Como evitar os traumas em casa
Os traumas acontecem mais em cães do que em gatos. O cão é uma espécie que se desenvolveu nos lares dos humanos, começando lá na pré-história. Desta forma, as seleções naturais que determinariam, por exemplo, esqueletos mais fortes e saudáveis não ocorreram, dando lugar a tamanhos (corpos) menores.
Os cães filhotes são mais suscetíveis a traumas do que os adultos. E nesses casos, as fraturas de rádio ulna (antebraço) em Spitz Alemão e as de úmero (cotovelo) em Buldogues são as mais comuns. Já nos filhotes de gatos, as lesões ósseas mais corriqueiras são a dos dígitos, do fêmur e da tíbia. Filhotes de cães de raças de grande porte, e de gatos, por exemplo, como os Bengal e os Maine Coon, têm frequentemente fraturas na cabeça do fêmur.
Quando um pet sofre um trauma, além da dificuldade de locomoção, outros sintomas aparecem, como dor intensa, seguida de lesão tecidual, que podem ser variadas e na maioria das vezes perceptíveis aos humanos, como hematomas, ralado na pele, perfurações, sangramentos, desalinhamentos do eixo dos membros que dobram onde não deveriam, indicando luxações ou fraturas, com ou sem exposições ósseas, e até uma lesão que por si amputa um membro ou leva o animal à morte.
Os problemas futuros dependerão do tipo de trauma sofrido pelo cão ou gato. Mas de forma geral, os pacientes tratados corretamente, que recebem o atendimento urgente/emergencial, têm melhor prognóstico. Os principais problemas ortopédicos que podem surgir mais à frente são deficiências físicas que acabam comprometendo a qualidade de vida do animal de forma irreversível como, por exemplo, consolidações ósseas incorretas com contraturas musculares e paraplegia. Por isso, o atendimento rápido e realizado por um médico veterinário especializado é primordial.
Alguns cães por suas características genéticas, e por fim de conformação corporal, estão mais predispostos a fraturas. Os cachorros de membros finos/delicados e longos com pouca cobertura muscular e muito ativos são os mais predispostos a esses acidentes. Como exemplo, temos as raças Spitz Alemão (Lulu da Pomerânia), Pinscher e Galgo Italiano. Os pets com os membros tortuosos como Buldogue Francês, Buldogue Inglês, Boxer, Pitbull e suas misturas estão mais propensos a fraturas de cotovelo. Os Buldogues, o Shih-tzu e os Dachshund (salsichinha), por terem problemas de formação em seu esqueleto, estão mais propensos a fazerem quadros graves em traumas de coluna podendo ficar paraplégicos, tetraplégicos e inclusive evoluírem para óbito.
Enganam-se os que acreditam que animais sem raça definida (SRD), os nossos famosos vira-latas, não têm problemas. Tem sim. Aliás, os mesmos que os animais de raça pura e, dependendo, até mais, conforme suas misturas raciais. O que ocorre é que esses animais SRD, quando criados sem proximidade com os seres humanos, escondem seus problemas por instinto de proteção. E isso também ocorre com os de raça se estiverem na mesma situação. Podemos dizer que são cães e gatos que não fazem parte da família e por isso não têm como “contar” seus sofrimentos para os tutores. Assim, muitas doenças ficam silenciosas e cria-se o mito de que esses animais (SRD ou não) são mais resistentes e não têm problemas. Já quando eles vivem em casa, literalmente, muito próximos aos seus tutores, esses ficam mais atentos a todas as ações do animal. Sim, os cães e gatos falam, nós é que precisamos entender o que estão dizendo. Lembrando que os gatos têm menos paciência de tentar nos fazer entender por serem mais independentes.
De forma geral todos os traumas que causam perfurações, lacerações e fraturas precisam de tratamento cirúrgico. No caso de fraturas em membros, infelizmente há muita tentativa de extrapolar a prática de imobilização utilizada por vezes na medicina humana, entretanto cães e gatos não são colaborativos ou ainda pela conformação de seus membros mais presos ao tronco, determinam por fim o insucesso desses métodos. Assim, de forma geral, fraturas em cães e gatos são cirúrgicas, podendo, porém, um médico veterinário especializado em ortopedia e traumatologia fazer essa avaliação e a escolha do melhor tipo de tratamento. Lesões de coluna em animais, de forma geral, se causarem séria dor e perda de movimentos, precisam de intervenção cirúrgica em até 48 horas (período de ouro).
O pós-operatório dependerá do tipo de trauma e sua gravidade, mas invariavelmente precisa da atenção e dos cuidados dos tutores, seus responsáveis quando recebem alta. E esses cuidados são primordiais para dar continuação ao tratamento e a recuperação fora do ambiente hospitalar – sem o comprometimento do tutor como partícipe, nenhum trabalho realizado pela equipe médica, por mais bem feito que seja, terá sucesso. Dentre os cuidados mais importantes estão a utilização de colar elisabetano ou outro método efetivo para impedir que o pet lamba e morda a(s) ferida(s), a restrição de espaço físico para que seja possível o repouso e a correta administração dos medicamentos.
A reabilitação de cães e gatos é muito mais rápida que a dos humanos. Diferentemente de nós que somatizamos nossas neuras, os pets não se preocupam se a cicatriz ficará feia ou o que vão achar deles agora que ficaram com alguma deficiência. Cães e gatos vieram a este mundo para serem e fazerem felizes, eles não sofrem o luto pós-trauma e quando amados e cuidados já iniciam a fase de reabilitação imediatamente.
O tutor precisa ficar atento e evitar que subam em camas, sofás cadeiras e locais altos, colocar telas de proteção em janelas e varandas, não deixar os pets terem acesso a áreas externas sem estarem acompanhados e mesmo quando acompanhados precisam estar presos em guias, e garantir a segurança para que eles não sofram maus-tratos, seja dentro de sua própria residência ou quando levados para banhos ou ficarem em hotéis, por exemplo. É sempre importante verificar se esses locais estão devidamente registrados no CRMV-ES.