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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Awake": péssimo filme da Netflix desperdiça boas histórias

Misturando suspense e ficção científica, "Awake", lançado pela Netflix,  acompanha um mundo no qual ninguém consegue mais dormir

Vitória
Publicado em 11/06/2021 às 20h43
Filme
Filme "Awake", da Netfilx. Crédito: Peter H. Stranks/Divulgação

Em algum lugar de “Awake” há uma boa história a ser contada, um bom filme a ser lançado, um suspense tenso, com um drama familiar intrínseco e cheio de discussões sociais, mas definitivamente não é nesta jornada registrada pelo diretor Mark Raso no filme que chegou esta semana à Netflix.

Em “Awake”, um misterioso evento global muito parecido com um P.E.M. (pulso eletromagnético) desliga todos aparelhos eletrônicos mundo afora. Pouco depois, descobrem que o evento também fez com que ninguém na Terra conseguisse mais dormir. Não demora para os efeitos da privação do sono atinjam a população e o caos se instale pelas ruas.

Nesse cenário, conhecemos Jill (Gina Rodriguez), uma ex-militar às voltas com problemas familiares. Por um histórico de Jill com drogas, a sogra (Frances Fisher) agora detém a guarda dos filhos, Matilda (Ariana Greenblatt) e Noah (Lucius Hoyos), que não têm uma relação tão boa com a mãe. Quando Jill descobre que Matilda é uma das únicas pessoas no mundo que conseguem dormir, ela parte em fuga, meio sem saber para onde, antes que algo de ruim aconteça.

Em “Awake”, aparentemente, os efeitos da privação do sono são imediatos. A avó leva Matilda à igreja, para orar por sono ou algo parecido, e a solução encontrada pelos fiéis ao descobrirem que a jovem pode dormir é: “vamos sacrificá-la! É isso que Deus espera”. A reação faz com que Jill parta rumo ao outro destino possível, um laboratório do exército em que há uma pessoa na mesma situação de sua filha.

“Awake” desperdiça uma premissa interessante pela total falta de sutileza na condução do filme e principalmente pelo péssimo roteiro. É difícil defender as escolhas do texto quando ele justifica qualquer ato estúpido com a desculpa da “privação do sono”. Jill, por exemplo, tem preocupação o suficiente em ensinar a filha a dirigir, atirar, roubar gasolina ou levá-la a uma biblioteca, um local onde ela terá que aprender as coisas, mas não se preocupa em deixar a filha dormindo dentro de um dos únicos carros funcionando na cidade, estacionado na rua e com a chave dentro.

Filme
Filme "Awake", da Netfilx. Crédito: Peter H. Stranks/Divulgação

O filme tem diálogos expositivos, exatamente o que se espera de uma obra do gênero, e situações que funcionam como um bingo de clichês, contando apenas com uma ou outra cena que surpreende o público de alguma forma. Na ânsia de preencher a cartela do bingo, tudo acontece muito rápido em “Awake”, o que não dá tempo para o espectador pensar no que acabou de ver ou sentir o peso dos acontecimentos

Mark Raso e o irmão, Joseph, que escreveram o roteiro a partir da história de Gregory Poirer, não entendem ao certo a aventura que querem contar e por isso o fazem com pressa. Não há nada que indique passagem de tempo, o que dá a impressão de que as pessoas surtam de repente - “privação do sono”, justifica o texto. Uma sequência de acontecimentos no terceiro ato, que deveria ser o clímax do filme, se inicia de maneira ridícula e se desenrola no mesmo nível.

Apesar de repetir o tempo todo que o ser humano morre se não dormir, o texto nunca explica as etapas que levam a isso, o que tira muita força do tal apocalipse causado pela privação. Quanto tempo demora para uma pessoa morrer? Quanto tempo levou até aquelas pessoas agirem daquela forma? O sono age diferente em cada organismo? Nada.

“Awake” passa a impressão de que as melhores histórias naquele mundo são as que não estão sendo contadas. Jill e sua família cruzam com algumas pessoas em situações peculiares, mas elas apenas fazem parte do cenário do filme - um grupo de idosos nus observando o sol, presos sendo liberados do cárcere, um grupo de psicopatas assassinos meio zumbis… Uma pena que a construção de mundo seja muito atropelada.

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Filme "Awake", da Netfilx. Crédito: Peter H. Stranks/Divulgação

Para justificar a já citada sequência do clímax, por exemplo, o filme coloca Jill em um estado de alucinação, mas é tudo repentino - em um momento ela está invadindo a estação militar (que, sabe-se lá como, tem energia de sobra), conversando com pessoas, e no outro já está delirando isolada em um canto. O texto só utiliza sua premissa, a privação do sono, quando lhe convém ou quando necessita de um ponto de virada narrativa. Até uma decisão importante, que praticamente sustentaria um arco inteiro, é tomada no susto, de repente, por um coadjuvante que nem aparecera até então.

É difícil entender para onde “Awake” quer conduzir seu espectador. O filme de Mark Raso tem um viés religioso - a última cena lembra muito um batismo e o evento global pode ser uma mensagem divina, com a família de Noah (Noé) renascendo na água. Há uma breve discussão sobre transtorno de estresse pós-traumático (com Jill e também no discurso do pastor vivido por Barry Pepper), mas nada nunca fica claro.

A mesma trama, com acertos no roteiro, poderia resultar em um bom filme nas mãos de um diretor com mais talento para contar uma história e aproveitar suas diferentes camadas. Ao fim, “Awake” é genérico e muito mal conduzido, um filme que desperdiça boas histórias para abraçar os clichês de um gênero batido, mas nem isso acaba fazendo direito.

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