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Crítica

"A Assistente", no Amazon Prime, é ótimo e cruel filme sobre assédio

Com atuação grandiosa de Julia Garner, "A Assistente, lançado pelo Amazon Prime Video, acompanha um dia na vida de uma jovem produtora na indústria de cinema

Públicado em 

08 jan 2021 às 22:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Julia Garner no filme
Julia Garner no filme "A Assistente" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Julia Garner é uma das melhores novas atrizes da indústria. Depois de alguns papéis pequenos ou em filme de pouco destaque, a atriz americana ganhou destaque em um papel pequeno, mas recorrente, na ótima “The Americans”. Logo emendou uma coadjuvante quase protagonista em “Ozark”, que lhe rendeu dois prêmios Emmy, e papéis relevantes em outras séries como a esquisita “Maniac” e a ótima “Modern Love”.
Julia Garner está com tudo e justamente por isso o ótimo “The Assistant” (“A Assistente”) merece ser acompanhado de perto. Dirigido por Kitty Green, o filme que chega sexta-feira (8) ao Amazon Prime Video é simples, mas cheio de detalhes interessantes e com uma atuação gigantesca de sua protagonista.
Em “A Assistente”, Julia é Jane, assistente de produção de uma grande produtora de filmes em Nova York. Recém-saída da universidade e há pouco mais de um mês na empresa, Jane vive as agruras do início na carreira em uma indústria tão competitiva. Cabe a ela levar café, pedir saladas para os colegas e trocar o papel da máquina de xerox, mas também lidar as com logísticas um tanto “complicadas” de seu chefe.
“A Assistente” acompanha um dia na vida de Jane, que vê seus pares masculinos, também assistentes de produção, levarem uma rotina bem mais tranquila. O grande conflito do filme, porém, nem é essa situação, mas o momento em que Jane percebe a possibilidade de seu chefe, que constantemente a assedia moralmente, estar se aproveitando de sua posição de poder para ter relações sexuais com jovens recém-contratadas. Quando Jane tenta falar sobre isso com alguém responsável, logo é desacreditada - por que ela iria querer jogar toda sua carreira fora por algo tão “pequeno”? Toda sua empatia é rapidamente resumida a “inveja de uma mulher mais jovem e mais bonita”.
Oriunda dos documentários, Kitty Green entrega um filme seco e esteticamente duro, com a câmera sempre fixa, quase documental em alguns momentos. A diretora australiana entrevistou centenas de ex e atuais funcionários da indústria de cinema para construir sua narrativa.
Julia Garner no filme
Julia Garner no filme "A Assistente" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Nunca conhecemos o chefe de Jane, mas sua conduta é similar à de Harvey Weinstein; de qualquer forma, poderia ser qualquer outro homem em uma posição de poder na indústria. Aos poucos, vemos Jane definhando, sendo consumida pela situação e por seu ambiente de trabalho. Nesse ponto, a atuação de Julia Garner é incrível - suas expressões faciais, nunca exageradas, nos fazem entender o que sua personagem sente naquele momento.
Com a câmera quase sempre próxima de seu rosto, Julia Garner se transforma a cada comportamento machista de seus colegas ou a cada assédio moral de seu chefe. Jane internaliza seus problemas durante a maior parte do tempo e, quando resolve falar, percebe que talvez fosse melhor ter ficado calada.
“A Assistente” é um filme bem mais complexo do que aparenta ser em um primeiro momento. Jane é diminuída o tempo todo, não só pelos superiores, mas por seus pares e até mesmo pelas jovens por quem tem empatia, pessoas que provavelmente nem percebem o que estão fazendo. A narrativa coloca um holofote em comportamentos que talvez não sejam considerados equivocados por quem os adota, mas mostra o quão prejudicial eles podem ser.
Julia Garner no filme
Julia Garner no filme "A Assistente" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Em alguns detalhes, é interessante perceber como os colegas de Jane estão sempre presos às telas dos computadores ou, principalmente, dos telefones celulares. Aquelas pessoas preferem baixar a cabeça a ver o que acontece ao seu redor. Essa escolha narrativa fica bem claras nos últimos momentos do filme, quando a expectativa é se Jane vai ou não fazer o mesmo.
Ao fim, “A Assistente” é cruel por não ser um filme sobre empoderamento, uma história de luta por direitos e justiça, mas sim sobre uma aceitação de que aquilo é aceito e faz parte da rotina não só da indústria cinematográfica, mas do mercado de trabalho em geral. Talvez Jane se cale e aceite tudo aquilo para seguir seu sonho de seguir uma carreira como produtora, talvez não.
Julia Garner no filme
Julia Garner no filme "A Assistente" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Ao invés de se encerrar com uma grande denúncia, o filme de Kitty Green se encerra com uma sequência na qual é que não é dito importa mais do que o que é explanado, e talvez essa seja a lógica da indústria: é tudo tão explícito que a escolhe é falar ou não. Uma lógica na qual até pessoas "boas", que deveriam se preocupar em promover mudanças, se calam, pois “sempre foi assim”.
“A Assistente” pode muito bem render uma indicação do Oscar de Melhor Atriz para Julia Garner, mas é um filme que vai além de sua grandiosa atuação. Não é uma narrativa convencional, faltam floreios, conflitos mais explícitos, o que pode causar incômodo, mas é um filme sobre empatia, uma obra que faz com que repensemos nossos comportamentos - e se talvez a narrativa não gere esse efeito no espectador, é bem capaz que ele seja parte do problema.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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