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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Chucky, o brinquedo assassino, volta em ótima série no Star+

Protagonista de sete filmes absurdos e um remake, Chucky, o eterno brinquedo assassino, ganha uma série que leva seu nome e faz bom uso de seu legado

Vitória
Publicado em 26/10/2021 às 21h11
Série de TV
Série de TV "Chucky", lançada pelo Star+. Crédito: Star+/Divulgação

Tendo sido uma criança nos anos 1980, Chucky fez parte da cultura pop durante os anos de minha formação. O “Brinquedo Assassino” era meio incompreendido por crianças e adolescentes por sua mistura de terror com comédia, mas ainda assim adorado. Essa relação vinha pela atração pelo proibido (um filme de terror!) e pelas lendas urbanas como as da boneca da Xuxa e o boneco do Fofão; se aquele boneco ruivo de cabelo desgrenhado das telas poderia ganhar vida, o que impediria que a história contada pelo irmão do amigo do vizinho do seu primo sobre a boneca Xuxa ganhar vida no meio da noite fosse verdade?

Criada por Don Mancini enquanto ainda era um estudante do curso de Cinema na Califórnia, a franquia teve sete filmes escritos por Mancini e foi gradualmente abraçando o absurdo em textos como “A Noiva do Chucky” (1998) e “A Semente de Chucky” (2004), que levaram o personagem a caminhos antes inimagináveis antes do apenas razoável reboot de 2019, único filme não escrito pelo criador.

Ignorando o filme de 2019, Don Mancini está de volta ao comando de Chucky na série que leva o nome do personagem e estreia nesta quarta (27), no Star+, com os dois primeiros episódios da temporada. A promessa é de reunir diversos personagens que passaram pelos sete filmes, ou seja, há muito absurdo para ser explorado, mas os episódios iniciais apresentam novos personagens.

Chucky (Brad Dourif) ressurge em uma venda de garagem em Hackensack, Nova Jérsei, e acaba nas mãos de Jake (Zackary Arthur), um jovem de 14 anos mergulhado na crise de pertencimento da adolescência - sua mãe faleceu, ele tenta aprender a lidar com sua sexualidade, com o pai alcoólatra e com os bullies da escola. Jake também tem sua dose de esquisitice, como o desejo artístico de montar um boneco gigante com partes de bonecos quebrados (para isso comprou Chucky), mas é um personagem adorável e de fácil identificação para o público.

O texto de Mancini contextualiza o novo público por um podcast de crimes e logo “explica” quem foi Charles Lee Ray, o assassino cuja alma está no boneco. A série tem início mais como um suspense, com a tensão criada pela presença de Chucky nos lugares ou por um simples movimento do boneco. Há, claro, doses do terror slasher que marca a franquia, mas, com uma narrativa mais longa e distribuída entre os oito episódios da primeira temporada, o roteiro se permite explorar mais relações e desenvolver personagens. É curioso, assim, que simpatizemos com Chucky como uma espécie de anti-herói em alguns momentos, até comprando seu discurso de só matar “quem merece”.

O boneco é recriado com uma mistura de efeitos práticos e computação gráfica, mas esta só é realmente percebida quando o personagem faz alguns movimentos mais elaborados, como expressões faciais, por exemplo. De resto, parece o mesmo robô animado dos filmes dos anos 1990. A tecnologia também funciona a favor da violência, que, apesar de gráfica e exagerada, não parece falsa. As mortes bem elaboradas  estão presentes e inclusive resgatam alguns momentos dos filmes anteriores.

Essas ligações com a franquia de filmes ainda não ficam claras nos primeiros episódios, mas já há a ideia plantada, uma ligação misteriosa e alguns flashbacks que surpreendentemente parecem indicar uma exploração do passado de Charles Lee Ray durante sua infância - o vínculo entre Jake e Chucky deve ser utilizado como um paralelo para a história do assassino.

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Série de TV "Chucky", lançada pelo Star+. Crédito: Star+/Divulgação

O texto consegue dar profundidade a Jake, um adolescente com problemas sociais e ainda tentando se aceitar, além de indicar algum desenvolvimento para Devon (Bjorgvin Arnarson) e Junior (Teo Briones), mas abusa da caricatura na construção da popular Lexy (Alyvia Alyn Lind) e de alguns outros coadjuvantes, todos potenciais vítimas para Chucky. Para ser levada a sério como um slasher em formato de série, “Chucky” terá que eliminar alguns de seus personagens e deve fazê-lo com estilo - se afastando dos erros cometidos por “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”, por exemplo, que vem tentando se reinventar e acaba perdendo sua identidade.

“Chucky” diverte, dá alguns sustos e causa tensão no espectador, ou seja, cumpre seu papel como entretenimento. O que surpreende, porém, é a maneira como o texto é levado para a narrativa seriada de forma natural, entendendo o que precisa fazer para não perder a essência dos clássicos filmes de terror slasher, mas também tirando proveito das possibilidades que uma narrativa mais longa entrega. “Chucky” é uma ótima surpresa com potencial gigantesco (e absurdo) a ser explorado.

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