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Crítica

"Invocação do Mal 3" e a picaretagem do "baseado em fatos reais"

"Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" chega aos cinemas com mais um capítulo da popular franquia de terror que leva para as telas histórias "verdadeiras"

Publicado em 09 de Junho de 2021 às 01:55

Públicado em 

09 jun 2021 às 01:55
Rafael Braz

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Rafael Braz

Filme
Filme "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" Crédito: Warner/Divulgação
O selo de obra “Baseada em Fatos Reais”, apesar de redundante, afinal se são fatos, são reais, vende bastante e garante credibilidade. Pouco importa se a obra é realmente baseada em fatos - o que importa é fazer o público acreditar que aquilo aconteceu.
O clássico “Fargo” (1996), dos irmãos Joel e Ethan Coen, é aberto com a afirmação de se tratar de um filme baseado em fatos: “os eventos descritos no filme aconteceram em Minnesota, em 1987. A pedido dos sobreviventes, os nomes foram alterados. Por respeito aos mortos, o resto é contado exatamente como a história aconteceu”. O que esperar de um filme que é apresentado ao público com essas informações?
Por algum tempo, os Coen sustentaram a brincadeira em entrevistas, mas não demorou para Ethan dizer que há duas inspirações reais no filme, duas histórias pequenas que não sustentariam o filme sozinho. Para os Coen, o “baseado em fatos reais” é quase um gênero de cinema. A série “Fargo” é realizada da mesma forma, com a mesma informação de abertura a cada episódio.
A franquia “Invocação do Mal”, uma das maiores marcas do terror no cinema, faz algo parecido com o que fizeram os irmãos Coen na década de 1990. Os filmes e alguns de seus derivados são baseados nas histórias do casal de demonologistas Ed e Lorraine Warren, investigadores de fenômenos paranormais cujos casos se sustentam em suas anotações e em depoimentos de famílias envolvidas - normalmente moradores de casas assombradas ou vítimas de possessões demoníacas. Os Warren já foram desmascarados algumas vezes, mas pouco importa, se tornaram um fenômeno pop.
“Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio”, oitavo filme do universo criado por James Wan, se aproveita de uma história de fato real para repetir sua fórmula de terror ‘jump scare’. O filme tem início com uma exorcismo, quando Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga) ajudam um adolescente possuído a se livrar de um espírito que tomou conta de seu corpo. Durante o processo, em um ato de desespero, Arne (Ruairi O’Connor), exige que o demônio deixe o corpo de David (Julian Hilliard) e até se oferece para ser a nova “casa” para o espírito maligno. A ideia funciona, mas a que custo?
Filme
Filme "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" Crédito: Warner/Divulgação
Pouco depois do ritual de exorcismo, Arne começa a apresentar um comportamento diferente e acaba assassinando seu senhorio após uma discussão que envolvia também Mary, noiva do assassino. Arne então é encontrado coberto de sangue, com a arma do crime, andando desorientado pela rua. Preso e levado a julgamento, ele se diz “inocente por possessão demoníaca”.
O ritual de exorcismo e o assassinato realmente “aconteceram” - obviamente a “possessão” ganhou contornos espetacularizados no filme. Pouco importa, para o filme, que David e o irmão mais velho, Carl, tenham processado Lorraine Warren (Ed já havia morrido) e Gerald Brittle, autor do livro sobre o caso, dizendo que a possessão de David era uma brincadeira e que os Warren prometeram dinheiro para a família se eles sustentassem a história.
Filme
Filme "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" Crédito: Warner/Divulgação
Deixando de lado a possível picaretagem dos Warren e o oportunismo de se vender o filme como uma história real, “Invocação do Mal 3” tem problemas narrativos, mas ainda assim deve atingir seu público. Sem James Wan no comando (o diretor estava envolvido com a direção de “Malignant” e a pré-produção de “Aquaman 2”), “Invocação do Mal 3” abandona também o que restava de sutileza e tensão na franquia.
Chaves, diretor do péssimo “A Maldição da Chorona” (2019), tenta dar mais peso a Arne, mas ele acaba esquecido pelo roteiro. Em cárcere, o personagem ainda sofre com a possessão, mas em momento algum o vemos às voltas com a culpa por ter matado uma pessoa. O arco de Arne, que deveria ser uma quebra de ritmo na narrativa principal, acaba se tornando um acessório para movimentar Ed e Lorraine.
“Invocação do Mal 3” ao menos tenta oferecer alguma novidade narrativa. Ao contrário dos dois primeiros filmes, com casos de casas assombradas, o novo texto oferece um caso mais amplo, com novas possibilidades e até uma dose de investigação policial. A causa do mal também é revelada logo no primeiro arco, na tal cena de exorcismo de David. O desenrolar do filme é uma busca diferente para os Warren, que tentam descobrir quem convidou aquele demônio àquela casa.
Ainda, o roteiro fragiliza a relação do casal de protagonistas e oferece uma inversão, com Lorraine mais à frente, comandando as ações. Vera Farmiga faz bom proveito desse protagonismo e segura bem o filme até mesmo nos momentos mais ridículos, quase risíveis, do roteiro.
Ter o filme em cenários mais abertos e à luz do dia também faz com que “Invocação do Mal 3” ofereça um frescor ao clima de ambiente fechado de seus antecessores. Essa ampliação de escopo, no entanto, também torna o filme menos tenso e mais previsível - é muito fácil saber o que vai acontecer e quando elas acontecerão.
Filme
Filme "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" Crédito: Warner/Divulgação
Essa previsibilidade, porém, não impede os sustos quase sempre fáceis. “Invocação do Mal 3” tem trabalhos impecáveis de som a luz, brincando com as expectativas da audiência, adiantando ou atrasando um pouco o que todo mundo sabe que vai acontecer.
“Invocação do Mal 3” tem bons momentos, mas se leva a sério demais para tentar convencer como “baseado em fatos reais”. É quase irônico que a franquia tenha começado com uma história de terror capaz de estourar a bolha dos fãs no gênero agora se torne cada vez mais restrita a esse nicho. A narrativa de James Wan faz falta, assim como um mínimo de sutileza, mas Patrick Wilson e Vera Farmiga ainda são capazes de segurar o filme de pé mesmo nos momentos mais ridículos.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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