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Nessa coluna, Nanda Perim fala de sua experiência como psicóloga e educadora parental, dando seu parecer sobre questões atuais da educação infantil, trazendo dicas, humor e muita novidade boa!

O 'não' na educação: use sem banalizar

A comunicação certa muda completamente a nossa rotina com as crianças, se torna mais leve, com menos episódios de gritos e estouros, o que alimenta um ciclo positivo, perpetuando dias mais felizes

Publicado em 10/09/2020 às 15h11
Atualizado em 10/09/2020 às 15h11
Pai e filha brincando na sala
Com a relação certa, as lutas cotidianas se suavizam e que surge o verdadeiro sentido pessoal da vida compartilhada com as crianças . Crédito: Shutterstock

Primeiramente, vale dizer que como nosso objetivo aqui é promover uma parentalidade mais consciente, um dos aspectos que tem muito poder quando nos conscientizamos é como nos comunicamos pouco (ou mal) com as crianças. E quando a criança não sabe se comunicar, não consegue entrar em contato com sua verdade interior, e tem dificuldade de interpretar (e comunicar) suas próprias necessidades. Ou seja, para ensinar sua criança a se comunicar melhor e - ao invés de birras e mau comportamento - dizer o que precisa, primeiro precisamos nos comunicar bem com ela e, depois, permitir que ela se comunique bem com seu próprio corpo para identificar suas necessidades e vontades sem nossa constante intervenção.

Quando isso não acontece, as crianças tendem a recorrer para o que a autora Laura Gutman chama de “pedido deslocado”. Isso é, sem perceber e inconscientemente, pedem o que aprenderam ser mais visto ou ouvido, que chamará atenção, e não aquilo que realmente precisam. Ou seja, um desejo é manifestado por meio do pedido de um outro desejo, e isso faz com que - não importa o quanto seja atendido o pedido  - a satisfação não venha, já que o verdadeiro desejo não foi sanado.

O exemplo excelente que ela dá em seu livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” é o pedido da bala. A criança fica pedindo bala pra mãe, e mesmo que a mãe dê, a criança continuará pedindo mais e mais. Mas, em verdade, o que essa criança deseja é atenção verdadeira da mãe. Sentar para brincar, tê-la para si, curtir e sentir a presença dela. Mas sem saber pedi-lo, ela pede bala. E como não é bala que quer, continua pedindo.

Aí chegamos ao não. Em algum dado momento, a mãe vai dizer não. “Já chega”. E quando paramos para analisar, muitas vezes o ‘não’ é usado em momentos em que não se está realmente conversando com a criança. Dando-lhe tempo, atenção e, principalmente, comunicação. Dentro disso, percebemos que fica muito difícil compreender o real desejo da criança. Se não há observação e comunicação constantes. Ou seja, presença e atenção. Tempo e amparo genuinamente voltados para ela e nada mais.

Além disso, outro ponto absurdamente importante para compreender nossos filhos é compreender a nós mesmos. Para aprender a enxergar e entender o desejo do outro, precisamos primeiro aprender a compreender os nossos. Todos nós fazemos nossos próprios pedidos deslocados durante o dia, nós mesmos buscamos uma coisa quando nosso desejo é outra, e muitas vezes sequer entramos em contato com nosso verdadeiro desejo. E o contato consigo, o relacionamento consigo mesmo e o autoconhecimento são essenciais para o convívio saudável com bebês e crianças.

Mas e aí, como fazer?

Inicialmente, o mais urgente é desenvolver a capacidade de comunicação com a criança. E, dentro disso, exercitar o direito às verdades. E, dentro desse tema, voltamos a falar da compreensão de nós mesmos. Porque a comunicação com direito à verdade interior exige que você não só entre em contato consigo e com suas verdades, como também que converse com a criança sobre as dela. Vale reforçar, de uma forma ou de outra, chega até ela. E o melhor a se fazer é garantir que chegue da forma mais clara e saudável possível: através da comunicação!

Nanda Perim

psicóloga

"A partir do momento que temos ambas as verdades interiores consideradas (criança e adulto), satisfazer os desejos reais de ambos fica possível, o que pode ser facilitado por acordos. Para que isso seja possível, faz-se necessária a presença e o compromisso emocional, para que haja compreensão do pedido real dessa criança."

Outra dica que a autora dá, que pode-se usar de forma mais imediata, e que ajuda a colocar esses exercícios em pratica, é o uso do “Ah!” no lugar do não e usar a resposta para compreender o desejo real.

Como assim?

A criança pede a bala. Ao invés de dizer não, você diz “Ah! Você quer uma bala? Quer ir lá sozinho ou quer que eu vá com você?”, por exemplo. Aí a criança diz: “quero que você vá junto”. Então você entende que, para além da bala, o que a criança pede é você. Você diz:  “Hum! Eu vou adorar ir lá com você, mas a gente não pode comprar bala, é muito açúcar. Topa fazer outra coisa comigo?” Assim se estabeleceu a comunicação.

A autora sugere, então:

1) Reconhecer as necessidades da criança e verbalizá-las: “ah! Você quer bala? (verbalização) Você quer que eu vá com você? (reconhecer e nomear: reconhecer necessidade, interpretando e nomeando quando estiver desajeitada e confusa)

2) Verbalizar o que acontece comigo (verdade interior): “vou adorar ir com você” ou expor a realidade objetiva “mas nós não podemos comprar bala”, exercitando a comunicação. Para isso, é necessária a dedicação de tempo e o interesse genuíno na criança. Levantar, segurar a mão e ir com a criança explorar o entorno.

3) Propor acordos, optando, a princípio, por uma atitude sim→não. Isso é: “sim, eu vou lá com você, mas não vamos comprar bala”. Nesse caso, o "não" é apenas um não, e não adquire dimensões de privação. Mas, para isso, é necessário que seja no contexto de comunicação verdadeira. O "não" já vem depois da criança ser ouvida, legitimada, depois do adulto demonstrar interesse em estar com a criança e sanar outras necessidades para além do pedido deslocado.

Nanda Perim

psicóloga, sobre a frase de Laura Gutman

"E, para tudo isso, é importante algo que Laura Gutman insiste: precisamos ter, diariamente, uma parte do dia voltada para a dedicação sincera aos nossos filhos."

Ou seja, ter horários específicos na sua rotina corrida para estar com a criança. Não só estar junto, mas estar presente de verdade, disponível não só de corpo, mas também emocionalmente disponível.

Que isso seja algo certo, diário, que o dia tenha muito disso. Que a criança tenha sempre momentos para ter sua atenção, interesse e disponibilidade afetiva, e assim suprir suas necessidades verdadeiras e não precisar fazer pedidos deslocados. E, a partir da comunicação, aprender a pedir aquilo de que realmente precisa, ao invés de deslocar seus pedidos para aquilo que recebe atenção.

Essa comunicação muda completamente nossa rotina com as crianças, por a tornar mais leve, com menos episódios de gritos e estouros, o que alimenta um ciclo positivo, perpetuando esses dias mais leves. A autora diz:

“Veremos que as lutas cotidianas se suavizam e que surge o verdadeiro sentido pessoal que a vida compartilhada com as crianças tem para cada um de nós”.

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