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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

'Bad vibes' de um relacionamento viram ótimo EP do duo A Transe

Duo capixaba formado pelo casal Francesca Pera e Fernando Zorzal transformou em música as angústias da vida a dois potencializadas durante período de isolamento social

Publicado em 17/10/2020 às 05h00
Fernando Zorzal e Francesca Pera formam o duo A Transe
Fernando Zorzal e Francesca Pera formam o duo A Transe. Crédito: Henrique Cesar Faria

Um ano depois, o duo lança o EP “Bad Vibes de Casal”, registro que mostra que nem só de bonança vive uma relação. O lançamento, como o nome diz, é a transformação em música de um momento da vida conjugal de Francesca e Fernando em que as coisas não iam tão bem.

“Nós estávamos passando por umas bads desde o final do ano passado e naturalmente algumas coisas foram aparecendo nas composições. Aí o caos do mundo ficou ainda mais tenso”, revela Fernando, sem medo de abrir a intimidade do casal.

“Bad Vibes de Casal” tem uma sonoridade também um pouco diferente da do disco de estreia. Enquanto o “Hora Dourada” era a definição do folk-tropical que marca o trabalho d’A Transe, o novo EP é mais “fechado”, soturno e até pesado não em sua instrumentação ou algo do tipo, mas em alguns climas criados pelas músicas e reforçados pelo “Visual-Soundscape”, apoio visual do EP - comandado por Tati Rabelo e Rodrigo Linhalis.

Ouvir o disco sabendo dos bastidores de sua produção desperta um quase voyeurismo. Fran e Fernando abrem o coração, às vezes aparentemente sem medo de machucar o outro - relacionamentos podem ser cruéis, mas só quem está ali dentro entende o que tudo significa. “Percebemos que fomos horríveis um com o outro, cada um a seu modo”, explica o duo, uma das 44 bandas, de 12 países, selecionadas para os showcases oficiais do SIM São Paulo . A Semana Internacional da Música este ano ganha formato on-line entre os dias 3 de novembro e 6 de dezembro.

Confira abaixo a entrevista em que Fernando e Francesca falam sobre a intimidade do EP, as transformações do relacionamento e as descobertas que fizeram ao transformar as angústias em música.

Tem uma sonoridade um pouco diferente do Hora Dourada, um pouco menos "tropical". Foi uma mudança intencional?

Ao mesmo tempo que foi acontecendo foi também intencional, o "Hora Dourada" era solar e o "Bad Vibes" tem a questão astral de ser um trabalho sobre 'bad vibes'… Por isso o EP oscila entre o soturno das 'bads' e o etéreo num vislumbre do perdão. 

O nome do EP já diz muito e tudo pode ser entendido como uma grande DR de um casal, a vida a dois em tempos limítrofes nos faz questionar um monte de coisa, rever comportamentos... Como essas questões saíram do campo da discussão pessoal para virar músicas?

Nós estávamos passando por umas 'bads' desde o final do ano passado e naturalmente algumas coisas foram aparecendo nas composições. E aí o caos do mundo ficou ainda mais tenso, e esse clima pintando não só entre a gente mas também entre nossos amigos. Alguns casais muito queridos se separaram. E aí começamos a sentir que outras pessoas também estavam sentindo algo parecido. Especificamente sair da discussão e virar música, nos lembramos, por exemplo, de "Pra Te Ver", um chegando com trechos da composição "mostre meus erros" e o outro já respondendo no flow "você não sabe amar" e aí a coisa foi amadurecendo e tomando forma como uma música de 'bad' de relacionamento. 

Tendo transformado essas angústias em música, o que muda pra vocês?

Imprimir nas músicas as angústias nos ajuda a digerir melhor quem somos, o que queremos, e a inventar outras fantasias pra continuar a se amar. "Domingo" é um exemplo de um momento muito verdadeiro de perdão e assimilação. Já existia um esboço que se chamava “Sim, eu errei”. Só tinha refrão e a melodia do especial. Nós tivemos uma briga muito séria num domingo, ficamos em casas separadas uns dias, discutimos, nos magoamos e alguns de nossos amigos queridos nos ajudaram a entender o que estava rolando. Nessa volta, conversando a dois, estávamos arrasados e com muitas incertezas do caminho da nossa relação. Aí no meio da conversa rolou um violão, choramos muito e terminamos em conjunto a música refletindo o que estávamos passando. Acho que a música acabou sendo uma ferramenta afetiva pra conseguir superar aquela crise.

O que vocês perceberam sobre vocês nesse período?

Percebemos que fomos horríveis um com o outro, cada um a seu modo, e que precisávamos mudar. Revisitamos um pouco da biografia da nossa relação e da maneira como nos relacionamos com os outros em geral, família, amigos e demais pessoas. Fizemos novos acordos na parceria afetiva e profissional.

Como foi a produção do disco, todo a distância?

Foi todo a distância, em casa. Entramos em pirações com tutoriais, experimentações com ferramentas do programa de gravação e edição (DAW), plugins, e tendo nas mãos um notebook, uma guitarra, uma controladora midi e um microfone. Isso tudo pegando dicas com amigos, equipamentos emprestados, baixando coisas na internet e lidando com nossa aparelhagem bem defasada, ou seja, os clássicos perrengues do independente. Tivemos a participação do luxuoso Dan Abranches co-produzindo a faixa "Pra Te Ver", contamos com a mix detalhista do Alexandre Barcelos, que nos acompanha desde o "Hora Dourada", e a masterização do Igor Comério. 

A ideia do Visual-Soundscape veio depois ou surgiu junto? Pode ser impressão, mas ele ajuda a entender o tom das músicas, a força de cada verso, de momento de quem canta...

A ideia do vídeo chegou depois, a gente sempre quer ter material de audiovisual, mas não tínhamos nem tempo e recursos para a gravação de um videoclipe naquele momento. Recebemos o apoio luminoso da Mirabólica e da figura ativa e criativa de Tati Rabelo. eDecidimos por ser um vídeo mais lento, bem viajante, com noite e dia, brincando com o erro, evidenciando na edição momentos sutis da letra, do arranjo...

Fernando Zorzal

Músico

"Imprimir nas músicas as angústias nos ajuda a digerir melhor quem somos, o que queremos, e a inventar outras fantasias pra continuar a se amar."

Nesse período vocês lançaram também a música com o João Bernardo. Como se deu essa parceria?

Já conhecíamos o trabalho do João Bernardo desde 2011. Depois de muito tempo, ele compareceu à audição do nosso primeiro trabalho, "Hora Dourada", e nos conhecemos, de fato, há um ano, mais ou menos. Um belo dia ele nos mandou "Na Fogueira", essa música poderosa, com um convite para gravarmos com ele. Adoramos, João é um compositor de mão cheia e, como ele mesmo costuma dizer, somos da mesma enfermaria (risos).

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