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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

A Transe lança disco íntimo, pop e poético-político

"Hora Dourada" usa a simplicidade da linguagem popular para falar de renovação e reinvenção

Publicado em 18/10/2019 às 16h06
Francesca Pera e Fernando Zorzal: A Transe. Crédito: Karola Balves e Nunah Alle Son
Francesca Pera e Fernando Zorzal: A Transe. Crédito: Karola Balves e Nunah Alle Son

Sintonia, química, cumplicidade, amor… As receitas para uma boa relação transbordam em “Hora Dourada”, disco de estreia do duo capixaba A Transe. Durante sete canções em 24 minutos, o casal Francesca Pera e Fernando Zorzal convida o ouvinte a partilhar de sua intimidade.

O título do álbum é referência à “golden hour”, a primeira hora de vida de uma criança recém-nascida. “Nascer é um processo muito difícil, rola toda uma mudança de sistema respiratório, de sair do umbilical, de funcionamento de sistema digestivo e excretor, é realmente uma passagem”, explica Francesca. Essa percepção veio com o nascimento da pequena Pilar, responsável por uma nova percepção de vida ao casal.

“Não é só uma coisa para a mulher, ela vive no corpo, mas é algo que veio em nós dois”, explica a cantora, pedindo para Fernando completar. “É além da questão fisiológica, é o primeiro momento de um ser que acabou de nascer, ele vai ter seus sentidos explorados pela primeira vez. A gente acredita que esse momento, essa hora dourada, pode acontecer em outros momentos da vida, sabe? Um momento de iluminação, uma transformação”, pondera Fernando.

Para ambos, esse processo pode ser impactante, mas também revelador. “Um puta insight e uma puta crise porque você se sente meio bosta, sabe? Tudo o que estava tão seguro agora não é mais”, explica Fran, como uma boa estudiosa de Filosofia, fazendo referência ao Mito da Caverna de Platão. “Quando o cara sai da caverna, fica cego pelo sol, não vê nada. Tem que ir se acostumando a ver que a realidade era muito maior do que ele tinha imaginado”. Para o duo, a hora dourada é exatamente isso: enxergar uma perspectiva maior diante de várias coisas no mundo social e político, conceitos até então velados, não enxergados pela sociedade.

Isso nos leva à poesia afetuosa, mas também política, do disco. “É quando bate um medo / meio desejo meio medo / Talvez um dia virá / resposta pra dor no peito que dói agora / de tanto correr o suor /evapora ó tudo que não for / flecha de amor / me erre / me erre”, diz “Me Erre”, quinta faixa do disco. O “medo” pode ser ligado à maternidade, mas também ao mundo que nos cerca. “É o puerpério… algo como ‘velho, sai dessa viagem. O mundo tá sinistro, dá medo e a gente tá tentando encontrar uma resposta pra como estar neste mundo”, explica Fran.

Camadas

Musicalmente falando, “Hora Dourada” traz várias camadas. Tem um quê tropicalista, principalmente nas melodias de vozes construídas pelos dois com harmonizações nem sempre padrão - em diversos momentos as duas vozes cantam em melodias diferentes que se encaixam -, mas também tem muito de música pop contemporânea.

Produzido por Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens) e com arranjos de Henrique Paoli, o disco mostra um novo caminho para a produção de Fernando Zorzal, que já tinha lançado, em carreira solo, os bons “Fernando Zorzal” (2014) e “Cidade Alta” (2016). “Já tinha uma construção nossa ali (na carreira solo), mas a parte musical era mais minha. Quando a Francesca veio com a ideia de montar a banda, a gente passou a fazer as composições juntos, fazer as melodias, as letras, com cada um dando uma ideia”, conta Fernando.

Francesca Pera

A Transe

"Quando o cara sai da caverna, fica cego pelo sol, não vê nada. Tem que ir se acostumando a ver que a realidade era muito maior do que ele tinha imaginado"

Segundo Francesca, a sonoridade mais pop foi influência direta do que eles estavam ouvindo na época. “A gente tá escutando bastante a cena que tá acontecendo agora, tanto local quanto nacional. Começamos a ter essa influência mais pop”. Fernando completa: “No processo de composição surgiram essas influências, coisas mais abrangentes. A gente até brinca que faz uma abordagem meio autoajuda. Sem menosprezar, mas ironicamente”, diz.

A simplicidade do pop também tem a ver com a linguagem, com a maneira como A Transe aborda suas questões. Para Francesca, formada em Filosofia e sempre em contato com conteúdo mais “cabeçudo”, a sabedoria dos memes foi essencial no disco. “Existe uma contração do conceito de linguagem pop, de você entender as coisas sem ficar falando demais. A ideia é tentar contrair isso e tornar ideias profundas em uma linguagem simples”, conta.

“A Hora Dourada” tem uma narrativa que vai do momento do parto, em “Greta”, e termina com “Você Me Ensina”, música composta para a pequena Pilar. “O disco tem uma história engraçada… Seria um EP gravado aqui em casa, mas aí o Bruno Zaneti, do Funky Pirata, chamou a gente pra gravar com ele. Aí pensamos: ‘vamos crescer esse disco’”.

As melodias de Fernando e Francesca são embaladas por um excelente instrumental. O lado pop fica muito em função da tecladista Thaysa Pizzolato, que garante uma pegada mais contemporânea com teclados e baixo synth, e dos beats criados por Henrique Paoli. Além disso, a produção de Gabriela Deptulski garante aquele tempero de psicodelia.

O disco tem convidados como Gavi (“Floresceu”) e André Prando (“Papo de Lelé”). “A Gavi foi engraçado porque a gente só se conhecia de estar no mesmo lugar, de se esbarrar. Tínhamos a música e o refrão, mas eu achei que tinha tudo a ver com ela. Mandamos e ela respondeu logo. Veio aqui em casa, tomou um café, e apresentou o que tinha feito com a música, que acabou virando uma coprodução com ela”, conta Francesca.

Já com Prando as coisas foram mais fáceis, uma vez que o músico é amigo de longa data do casal. “A música tem tudo a ver com ele. Ele foi lá no estúdio e fez uma gravação incrível”, completa a cantora. Além dos capixabas, o disco tem também uma música escrita em parceria com Luiz Gabriel Lopes, da banda mineira Rosa Neon.

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"O disco fala um pouco sobre esse nosso processo de família, sobre a vinda da Pilar, que foi um processo de transformação nosso", encerra Fernando.

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