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O Setembro Amarelo e o jejum de telas

Um dado alarmante precisa ser reconhecido: há um aumento exponencial nos casos de crianças e adolescentes deprimidos e com ideação suicida. "O Dilema das Redes" mostra que esse aumento coincide com o início do uso de redes sociais

Publicado em 25 de Setembro de 2020 às 16:43

Públicado em 

25 set 2020 às 16:43
Nanda Perim

Colunista

Nanda Perim

Menina com depressão, jovem com depressão, depressão, depressiva, deprimida
No  documentário, eles explicam como o nosso corpo não foi feito para tentar agradar tanta gente ao mesmo tempo, e o peso que tem a busca por likes e seguidores Crédito: Freepik
Relembrando que estamos no mês de conscientização sobre suicídio. Conforme mencionado em coluna anterior, o chamado Setembro Amarelo é organizado nacionalmente desde 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). O dia 10 deste mês foi, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, que tem como objetivo abordar a prevenção e diminuir os mais de 12 mil casos anuais. Segundo o site da campanha, cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.
No entanto, um dado alarmante precisa ser reconhecido: há um aumento exponencial nos casos de crianças e adolescentes deprimidos e com ideação suicida, e no documentário O Dilema das Redes, da Netflix, é mostrado um gráfico nos Estados Unidos, deixando claro como esse aumento coincide com o período em que os jovens começaram a ter acesso à internet em seus celulares, principalmente redes sociais.
Nesse mesmo documentário eles explicam como o nosso corpo não foi feito para tentar agradar tanta gente ao mesmo tempo, e o peso que tem a busca por likes e seguidores.
Na verdade, essa busca por lives é um ciclo vicioso da parte do cérebro que busca recompensas. Nosso cérebro libera dopamina, que é o hormônio responsável por nos sentir motivados a buscar coisas importantes para nossa sobrevivência, como alimentos. No entanto, quando muito estimulado e produzindo em grandes quantidades, ficamos viciados num nível constante de dopamina, trazendo quase uma crise de abstinência quando esses níveis caem, nos fazendo sentir tristeza. Então, pegamos o celular e voltamos a buscar essa recompensa neuroquímica para nos sentirmos melhor.
Acontece que esse sentimento bom é extremamente artificial e alienante, uma vez que nos tira dos níveis normais de dopamina que teríamos ao interagir com quem amamos ou ao ver uma paisagem bonita.
Diminuir a quantidade que consumimos telas é uma sugestão interessante para ajudar na prevenção dos problemas acarretados por isso, e eu indico fortemente principalmente nas vidas de nossos filhos. A ideia é fazer um jejum de telas.
Acostumar toda a família a ter consciência dos horários em que consome telas, ter horários em que toda a família concentra em estar junto, produzindo dopamina nas conversas, brincadeiras e conexão entre si, fazendo uma desintoxicação de likes e mergulhando nos likes reais do dia a dia e da vida.
Eu e meu marido começamos o jejum de telas aqui em casa, e confesso que na quarentena e trabalhando com crianças em casa, não está fácil. Mas não é impossível. O detalhe importante que percebi foi: a etapa da abstinência é a mais difícil. Esse ciclo vicioso nos coloca em hábitos constantes, em que essas telas se tornam chupetas eletrônicas. Quando sentimos desconfortos, inseguranças, medos, chateação, mergulhamos no universo da dopamina fácil para liberar essa tensão.
Acontece que nesse processo deixamos de lidar com o que era necessário lidar, e aí mora um grande risco, principalmente para nossos pequenos! Além de não terem tempo e disponibilidade emocional para lidar, também não têm a oportunidade de nos ver lidando com essas mesmas coisas. Mas a criança precisa de modelos, e se não estamos sendo, alguém está - e essa pessoa provavelmente está nessas telas.
Portanto fica aqui a sugestão de começar o processo de jejum de telas na sua casa, entendendo que a parte mais difícil é a crise de abstinência. Entender a importância de organizar uma rotina, entender que para as crianças essa redução seja gradual, que haja substituições para elas; propostas de atividades, momentos juntos, conexão. Sugiro que comece esse movimento num final de semana, e então durante a semana vocês façam as adaptações necessárias.
A ideia é pensar no longo prazo acima de tudo: qual o efeito incrível que isso vai ter na vida dos seus filhos nos próximos cinco ou dez anos. Nesse documentário que mencionei os especialistas sugerem que crianças não tenham acesso às redes sociais antes dos 15 ou 16 anos. Achei interessante então pensar que esse jejum de telas veio pra ficar. Estou realmente decidida a trazer essa proposta como filosofia de vida e, assim, evitar que meus filhos sejam mais dois viciados em eletrônicos dessa geração, que está sofrendo as consequências, como mencionei lá no começo.
Nós temos o poder de mudar isso, de alterar a forma como nossas crianças vão entrar nessas estatísticas, e precisamos começar pela quantidade de horas dedicadas às telas. Então termino esse texto te trazendo uma reflexão: quantas horas por dia você gasta nas redes sociais, e o que poderia estar fazendo nessas horas de mais produtivo e construtivo para sua relação com si mesmo e sua família?

Nanda Perim

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