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Nessa coluna, Nanda Perim fala de sua experiência como psicóloga e educadora parental, dando seu parecer sobre questões atuais da educação infantil, trazendo dicas, humor e muita novidade boa!

Chame a criança que tem dentro de você pra brincar com seu filho

É muito importante observar é que no mês da criança se fala muito sobre presentes e pouquíssimo sobre presença. O melhor e mais importante brinquedo que sua criança terá é você

Publicado em 15/10/2020 às 12h01
Criança brincando de boneca, de dar comida pra boneca
Os meninos acabam tendo mais acesso aos brinquedos que desenvolvem suas habilidades, enquanto as meninas têm  brinquedos que promovem o cuidar do corpo, da própria beleza, da casa e dos filhos. Crédito: Shutterstock

Mês de outubro é o mês da criança, mas infelizmente na nossa cultura e o capitalismo acaba imperando, e se torna o mês do presente. É muito curioso o que acaba sendo ‘coisa de criança’ na mentalidade da maioria. Na loja de brinquedos costumam distribuir pipoca, algodão-doce e sucos extremamente doces. As lojas estão entupidas de brinquedos cada vez mais caros. Aliás, são brinquedos que perdem a graça rápido, uma vez que se movimenta, tem luzes e sons, o que acaba minando a criatividade da criança, pois tem pouca coisa para ela efetivamente imaginar. Esses brinquedos quebram rápido e, geralmente, não atraem os adultos para interagir com seus filhos.

Outro ponto negativo que vejo nessa cultura de megalojas de brinquedos são os tipos voltados para cada gênero. No corredor das meninas vemos tudo rosa e roxo. Apenas bonecas e seus utensílios, máquina de lavar roupa, de passar, cozinhas e geladeiras. As bonecas são sempre melindrosas, princesinhas, também rosas, vermelhas ou roxas. São meninas que estão desde muito cedo aprendendo a se encaixar na cultura patriarcal, em que mulheres são vistas como as responsáveis por cuidar. Seja cuidar das crianças, da casa ou de suas próprias aparências: ainda temos os kits de maquiagem, roupinhas de princesa, fazedores de pulseiras e brincos.

As meninas são doutrinadas desde bem pequenas. Aprendem que esses são seus papéis, que esses devem ser seus interesses. E que, fora isso, não é ‘coisa de menina’. Além disso, nem preciso dizer, geralmente são bonecas e personagens (nas imagens da embalagem ou no próprio brinquedo) brancas, louras e de olhos claros. O Brasil que tem 54% de negros e 305 etnias indígenas diferentes, o que faz esse padrão fazer ainda menos sentido. É absolutamente nada representativo para a população que aqui vive e realmente compra esses brinquedos. Aliás, vale dizer que mais de 50% da população mundial têm olhos castanhos, mas ainda assim a maior parte dessas personagens têm olhos claros.

Quando chegamos no corredor dos meninos, já temos outras expectativas. Números, profissões, mágicos e cientistas compõem os personagens e jogos. Além disso, temos personagens fortes, enormes, heróis e médicos, ferramentas de construção, além de armas e de bonecos de ação. Policiais, bombeiros, carros e nada de um brinquedo para aprender a fazer sua parte na casa, nem bonecas para brincar de ser pai. Não, isso está na ala das meninas e não é ‘coisa de menino’. Nessa ala temos cores como preto, azul, verde. E é impressionante como esses brinquedos aprisionam e já ensinam desde muito cedo qual o papel de cada um na sociedade. O que esperamos deles, o que queremos que gostem desde pequenos e desejem. Acontece que esse ‘gosto’ é ensinado, e não natural.

Na Universidade de Indiana, a professora Judith Blakemore fez uma pesquisa que mostrou que os brinquedos que promovem habilidades cognitivas, artísticas, física e de habilidades de vida foram os brinquedos considerados mais ‘neutros’ ou que são considerados moderadamente como ‘de menino’. Sabe o que isso significa? Que os meninos acabam tendo mais acesso aos brinquedos que desenvolvem suas habilidades enquanto as meninas têm brinquedos que promovem o cuidar do corpo, da própria beleza, da casa e dos filhos. Muitas mães acabam vindo na PsiMama defender que existe, sim, brinquedos para cada gênero. Mas são as mesmas mães que vem (com toda razão) dizer que os pais de seus filhos não participam, não fazem sua parte na casa, não querem ‘ajudar’. Por que será? De onde eles aprenderam esse padrão? E como não ensinar isso para a próxima geração?

Outra coisa que é muito importante observar é que no mês da criança se fala muito sobre presentes e pouquíssimo sobre presença. O melhor e mais importante brinquedo que sua criança terá é você. Sua presença. As crianças esquecem brinquedos, roupas, viagens..., mas se lembram de momentos, de horas juntos, se lembram de beijos e abraços, de gargalhadas e brincadeiras. Uma seguidora me contou que sua filha não lembrava o nome das tias, porque tinha muitas. Só não esquecia o nome de uma: a que a levou para passear uma vez num parque da cidade! Presença é essencial, importante e inesquecível para as crianças. E é de presença que o mês da criança deveria estar cheio! Conexão, comunicação, sentar para brincar, e não só garantir que os brinquedos estarão lá. É parar de promover o consumismo, seja de doces, comidas multiprocessadas  ou brinquedos, e começar a promover o que mais importa: a  presença.

E aqui vai uma dica: se você realmente insiste demais em presentes, que tal investir em jogos de estratégia? No começo da quarentena recebemos jogos de tabuleiro para crianças da empresa Galápagos, e isso transformou esse período para nós. Jogue com sua criança! Ensine estratégias, ensine a ganhar, ensine a perder. Aprenda a lidar com suas frustrações no jogo, e então a criança vai assistir e aprender. Se divirta, dê gargalhadas, entra pro jogo! Outra dica legal é realizar brincadeiras sem brinquedos, que usam só o corpo: pedra, papel e tesoura, adedonha, pique pega, monstro de lava, monstro da cosquinha, pique alto, morto/vivo, estátua... Se deixe levar completamente por essas brincadeiras e você verá sua criança simplesmente sorrir a todo momento. Mas vale lembrar: não fique tão desesperado por seguir regras, por corrigir a criança, tente ficar uma brincadeira inteira levando as coisas com leveza, sem querer controlar e brigar. Aliás, não seja o adulto da brincadeira sempre. Chame a criança que tem dentro de você para sair pra brincar!

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