A MC Afronta eu conheci ano passado e a achei um talento absurdo, muita força, uma coisa incrível. Quando a vi eu falei "venha cá" (risos), mostrei a música pra ela e a gente desenvolveu esse verso lá em casa. Chamei também o MK Paiva pra participar do clipe de "Come" pra ter um outro trans masculino. Enfim, chamei as pessoas a que tive mais acesso. São todas pessoas que eu queria do meu lado, a quem eu queria dar uma visibilidade, se eu puder, porque tenho um pouco mais tempo de carreira e também ciência dos meus privilégios. Queria dar força a essa galera, os "excluídos" (risos).

Voltando ao "The Voice". Foi quando você assumiu sua transição, né?

Eu me assumi no "The Voice". Minha família sempre soube, mas a gente nunca foi de conversar muito, então ficava tudo meio subentendido. Quando eu fui para o "The Voice" eu ainda não tinha transicionado. Passei por todas as fases de seleção antes da transição. Para a final, eu estava em Portugal e eles me ligaram dizendo que eu tinha passado em tudo e que entraria no programa. Falei "beleza, mas eu vou entrar desse jeito, senão eu não quero". Eles toparam e foram super legais comigo. Eu me assumi no programa. Eu já queria fazer há um tempo, mas ficava pensando no processo de ficar corrigindo os outros, que coisa chata, é muito desconfortável pra gente. Vi no programa a oportunidade, ninguém ia me perguntar nada, eu estava em rede nacional, quem não me respeitar, tchau! Foi assim e foi muito massa. Imagina a pressão, eu não tava indo lá só cantar na frente de Ivete Sangalo, Lulu Santos e Iza, mas também me assumindo em rede nacional. Foi uma doideira muito importante e marcante pra minha vida.

Você passa a impressão de ser um cara mais tímido, mas você se expõe no seu trabalho, expôs sua transição... Esse contraste é uma fonte de material pra sua produção?

Eu sou extremamente tímido, retraído mesmo. É uma questão de anos. Eu fui me negativando, me escondendo mesmo, foi uma coisa que eu fiz. Hoje eu sou bem melhor, converso muito mais. Eu sempre usei a arte para soltar os cachorros, sabe? Ia para os shows para soltar tudo o que eu tinha para soltar, a mesma coisa na hora de compor e produzir. É um contraste. Eu sempre usei a arte para me libertar nem que fosse por alguns minutos. Foi minha cura. Sem a música, sem a arte, eu não estaria aqui conversando com você. Minha religião é a música e eu indico a todos porque é um instrumento de curo.

Qual a importância de você usar o espaço que tem para fazer algo relevante?

Desmistificar, cara. Tem muita coisa na nossa vivência, foi colocada muita coisa e a gente precisa quebrar essas barreiras, esses preconceitos para que as pessoas entendam que a gente só quer nosso espaço no mundo, só quer ser feliz como todo mundo. Através da música a gente quebra isso. Algumas pessoas que conhecem meu trabalho veem quem eu sou. Elas veem minhas letras, meu trabalho, passam a entender tudo pelo que passei. O que importa é o meu caráter.

Essas músicas são mais antigas. Qual o caminho musical que você vai trazer daqui pra frente?

Esse álbum sairia depois do meu primeiro EP ("Ruby", de 2017), mas depois veio o "Flor de Laranjeira", que é lugar onde estou agora, fazendo muito MPB. Eu sempre tive muita vergonha de escrever em português, era uma vergonha, então escrevia em inglês pra menos gente entender (risos). Agora eu não tô nem aí, estou fazendo muita MPB, ouvindo muita bossa nova, muito jazz. Estou mais maduro musicalmente, então muita coisa mudou e meu trabalho vai refletir isso. Vem aí muita coisa nesse sentido. Acho que esse é meu último trabalho em inglês. Também estou gostando de fazer sons mais leves, pois eu vinha de sons muito intensos. Eles são importantes pra mim, mas eu sou uma pessoa muito mais leve hoje, então isso vai refletir na minha obra. Já tem refletido.

Como vai ser o show de lançamento do disco?

A gente fez uma produção muito massa. A gente levou um mapeamento 3D pro show, então as imagens vão ficar passando atrás da banda, em várias telas. Tem uma banda grande, trazendo eletrônico e orgânico juntos. A banda tem a Thaysa Pizzolato, Rafael Esquerda, Izaque Hortêncio e Syma. Ficou bem massa, ficou lindo. A gente teve apoio da Funcultura para fazer o show. O show é na ordem, segue o disco e tem umas poesias, umas imagens. É o disco na íntegra.

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